Por Ivan Pessoa

§1

Em uma era cada vez mais atomizada, por que assentada em um impremeditado padrão de mediocridade, quem possuir relativo domínio sobre algo, acaba por sobressair-se em nome de sua especialidade. Sob tal domínio cada vez mais fragmentário, tudo é gestualmente envaidecido e especializado. Entretanto, ser um especialista é refletir o estado atual de uma época em franca decadência, notabilizada pela celebração ao mínimo possível: nada de criatividade, nada de criação. Somadas à leitura de alguns poucos capítulos e alguns parcos parágrafos, eis a fórmula inconcussa dos saberes contemporâneos com seus bacharéis, licenciados e doutores.

§2

Levado a sério, quantos doutores resistiriam a este aforismo de Karl Kraus (?): “O valor da formação se revela da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo de sua formação.” ( ‘Ditos e contraditos: Imprensa, estupidez, política‘, 1909). Ora, sem o saber, Kraus reafirma um compromisso velado com aquilo que o ensaísta britânico Walter Bagehot, chamaria de: ‘era do debate‘. Para Bagehot fomentar a partilha de saberes não especializados entre pessoas cultas, seria a única esperança em um período de aguçado declínio do intelecto. Neste espaço de troca de saberes, o filósofo dialogaria com o poeta que, por sua vez, dialogaria com o cientista. Aproximadas analogicamente, tanto a frase de Kraus, quanto a ideia de Bagehot exigiriam um lugar que favorecesse tal troca, algo que inquestionavelmente assemelha-se ao local ideal para o diálogo: a Universidade. Entretanto, se a Universidade também estiver corrompida, tendente cada vez mais à especialidade e suas migalhas intelectuais, que fuga restaria senão a auto-confessada busca pelo conhecimento, partilhável entre seus corajosos e providenciais outsiders?

§3

A crise da Universidade implica a crise de tal: ‘era do debate‘, o que, aliás, é a representação clara do encurtamento da profundidade intelectual, cujo ápice supõe – cada vez mais -, a escrita e consequente aprovação em uma revista especializada. Em crise, a ausência do debate público entre homens com notório saber sobre determinadas questões (professores, artistas, filósofos, cientistas e clérigos) enseja o que o escritor inglês Arthur Machen, chamou de: ‘perverso comércio vil‘; uma aclamação e, consequente, mercantilização de análises superficiais, empobrecidas pelo padrão da mediania burocrática das academias de papel. Em tal comércio, os especialistas vendem seu capital intelectual ao modo dos antigos sofistas, ou seja, a troco de algumas vantagens: sejam financeiras, sejam pessoais. Ora, o que se pode esperar de um ‘philosophiae doctor‘ cujo suprassumo de sua investida intelectual é um recorte de ideias que lhe escapam, e sob as quais, nem mesmo seus conflitos mais íntimos são justificados? Ademais, de que forma se comportaria tal scholar se, convocado a um auditório – apinhado de curiosos entusiastas, o pré-requisito do debate fosse a resolução de uma pequena pergunta: “Quem sou eu?” Quantos defenderiam seus currículos à luz de suas irrefletidas certezas? Portanto, a crise é proporcional à negligenciada autodescoberta.

§4

A compreensão sobre algo exige – muito antes – meditação, que por sua vez implica experiência; sem a qual toda presunção é falsa ou artificiosa. Se amplificado interiormente, o tom aforismático de Kraus quer nos dizer: ‘- Procure meditar sobre aquilo que excede tua zona de conforto intelectual.’ Sob tal descoberta é que se assenta a humildade em reconhecer seus próprios limites, e em tal centro se arranja um conjunto de familiaridades. Desse modo, quando confessado humildemente para si mesmo, o percurso natural é a sabedoria, harmonizável como uma inesgotável necessidade de saber mais. Por outro lado, o contrário também é verdadeiro: ler e meditar sem profundidade, debruçando-se sobre as eventuais conquistas de uma titulação, o que favorece tanto a especialidade de um doutor de papel, quanto as palavras de Bertrand Russell: “um acadêmico é uma pessoa que pensa que sabe mais do que sabe.” No entanto, humildemente: quantos sabem disso?

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