Por Ivan Pessoa

§1

Questionado certa vez sobre seu inveterado alcoolismo, o escritor austríaco Joseph Roth, respondeu a um amigo preocupado: “E você, acha que vai escapar? Você [como eu] também vai ser exterminado.”  Pouco tempo depois, mais especificamente em 1939, o autor faleceria em um hospital parisiense, acometido de delirium tremens. Quando vivo, na condição de exilado em Paris, decidiu alternar sua rotina no café de um pequeno hotel: escrevendo, recebendo seus conterrâneos; amigos ocasionais e bebendo demoradamente. Entre os intervalos dessa vida atribulada, lograria um êxito inesperado ao escrever sua grande obra: ‘Radetzky Marsch‘ (1932). Sempre que instigado como conseguira construir uma obra de grande fôlego, já que não tinha o hábito de ler, Roth costumava responder citando Karl Kraus: “Um escritor que passa o tempo todo lendo é como um garçom que passa o tempo todo comendo.” Portanto, ter sensibilidade, inteligência e coragem para sondar a vida é certamente mais crucial que o acúmulo de livros confinados em uma biblioteca particular.

§2

Sob quais efeitos decorrem os louros de um autor e daquele que lê uma obra? À maneira da observação de Roth, relacionada a um garçom, um escritor tanto quanto um leitor, precisa submeter sua leitura à absorção da própria vida, sem a qual propaga uma compreensão particularmente parcial sobre o que é lido. No mais das vezes é em um plano de baixa ou nenhuma absorção, que os grandes desvios são cometidos em uma leitura, revelando antes um fracasso monumental que propriamente um entendimento acerca do que é lido. Destarte, a assimilação de uma obra, tanto na interioridade de quem escreve, como na recepção de quem a lê, é consequentemente determinada a partir de experiências vivenciadas ao longo de uma existência. Portanto, um grande autor como um grande leitor é resultado de um cabedal de ideias que são postas à prova efetivamente, daí suas revisões, releituras e eventuais abandonos. Do mesmo modo que compete ao garçom a zelosa serventia, sendo determinante o nível de sua detida atenção – quanto mais o escritor, ou mesmo o leitor, vivenciar aquilo que é lido: sem desvios que lhe comprometam o foco, melhor o nível de assimilação.

§3

Em linhas gerais, sem esquecermos os pratos empilhados sobre as mãos de um garçom, o que determina o êxito atencioso de uma leitura? Do mesmo modo que aquele serviçal aguça seu foco para a exaustiva tarefa; ajustando-o ao longo de sua caminhada, o leitor ao modo de seu autor, deve partir em busca de uma centro de motivações reais que se justifiquem à luz de suas vivências, ordenando-as interiormente como um compromisso pessoal. Portanto, é o seu comprometimento, e amadurecida responsabilidade com o que é lido, que ajusta o campo de sua atenção. Não por acaso, o psicólogo norte-americano Merlin C. Wittrock compreendeu a leitura como uma experiência que pressupõe ordem interior, ou seja, atividade intelectual que advém de uma acolhida particular genuinamente anti-anárquica, por que vivenciada a partir de uma compreensão previamente organizada.

§4

Quando o comprometimento ajusta-se ao plano da ordem interior, o senso responsável com o que é lido tende a favorecer uma progressiva leitura sobre si mesmo, de onde as ideias passam a ser assumidas a partir de suas respectivas consequências. Os benefícios pessoais da leitura, crescentes desde que vivenciada, foram esmiuçados com propriedade por Marc-Alain Ouaknin em: ‘Biblioterapia‘ (1994). Para vislumbrar os fins terapêuticos da leitura por meio da biblioterapia, o leitor precisa ajustar seu foco de atenção: o centro de suas disposições pessoais, à voz que se faz entreouvir nos meandros da leitura. O que daí surge – à maneira de um lenitivo ou bálsamo espiritual – é o diálogo inteligível entre o leitor, seu autor e a realidade. Quanto a isso, escreveu Emmanuel Berl em ‘Sylvia‘ (1952) que certo Dr.Legendre receitava-lhe: benzoato de sódio, terpina e contos de fada, enquanto que para sua mãe bastavam o repouso e livros de Leon Tolstói.

Para quem pretende curar intelectualmente suas próprias incertezas: amadurecendo, tanto quanto reabilitando o sentido integral de sua própria vitalidade, cabe a seguinte observação: Um leitor que passa o tempo todo lendo é como um garçom que passa o tempo todo comendo. Entre ambos, a vida é a mais crucial das palavras degustadas. 

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