Rascunho

A dialética do conhecimento

28_de_heem_183

Por Ivan Pessoa

***

Tomar uma ideia como se fosse genuinamente sua é o único critério hermenêutica para uma compreensão efetiva, processo que, quando plenamente realizado, revela certa grandeza ética ou interpessoal. Empreendê-la demanda um monólogo interior e um diálogo posterior, capaz de apresentar consentimento, correção ou recusa. Portanto, o processo mesmo do conhecimento se dá nesse crescendo que, ao brotar interiormente, amadurece até sua plena exterioridade em um diálogo. Deste modo, sem diálogo (esse encontro de almas) o conhecimento é uma quimera. Vinte anos foram suficientes para que Montesquieu enfim concluísse sua maior obra: “O Espírito das Leis“, e vislumbrasse suas deficiências em um diálogo. Na perspectiva de apresentá-la aos amigos Fontenelle, Helvetius e outros igualmente eruditos, a recusa foi unânime: “Não publique esta obra!” Como a própria história das ideias nos prova, todos se equivocaram, entretanto, por parte de Montesquieu – por mais que fossem pungentes – todas as observações foram incorporadas.


Tal exemplo serve à seguinte reflexão, reportando-nos sobretudo à atualidade brasileira: em que medida pode haver vida intelectual, ou mesmo vida acadêmica, se tudo em volta é sectário e professoral; indiferente à proximidade interpessoal, frequente em um diálogo? Como se pode publicar grandes obras, quando a indisponibilidade ao diálogo encerra qualquer crítica à lá Fontenelle, Helvetius? Se o talento de Proust foi questionado por André Gide, por parecer-lhe carregado de subjuntivos, à maneira da recusa de Tourgueniev para com Guy de Maupassant, segundo o qual, nunca teria talento – como contemplar uma formação superior sem críticas e correções pessoalmente encaminhadas que, quando incorporadas, aprimoram as ideias em questão? Em um ambiente em que as ideias (quando tomadas) são compartimentadas em escolas, modas, artigos, cacoetes e departamentos, nenhum progresso intelectual se pode vislumbrar, com efeito, só pode haver tal progresso se houver diálogo, contrariedade e refutações. Dimensionar a pessoa em um diálogo – por mais defunto que seja o autor – é o único critério efetivamente promissor para a aquisição de conhecimento; processo que se encaminha para a tomada súbita de consciência. ‘Torna-te melhor do que já és‘, encerra toda a questão, no entanto, como promovê-la sem o encontro de almas?

P.S: O processo do conhecimento, por ser dialético, é ascendente; cresce interiormente até uma suprema intuição sobre a realidade. No Brasil atual, desde as Universidades, a recusa e refutação a uma ideia quase sempre extravasa seus propósitos dialéticos, tomadas imediatamente como questões pessoais. Corrija alguém (em público), e, em privado, o terás como inimigo. Uma máxima em latim adverte: ‘O curvae in terram animae et coelestium inanes‘/’Almas curvadas para a terra, e esvaziadas de todo o celeste.’

O que conhece desta vida, aquele que caminha mirando os próprios pés?

 

 

***

 

Ler é uma viagem

Por Ivan Pessoa

***

O sucesso da viagem humana nesta vida é determinado pelos livros que trazemos no alforje íntimo de nossos afetos, à maneira de um mapa do mundo pessoal. Como se compreendesse os prazeres da leitura em tais termos, Gabrielle Collete criou uma expressão oportuna para aqueles que se perdem nessa viagem: ‘radeau-lit‘ ou ‘cama-jangada‘, artefato lúdico que nos acomoda intimamente onde quer que estejamos, ao esboçar sonhos sobre linhas de fuga. Sim, um livro é um ‘radeau-lit‘, como o móvel metafísico de Thomas Mann, aquele que se move na imobilidade. A propósito, imagino Napoleão Bonaparte em meio à campanha inusitada no Egito – no sopé das pirâmides – tentando ler pela sétima vez seu ‘radeau-lit‘ : ‘Werther‘ de Goethe. Imagino, ademais, a queixa e a rabugem de Tolstói: “Jamais viajo sem a ‘Ilíada’ e a ‘Odisseia’ no bolso.”

