Biblioteca Irregular

Recentemente, refletindo sobre a sensação claustrofóbica da quarentena, imaginei uma situação em que alguém – ao ingressar em uma biblioteca à noite, à procura de abrigo em um cenário apocalíptico qualquer – se perde em seus labirínticos corredores e não sabe como voltar; restando apenas procurar encontrar temas que espelhem e distraiam a sua própria inquietude. Pondo-me na condição desse personagem, comecei a refletir sobre quais livros, temas e eventuais verbetes que leria em uma tal circunstância. No esforço de imaginar essa situação, e, claro, apontar ludicamente para o cenário de incerteza atual, foi que dei a este modesto projeto o nome de: Biblioteca Irregular.

Décimo Ensaio: Janela afora

(Do vampirismo do olhar brasileiro/ Parte II)

Às vezes, antes de dormir, faço uma breve avaliação sobre os eventos mais marcantes do dia. Dentre estes, não há uma única vez que, ao refletir sobre determinadas atitudes e comportamentos, não alterne um estado entre a perplexidade e a sonolência. ‘O que se passa na cabeça dessa pessoa?‘ é a pergunta que subjaz a esse estado. Além desses comportamentos habituais e cotidianos, como uma entrada em local público sem um ‘bom dia’ protocolar; além desses detalhes, às vezes me pego pensando sobre o fato de ver uma pessoa que conheço, mas que finge não me ver. O sono demora a vir, mas quando vem, desengana. Ao despertar, ainda em tom perplexo, vem aquela descoberta já esquecida: ‘Só o brasileiro vê, e não vê‘. Contraditório? Sim, obviamente, mas o que não é, por essas terras? Em psicologia, uma contradição pode ser compreendida como sintoma de neurose, tal e qual quem, ao me conhecer de toda vida, passa por mim e, vendo-me (com uma curiosidade detalhista), finge que não vê. Desperto, tomo café, e recordo Alfred Adler entre uns risos desavisados e uns bocejos: “O neurótico é como um indivíduo normal, só é mais normal.” Desavisadamente, o riso interrompe o meu café, e suspiro ao perceber que, no Brasil, todos somos normais; claro, uns mais normais que outros.

Nono Ensaio: Janela afora (Do vampirismo do olhar brasileiro/ Parte I)

Desde Teofrasto (discípulo de Aristóteles) há um empenho filosófico voltado às questões distintivas do caráter. As definições são inúmeras desde então, e, sem que haja certo cuidado conceitual, quase sempre a ideia de caráter esbarra em outro conceito não menos complexo, qual seja: o de temperamento. Apesar de defender a tese de que a fenomenologia é uma das vias metodológicas mais profícuas na reabilitação de ambos os conceitos, apesar disso, não dispenso o suporte teórico da fronteira que divisa a psicologia da psiquiatria. Meumann, por exemplo, uma dessas figuras de fronteira, entendia o caráter como o motivo selecionador da personalidade; motivo que, sulcando a sua marca na trajetória de um indivíduo, se torna frequente e destacável ao longo da vida. Tornando essa definição ainda mais densa e filosófica, Hugo Münsterberg deu ao caráter a seguinte definição: “sistema de tendências conativas dirigidas” (‘Psychology, general and applied‘, 1914). Definição razoável esta que dimensiona o caráter como a relação entre as tendências conativas dirigidas, ou seja, aquelas que atuam imperiosamente sem que se saibam as suas origens; com os meios inteligentes de ajustá-las às situações particulares. De Münsterberg se pode desdobrar a ideia de que o caráter é o impulso tensional da personalidade entre as tendências inconscientes adquiridas (pela família, pela cultura) e sua adaptação consciente em meio às circunstâncias. Neste ensaio, como em um preâmbulo, tentei esboçar uma reflexão sobre o elemento residual do caráter do brasileiro; elemento que suponho atuante ou ativo desde a colonização. Na tentativa de responder para mim mesmo (sobre traços sobressalentes da minha personalidade e do meu próprio caráter como brasileiro) foi que elenquei as razões que se seguem.

