Por Ivan Pessoa

§1

No livro de Gustav Janouch: “Conversas com Kafka” (1983), o relato sobre o estado de saúde do autor tcheco impressiona. Na metade do livro, Janouch dispara: “Kafka, quando lê, parece um leitor de Dostoiévski de Emil Filla.” Em 27/01/1922, passados os incansáveis e desgostosos conflitos com sua faina jurídica, Kafka passa por um colapso, descrito por ele mesmo como: ‘zusammenbruch‘. Alterna-se uma irremediável insônia; dores de cabeça e a estranha sensação de alheamento, ou seja, a impressão da progressiva distância do corpo para além de si mesmo. Após conseguir uma licença médica por esses motivos, Kafka viaja para Spindelmuhle, República Tcheca. No hotel, misteriosamente, registram seu nome como: Joseph K. A partir desse fato inesperado, o escritor começaria a redigir seu último romance: “O Castelo“.

§2

Em 1936, Józefina Szelińska – noiva do escritor Bruno Schulz, faria a primeira tradução de ‘O Processo‘ para o polonês. Em seu posfácio, Schulz alcançou com um recurso aforístico de notável envergadura, uma das mais excelsas análises sobre o escritor tcheco: “Kafka enxerga a superfície realista da existência com uma precisão incomum, e conhece de cor, como se fosse um código de gestos, toda a mecânica exterior dos acontecimentos e situações, de que maneira eles se encaixam e se entrelaçam, mas para ele isso tudo não passa de uma epiderme solta sem raízes, que ele desprega como uma membrana delicada e usa para recobrir seu mundo transcendental, enxertando-a na sua realidade. (…). A atitude dele diante da realidade é radicalmente irônica, traiçoeira e profundamente mal-intencionada – a relação de um prestidigitador com o seu material bruto. Ele só simula a atenção com o detalhe, a seriedade e a precisão elaborada da sua realidade a fim de comprometê-lo ainda mais integralmente.

§3

Em meio aos seus inumeráveis conflitos e na companhia de Gustav Janouch, Kafka visitou uma exposição de pintores vanguardistas numa galeria de Praga. Ao se deparar com uma obra de Pablo Picaso, Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente as coisas com relativa crueldade. Sem pestanejo, Kafka respondeu: “Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência. A arte é um espelho que adianta, como um relógio não as nossas formas, mas as nossas deformidades. “

§4

Bruno Schulz costumava afirmar que a escrita, como a arte de um modo geral, emerge de uma zona pré-ontológica, uma esfera cujo mistério é permanente: remissível por meio dos símbolos. Portanto, para Schulz a função do artista seria harmonizar o entendimento para ‘os balbucios do delírio mitológico.’ Tais balbucios estiveram presentes e foram insinuados naquele hotel em Spindelmuhle; naquela galeria em Praga e, sobretudo, nas palavras de Schulz, segundo os críticos, o escritor que mais teria se aproximado do gênio kafkiano: “O nó em que a alma se vê atada não é um nó falso que se desfaça quando suas pontas são puxadas. Pelo contrário, ele aperta cada vez mais. E da nossa contenda com esse nó emerge a arte.” Entrelinhas, esse nó espreita a escrita.

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