Para cada viagem, um propósito descansa supinamente encantador; pari passu, página à página. Um dia, um jovem camponês caminhava distraído por uma estrada do oeste norte-americano. Entretanto, ao ver uma diligência que conduzia pioneiros em busca de ouro, sua atenção se recobrou após antever a queda de um livro no chão empoeirado. O livro em questão era nada mais, nada menos que: ‘Pilgrim’s Progress‘ de John Bunyan, livro cuja narrativa evoca a caminhada e a salvação. Anos mais tarde aquele jovem camponês não hesitaria em afirmar que aquele livro empoeirado, distraidamente cadente, modificara a sua vida, comprometendo a busca de sua inquietude política. A vida é essa estrada, por meio da qual certas descobertas nos suspendem à biológica e entediante condição mortal, elevando-nos àquilo que somos. Quantos fracassos, quantas decepções, ou mesmo quando silêncio não é partilhável apenas na marginália de um livro dileto, no caminho íntimo desse ‘radeau-lit‘? Na proporção imediatamente contrária: quantos vigores, quanta força, um único livro não é capaz de açodar? Como uma máquina revigorante, um livro é tal e qual o que Léautaud escreveu em seu ‘Journal Particulier‘, ao descrever o apego às correspondências de Stendhal: “Aquilo que me acompanhará em meu caixão mortuário.” Compreender tamanho lenitivo encorajador, que cresce pari passu, página à página, é a via de acesso à compreensão deste vídeo, provando-nos – mais uma vez – o quanto precisamos cultivar a imaginação, consagrando-a a uma obra, a um personagem e a um propósito. Sem um livro, o homem vaga desenraizado, diferentemente daquele que semeia sonhos enquanto caminha. No mais, aquele camponês se chamava Abraham Lincoln: homem de inúmeras derrotas, mas que triunfava sempre que abria o ‘radeau-lit‘ de Bunyan.

O Gulag do politicamente correto

Por Ivan Pessoa

***

O Poder se caracteriza pela capacidade de reduzir as opções de alguém, inclusive, restringindo a capacidade de alguns de reduzir as opções de outros. Portanto, quando relativamente isonômico – assente na liberdade de seus agentes – o Poder é um processo social sistêmico com resultados inesperados, cujo êxito é a redução de escolhas, o que impede que uns se sobreponham aos outros, à maneira de zonas limiares de restrição. Deste modo, a principal característica do Poder (quando em pleno funcionamento) é o fomento à liberdade de seus indivíduos ou agentes econômicos, de modo que o que se torna constante no processo político-econômico é a ignorância permanente, de modo que os preços – por exemplo – se movem em reação às ações dos agentes e empresas, o que reflete a quantidade total de informação disponível na sociedade. Por se pretender livre, ou seja, por não se assentar em eventos previsíveis, todos os riscos econômicos são potencialmente admitidos desde aqueles que investem, àqueles que consomem, de modo que a tônica do processo político-econômico é a liberdade. Ora, quando não se ajusta em tais termos, tornando-se centralizador, eis que surge uma supercompensação de forças e consequente concentração de Poder, cujos riscos (constantes na perspectiva conservacionista de preservá-lo) enseja aquilo que Adolf Berle e Gardiner Means em 1932, em: ‘A moderna corporação e a propriedade privada‘, chamaram de corporativismo. Ao redor dessa concentração de Poder corporativo se assenta uma concentração proporcional de privilégios que se chama: ‘rent-seeking‘, ou seja, a tentativa de regulamentar toda e qualquer livre iniciativa, anulando a intencionalidade dos agentes econômicos e por sua vez a liberdade. O que se esconde por detrás da concentração de privilégios senão mais e mais Poder da elite corporativista que lucra com o monopólio, por meio da qual a liberdade dos agentes econômicos é consignada à falta de outras demandas e opções? Para os interesses financeiros dessa elite existe algo mais lucrativo que defender uma entidade coletiva que culmina no império global de um Indivíduo Absoluto? Descobrir quem lucra com os monopólios, barganhando um ‘rent-seeking‘ do globalismo, é a primeira fase para entender o jogo geopolítico, bem como suas implicações no cenário internacional.