Oitavo Ensaio: O hóspede incômodo (Parte II)

Como já fora apresentado no ensaio anterior, o medo e a ansiedade são modos de se dimensionar o tempo; com uma diferença de graus que faz com que o primeiro leve um indivíduo à projeção de um quadro antecipatório voltado a ameaças reais, e, o segundo, a supostas ameaças. Nesta continuação tentei relacionar a crescente taxa de ansiedade entre crianças e jovens (filhos dos avanços econômicos e tecnológicos) com a resistência à frustração; fenômeno que, desesperadamente, representa a quebra de uma reforçada onipotência infantil. Crianças jamais contrariadas (quando adultas) projetam sobre o mundo o mesmo nível de exigência que, antes, depositavam exclusivamente sobre suas respectivas mães; no que aguça a necessidade de permanente satisfação. A súbita descoberta de que o prato da saciedade nem sempre é reforçado pela figura materna, a médio e a longo prazo, quebra a regularidade temporal desabrigando os sintomas catastróficos da ansiedade. Em linhas gerais, quanto menos uma criança se adapta às exigências do ‘não’, maiores as chances de posterior desenvolvimento de fragilidades emocionais, dentre as quais as fobias e as ansiedades.

Sétimo Ensaio: O hóspede incômodo (Parte I)

Voltando-me a um tema muito constante na atualidade, decidi pontuar e estabelecer uma breve distinção entre o medo e a ansiedade. Como a hidra de Lerna, ambos partem do mesmo tronco, e, se jamais arrostados, crescem até devorar seu portador.

Sexto Ensaio: Solidão Insular

A lembrança de um verso de Salvatore Quasimodo me fez perceber a atualidade daquelas palavras e do desespero silencioso dessa solidão coletiva; pressentida no vazio insular dessas multidões: “Cada um está só no coração da Terra/ trespassado por um raio de sol: e de repente é noite” (‘Ed è subito sera’, 1930).

Quinto Ensaio: Memoriae Restus

(Um estudo sobre a decadência/ Parte II)

A celebração monumental do esquecimento consuma-se na decadência, mas neste caso, não é um mero esquecimento pessoal (o que remeti no último ensaio à paramnésia), mas sim um esquecimento daquilo que há de mais humano, daquilo que há de mais inalienável: a dignidade. Esquecer-se de si mesmo é o mesmo que se perder no império das vontades impessoais e coletivas, mas se esquecer do vínculo com o que há de mais elementarmente humano é decair; é quedar em plena animalidade. Tal é uma breve descrição da decadência, cuja vinculação etimológica com a palavra ‘cadáver‘, em latim, revela o alcance simbólico de sua evocação.

Quarto Ensaio: Memoriae Restus

(Um estudo sobre a decadência/ Parte I)

Dessa vez, o meu enfoque se voltou para o fenômeno da memória para, por vias transversais, chegar ao tema da decadência. A reflexão deste quarto ensaio é como que um preâmbulo ao que desenvolverei no próximo texto.

Terceiro Ensaio: A consciência escuta

Deve-se a Cláudio Galeno (129-199 d.C), um dos primeiros esboços de uma teoria neurológica empenhada em compreender as funções executivas do cérebro. Através dessa teoria, não apenas a atividade cognitiva, mas toda a atividade motora passava a ser compreendida como que dependente de um fluido circulante desde os nervos, a pneuma, que regulava soberanamente o fluxo dos demais humores. Séculos se passaram desde então, mas a teoria de Galeno ainda conserva uma certa beleza e ingenuidade filosóficas, sobretudo, por apontar para a busca da consciência em um domínio que não o habitado por deuses ou vozes ocultas. Nos corredores da Biblioteca Irregular, Galeno e suas intuições neurológicas e neuroanatômicas são presenças constantes. Devo a tais intuições a construção da seguinte reflexão: ‘o que favoreceu, em termos cerebrais, a descoberta da consciência e de sua voz correspondente? Em que instante essa voz interior e sua acústica privada fora percebida pelos homens?’ Em se tratando desse território transfronteiriço, a consciência, não há resposta que a abarque, e eis a sua beleza.

Segundo Ensaio: Bolhas Intelectuais

Dando continuidade à ideia da ‘Biblioteca Irregular’ decidi abordar um tema não menos atual: os modismos intelectuais, aqui pareados ironicamente às bolhas especulativas. Por força dessa paridade, eis que dei a este fenômeno um nome não menos sugestivo: bolhas intelectuais.

Primeiro Ensaio: Crise