Por Ivan Pessoa

§1

Em uma sociedade sadia, leia-se: com o devido reconhecimento de graus hierárquicos por parte de seus indivíduos, a nobreza se contrapõe à pequenez sendo acolhida imediatamente. Outrossim, aquilo que é grandioso é compreendido à luz de sua grandeza, de tal modo que desconhecê-lo é incorrer em um barbarismo próximo à mediocridade. Por certo, em tal sociedade: a divisa determinante entre aquilo que é nobre daquilo que é inferiormente canhestro é a consequência da assimilação espontânea de seus respectivos indivíduos, capazes de externar apropriadamente um gesto de admiração ou de recusa face um comportamento humano ou a uma obra de arte. Ter nobreza, portanto, é reconhecer a grandeza daquilo que é infinitamente superior às limitações do indivíduo, condicionada a determinados níveis de excelência interior. Mencionar o ensinamento védico, proveniente de um de seus textos:  ‘Aitareya Aranyaka‘, não seria de todo inconveniente: “O indivíduo nasce de acordo com a medida de seu próprio entendimento.”

§2

Em uma sociedade sadia, tal nível de entendimento é ajustável, e cresce a partir dos graus de hierarquia que se pode reconhecer espontaneamente. Admirar-se com uma boa música, e logo em seguida saudar interiormente aquele que a compõe, é tão importante quanto reconhecê-la acima de uma canção de qualidade suspeitável. Como reconhecê-la senão como consequência da nobreza que já se tem naturalmente n’alma? Não por acaso, escreveu Thérèse de Brunswick sobre Ludwig van Beethoven: “Depois dos gênios, seguem-se imediatamente aqueles que sabem reconhecer o valor dos gênios.” Portanto, é na partilha entre a grandeza e seu devido reconhecimento, que se encontra a medida do indivíduo e  sua respectiva civilidade.

§3

Se assim for, vejamos. A primeira vez que Gregor Sebba (conhecido estudioso de René Descartes) viu um debate com o filósofo Eric Voegelin, escreveu – sem ressentimentos – que sua argumentação se consagrava, sobretudo por subir verticalmente até a ionosfera. N’outro plano, quando da primeira vez que vira T.S.Eliot em uma declamação pública, o novelista Arnold Bennett não mediaria esforços em afirmar: “Se eu fosse uma casa, isso a teria derrubado.” Tanta nobreza também ecoaria incorrigivelmente nas palavras do poeta cubano José María Chacón y Calvo, logo após seu encontro com o poeta Federico Garcia Lorca em Sevilha: “foi como conhecer a matéria da poesia.”

Nada esvazia mais a vida de sentido, que as palavras que jamais são ditas.

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