OBS: Combater esse ‘rent-seeking‘ no passado, custou aos dissidentes russos o infortúnio dos Gulags. Entretanto, o próprio dissidente Vladimir Bukovsky, com notória genialidade, afirma que os Gulags da União Europeia são os grilhões semânticos do ‘politicamente correto‘. Nada é mais atual que esta questão; nada é mais atual que este vídeo

Françoise Sagan por acaso

AVT_Francoise-Sagan_7907.jpeg

Por Ivan Pessoa
***

Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita;
para que a tua esmola fique em secreto.” (Mateus, 6-3,4)
***
Toda leitura que faço, costuma ser alentada por uma certeza hermenêutica de que aquilo tem que necessariamente me encaminhar à Verdade, por mais despreocupado que pareça o ato de ler, processo que quase sempre deve lançar luz sobre a realidade ao derredor. A quantidade de livros que abandono por esta razão, sempre me escandaliza, mas, no entanto, só leio o que me engrandece ou o que de alguma forma me faz compreender a realidade circundante. Em menos de um mês consegui ler uma introdução à obra de Bernard Lonergan, entretanto, ainda folheio timidamente: ‘Sob o sol de Satã‘, de Georges Bernanos, afinal tenho uma impressão que a leitura demanda uma inesperada demora.

(Ao me deparar com um livro já degastado em alguma prateleira da casa, me senti tentado a empreender uma leitura). Se Anaïs Nin carregava a obra: ‘A Alegria’, do anteriormente citado Bernanos, apenas pelo título, o livro: ‘Bom dia, Tristeza‘ de Françoise Sagan, me instigou igualmente a curiosidade. “Nada demais – pensei – apenas um desgastado conflito familiar.” Mas, eis que, para minha surpresa, em uma dessas ocasiões em que a literatura enuncia uma Verdade (é tanto que a autora recorrentemente citava esta frase, em inúmeras ocasiões), fui tomado por uma certeza que fala mais sobre as relações atuais, do que qualquer teoria poderia supor, o que do mesmo modo acaba por nos revelar:

” – O que falta à nossa época é a gratuidade. Fazer alguma coisa sem que os outros o saibam. Fazer alguma coisa por nada é maravilhoso. Sabes o que é isso? Se queres algo; sofrer por isso, o faça, mas cale por dentro, por que dizer é matar, e talvez, nada seja mais gratuito que aquilo que se deseja espontaneamente.” (Françoise Sagan, 1954).
Quiçá, o que falte para essa geração virtual seja exatamente isso: a espontânea gratuidade, ou seja, um conjunto de ações grandiosas, mas jamais alardeadas.
Tudo aquilo que muito se mostra, se torna vulnerável – como os almoços em redes sociais, como as frases feitas de uma manifestação: ‘menos ódio, mais amor.’ O Amor é gratuito como os livros que abandonamos.

***

A suprema arte de dizer TUDO sem dizer nada

Por Ivan Pessoa

Corra! Providencie, o mais rápido possível, o melhor assento; o mais estratégico, em qualquer auditório de qualquer Universidade, cuja a pauta gire em torno dos habituais, e jamais questionados: o fim do capitalismo, o fim do patriarcado, o fim dos gêneros, o fim da metafísica, o fim do sujeito consciente, o fim da história, o fim do homem, e, enfim: o fim do tudo ou nada. Em seguida, aprume os ouvidos! Pronto! Ouvirás as mesmas palavras ditas, desde sempre, como desencadeadoras da mudança em curso, entretanto, as ouvirá sem o efeito imediatamente esperado pelo agente, pelo falante do discurso, qual seja: mudar o mínimo possível, despertando no ouvinte, a necessidade – ao menos existencial – de criar algo suficientemente grandioso para apressar os ciclos do fim, a-final ao sair do auditório; um entusiasmado espectador encontrará o mundo tal qual deixara ao entrar naquele portal finissecular: indiferente, imprevisível e dinâmico a um, dois, ou mesmo três conceitos. ‘O mundo é isto‘, diriam os sábios hindus. Independentemente de qualquer ação deliberada, o mundo dispersa qualquer possibilidade de compreensão para além daquilo que já é regular: vida, morte, doença, tristeza e eventuais alegrias, aliás, o que nos resta é observar seu próprio estado de conservação e destruição, buscando meios de promover – na miséria de nossa condição – gestos tão grandiosos quanto atemporais; gestos que, desinteressados, nos fariam ser o que somos em todas as eras e circunstâncias históricas. Portanto, todos os propósitos do mundo, e sobretudo, dos homens sobre o mundo são inapreensíveis imediatamente, de modo que toda a sua finalidade é imponderável, e, igualmente inalcançável nos assentos de um auditório. 

Por fim, um dia, perguntaram ao parlamentar britânico William Gladstone, quantos discursos um homem podia preparar em uma semana. Como se indispusesse os microfones, e todos os auditórios; no final de todos os mundos academicamente possíveis, Gladstone respondeu: “Se é um homem de alta capacidade, um só. Se é um medíocre, dois ou três. Se é um imbecil, uma dúzia.” Em ordem, um só, quer dizer: correção, leitura, maturidade e, sobretudo, compreender o mundo real antes de elucubrá-lo. A seguir, dois ou três, expressa: aquela fase intermediária, entre a vaidade e a imaginação dos aplausos, em vias de chegar na meta final, qual seja (?): escrever dúzias, dezenas e, quando, aclamado, centenas. Às dúzias, às dezenas, às centenas, o único fim que interessa àqueles que professam – finalmente: o fim do capitalismo, o fim do patriarcado, o fim dos gêneros, o fim da metafísica, o fim do sujeito consciente, o fim da história, o fim do homem, é – o tudo ou nada, ou seja é o fim do mês

Enfim, com mais humor e mais desenvoltura, este vídeo demonstra – em poucas palavras – o que tudo isso, ou nada disso, quer dizer. 

.

” target=”_blank”>

***

Ossip Mandesltam

ossip-mandelstam-en-1934-photographie-du-nkvd

Por Ivan Pessoa

Em 1960, no funeral de Boris Pasternak, seus amigos leram corajosamente seu poema proibido pelos soviéticos, ‘Hamlet‘. Diferentemente de Pasternak, Ossip não tivera tais pompas, sendo visto pela última vez, anonimamente – em meio ao frio e em pleno gulag – a recitar Virgílio. Para compensar e redimir o anonimato de sua lápide tumular jamais inscrita, decidi imaginá-la à guisa de algumas palavras ligeiramente poéticas. Por certo, as concebi como uma pretensa continuação a ‘Hamlet‘ de Pasternak, para quem: “Viver é mais que atravessar um prado“. Aliás, assim as estendi corajosamente:


Algumas pessoas vivem
tão desencarnadas,
que, lançadas ao rancor
e à pequenez da própria sorte,
quiçá, só vejam a própria vida:
em desajeito; e já desalinhadas,
no corredor estreito da (própria) morte.’

***

Carl Jung

Por Ivan Pessoa

Em 1909, em Viena, se deu a ruptura decisiva entre Freud e Carl Jung. Do episódio não admitido por Freud, decorrente do chamado: ‘fenômeno catalítico de exteriorização‘ (presente neste trecho do filme: ‘Um método perigoso‘), Jung passou a tornar público – contra Freud – que enfim havia se ‘libertado interiormente da sensação opressiva de sua autoridade paternal‘, o que culminaria posteriormente na definitiva incompatibilidade com alguém que, segundo ele, ‘colocava sua autoridade pessoal acima da verdade.’ Por certo, e na tentativa de encerrar a querela, que lhe custaria anos e anos angustiados, Jung decisivamente escreveu a Freud; sem se dar conta de que, com sutileza, alcançara os ares supremos de como silenciar um acadêmico sem lhe macular o orgulho ou o paletó: “É apenas ocasionalmente que me aflijo com o desejo meramente humano de ser compreendido intelectualmente e não ser medido pelo parâmetro da neurose.” 

***

Baudelaire em chamas

Por Ivan Pessoa

” – Para que o fogo pelo fogo nos redima.” (T.S.Eliot: ‘Little Gidding‘) 

Classificando-o entre os artistas incendiários, ou para usarmos sua expressão, entre os: ‘fosforescentes‘, o crítico de arte Stanislas Fumet escreveu isso sobre Charles Baudelaire: ” o mais novo Virgílio dos infernos humanos.” Preservando esse mesmo teor ígneo, mercurial e o calor desse elemento fogo, tão caro aos incendiários e à poesia, um dia, o crítico literário Sainte-Beuve escreveu sobre Baudelaire: “Quisestes arrancar os segredos dos demônios da noite.” Como resposta, eis que o poeta lhe encaminhou esse verso, tão sutil quanto corrosivo:

***

hesse2

Hermann Hesse

Por Ivan Pessoa

Em 13 de março de 1922, T.S.Eliot escreveu para Hermann Hesse, em francês, não apenas sobre sua obra ‘Blick ins Chaos‘, mas também sobre o fascínio desencadeado por sua compreensão oriental acerca das coisas, atestável desde ‘Sidarta‘. Há rumores, inclusive, de que durante anos e anos, antes de se converter definitivamente ao cristianismo, Eliot teria resistido, angustiado, entre o hinduísmo e o budismo, e, até certo ponto – segundo a crítica especializada, quiçá, seu magistral ‘A Terra Desolada‘ seja um atestado desse dilema.


Na tradição do budismo tibetano, quando alguém descobre sua Verdade interior, o efeito espiritual é simbolicamente comparável a um trovão, cujo esplendor é similar a um diamante. Tal fenômeno búdico é chamado de: ‘vajra‘. Alcançar tal Verdade, para a tradição hindu, significa um processo longo, incansável e, por vezes, solitário, chamado de: ‘Svādhyāya‘, processo compreendido como uma contínua auto-confissão ou exame de consciência.


Em linhas gerais, a seguinte frase de Herman Hesse atesta o nível mais espiritualizado de ‘vajra‘ e, por conseguinte, de ‘Svādhyāya‘: “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba.”


O contrário também é verdadeiro: por menor que seja, há algum encanto espiritual admirável em T.S.Eliot, tanto quanto Hermann Hesse, que me emudece. Por que será?

 ***

Ashram

Por Ivan Pessoa

proj-27-361

O paradoxo das religiões é que seus templos estão cheios de homens vazios.

***

O caso Foucault

Por Ivan Pessoa

A mesma França que fecundou o pensamento de Michel Foucault, conseguiu gestar em um período mais nebuloso ainda, em pleno século XVIII, um Antoine de Rivarol – de longe, com maior densidade que qualquer moda francesa contemporânea poderia supor. Curiosamente, de posse de suas tiradas espirituosas; e não menos geniais, poderia objetar – por vias irônicas – o entusiasmo à obra de Foucault, por mais que respeite seus eventuais leitores.

Ao abade de Vauxcelles, pregador de orações fúnebres, escreveu Rivarol: “Nunca se aprende melhor o nada do homem do que na prosa desse autor.” Ademais, sobre um trabalho do fabulista Jean Pierre Florian, assim Rivarol se contrapôs: “Metade do volume está em branco e é o que ele tem de melhor.”

O que Rivarol escreveria se lesse as palavras desse autor (?): “o homem (…) provavelmente não é mais que uma brecha na ordem das coisas (…). É confortante e fonte de profundo alívio pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que ainda não contemplou dois séculos de idade, uma ruga nova (…) e que irá desaparecer de novo.” (Foucault, ‘As palavras e as coisas‘, 1966).

Confuso, não? Por algum motivo, o homem pós-foucaultiano desapareceu, mas alguém na PUC insiste em concebê-lo ‘ex cathedra‘, como se a grandeza de um verdadeiro pensador demandasse carimbos oficiais e chancelas burocráticas. Imagino os discípulos de Aristóteles e Swami Ramana Maharshi cobrando de seus superiores, o devido busto pelos serviços intelectuais prestados pelos seus Mestres. Aliás, não sei bem o que Rivarol diria sobre esses reclames burocratizantes, mas sei sim que um outro indesejado marginal, igualmente francês, assim o insinuou: “Acadêmico é alguém que se torna poltrona quando morre.” (Jean Cocteau).

Cátedra em latim é cadeira, mas por motivos academicamente protocolares também pode ser poltrona.

***

Super-Nietzsche

Por Ivan Pessoa

Por mais apressada que pareça, sempre admirei a pujança das palavras de Karl Jaspers sobre a obra de Nietzsche: “Um campo de ruínas, coberto de destroços contraditórios.” A bem da verdade, minha resistência ao nome do alemão se deve menos a algumas de suas ideias: apaixonadas e confusas, e, sobretudo, a seus leitores: assoberbados pela descoberta de – a partir de sua obra – depreender o sentido total da existência. Pelos mesmos motivos é que sou solidário ao cinismo de Heinrich Von Stein, segundo o qual, lamentava-se de não haver compreendido mais de doze frases do seu ‘Assim falava Zaratustra.’ Na mesma direção, e com relativa ironia, o crítico Agripino Grieco escreveu certa vez que, depois de três longos estudos de Elísio de Carvalho sobre o alemão, José Albano o interpelou suavemente, insinuando o abandono da recepção adolescente e posterior leitura mais amadurecida: “Você precisa ler o Nietzsche, Elísio. Você precisa ler o Nietzsche…”

Ambas as considerações convergem para a sutileza das palavras de Bertrand Russell. Ademais, subscrevo cada uma delas, ciente de que o alemão deve ser lido com bastante cautela, sob pena de forjar super-homens e super-heróis.

***

A solidão em fuga

Por Ivan Pessoa

***

Certa vez, questionado sobre o porquê abandonou a bateria por um instrumento de sopro, respondeu o saxofonista Lester Young: “Sabe, a bateria é uma coisa horrivelmente complicada. No fim dos concertos, quando acabava de desarrumá-la, já todos os colegas se tinham ido embora com as mulheres mais bonitas.” 

***

O medo de ficar só e conviver somente com a solidão, talvez seja o receio do cidadão comum, e por que não, do artista – mais sensível que a mediania dos homens, daí a contínua necessidade de reavaliação. Mudar os hábitos; mudar os rumos; mudar a arte de compreender a vida, eis o peso das palavras de Lester, capaz de renunciar a si mesmo e empreender fuga do que antes fora.

***

Um dia, escreveu Albert Camus: “A solidão perfeita, no mictório de uma grande estação ferroviária, à uma hora da manhã.” Contra essa solidão – decadente, e tão tributária quanto cotidiana – é que o clamor da arte desperta ainda mais cedo, e vive a se entranhar nos olhos dos que criam; antes mesmo que o dia anoiteça como uma lua cheia de murmúrios e velhice. 

Um comentário sobre “Rascunho

  1. Estive lendo algumas de suas postagens e pude perceber o quão bela escrita você tem, quando me refiro a bela escrita não me refiro a escrever corretamente, mas à capacidade que sua escrita tem de contagiar o leitor, a fazer com que tenha curiosidade de ler todas as postagens. Parabéns meu caro!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s