Por Ivan Pessoa

§1

Em 1967, o poeta W.H.Auden condensou com irretocável beleza e simplicidade, a amplitude da expressividade humana: “Falar é humano porque é humano atentar além das esperanças.” (‘Prologue at sixty‘). O que se espera quando se fala, senão a escuta e, consequente, compreensão? Entretanto, se vacilar a compreensão e a fala jamais for atendida: o que resta, aliás, o que se pode encontrar – além das esperanças? Direcionar uma fala interior a nenhum ouvido aparente é deslindar o recurso à fé. Portanto, falar e atentar além das esperanças é superestimar uma certeza misteriosa por que impalpável. Com efeito, é como o gesto silencioso, porém inabalável, do mártir: São Pedro de Verona. Perseguido pelos cátaros e golpeado com um machado por Carino, o santo homem ajoelhou-se; e antes da machadada que lhe arrancou a cabeça, escreveu com o próprio sangue na areia: ‘Credo‘ (em latim: creio). Ora, ceder de joelhos e escrever: ‘creio‘, é tanto atentar além das esperanças já esmigalhadas, quanto alcançar a dobra que se referia o filósofo Leibniz, ou seja, é descobrir em si mesmo os ecos e a providência de um sopro vital (‘prana‘ e ‘Om‘ para os hindus; ‘Logos‘ para os gregos; ‘hum‘ para os tibetanos; ‘amin‘ para os muçulmanos).

§2

Em seu ‘Diário‘ – escrito e reescrito ao longo da vida, o romancista Andre Gide observou certo dia: “Sala de espera. Que língua linda, essa que confunde a espera com a esperança.” Entre o extremo da espera e para além da esperança reside a tencionada voz da fé, que se renova absurdamente como um enigma. Escutá-la, enseja um fenômeno tão crucial quanto miraculoso.  O que descansa entre: as palavras, a fala e a voz fidelíssima é uma ansiosa partilha de intimidade; sopro que manifesta a necessidade de se fazer ouvir. O ‘amém‘ cristão o confirma, ou: ‘assim seja!‘. Sussurrada; entre os desencontros de uma gaveta ou mesmo entre os anseios de uma oração, cada palavra insinua uma vivacidade, apreensível desde que acolhida intimamente. Sobre essa clausura pessoal é que uma religião é edificada; vivenciada a partir de seus símbolos, dogmas e padrões universais de santidade.

A razão entre falar, entoar e orar é proporcional ao nível de interioridade que se alcança entre as certezas inabaláveis daquela clausura pessoal. Falar, entoar e orar – em nome de uma dobra interior: verdadeira e soberana, é consequência de uma espera que, ao exceder além das esperanças habituais, se confirma espontaneamente: resultado da apreensão das intercessões divinas com sua respectiva bem-aventurança e amor. Como o sangue de Pedro escorrendo na areia, ter fé intimamente, é escrever – às vésperas da morte: ‘Creio‘. Ademais, ter fé é acreditar misteriosamente na pessoa de Deus.

§3

A despeito das circunstâncias: escrever, pronunciar ou mesmo sussurrar – ‘creio‘ é alcançar um fundamento para a gratuidade da própria existência, não por um rigor lógico, mas por vias analógicas que, a partir de fatos microscópicos, intui suas causas macroscópicas. Portanto, basta um único episódio verdadeiramente desesperador na vida de alguém para, no limite de sua milagrosa resolução, fazê-la entender a origem ou a fonte de tudo o que transcende tais circunstâncias. Em meio ao desespero de uma decisiva situação, a voz interior da clausura pessoal almeja a resolução por meio de uma Graça que, de seu amor benevolente, possa aplacá-la. Quando de sua concessão, o milagre consumado descortina tanto uma prova imediata da realidade (‘alaukikapratyaksa‘ em sânscrito), quanto desencadeia um processo de ‘metanoia‘, ou seja, um súbito processo de transformação da consciência. Arrepender-se da cegueira anteriormente vivida é o efeito dessa metanoia, cujo alcance espiritual aguça a certeza de que a realidade divina é a personalidade de Deus, manifesta em um ato livre de amor. Quando isso não é humildemente compreendido: sua dificuldade de assimilação, ou consequente embotamento, favorece um empedernido estado pessoal de obscurecimento (‘skotosis‘) em que, como em um eclipse, os olhos não captam a extraordinariedade do fenômeno miraculoso, nem mesmo a realidade.

§4

Ter fé, para além das esperanças, é entreouvir e confirmar inesperadamente as palavras do sábio indiano Adi Sankaracharya: “Aqueles que habitualmente falam a Verdade, desenvolvem o poder de materializar suas palavras. O que ordenam com todo o coração vem a realizar-se.” (‘Yoga Sutra, II-36‘). Daí a certeza de que a oração é a antecipação una e coesa de um desejo auto-confessado; possível desde que verdadeiro. Ciente de tais efeitos desencadeados pelo ‘credo‘, crescente desde a dobra da clausura interior e seu estado de oração, o médico Phineas Parkhurst Quimby se notabilizou entre os anos de 1849 e 1869, em Belfast, Maine (Estados Unidos) com um método inusitado, chamado: ‘cura por meio das palavras.’  Ecoando desde há muito, a cura pela palavra interior se antecipa, revigorada a partir da confiança na pessoa de Deus: “A tua fé te curou“. (‘Lucas, 8-48‘).

§5

Falar é atentar além das esperanças.’ Auscultadas desde a dobra interior da clausura pessoal, essas palavras curam e providenciam milagres. Para tanto, basta o credo em sangue e os joelhos dobrados sobre a terra. Quando atendidas, tais palavras ensejam: ou a ‘metanoia‘, ou a ‘skotosis‘. Com efeito, a reabilitação da consciência ou a vaidade. Para confirmá-lo episodicamente, recordo dos seguintes fatos contrastantes. Um dia, no ano de 1825, o czar russo, Nicolau I, subiu ao poder. Alguns liberais, engajados na perspectiva de modernidade, promoveram uma rebelião, a chamada: Insurreição de Dezembro. Ao massacrá-la com uma resistente força militar, Nicolau I condenou à forca um de seus líderes, Kondrati Rileiv. No dia da execução, provavelmente tomado pelo temor da morte precoce e com a corda no pescoço, Rileiv subiu ao patíbulo. – Orava o traidor? Eis a pergunta! À altura da pergunta, e, sobretudo, para saná-la: o alçapão se abriu, mas quando o agitador estrebuchou sobre o ar, a corda se partiu, levando-o milagrosamente ao chão. Com vida, diga-se de passagem. Nada confirma mais a benevolência divina para com Rileiv que a concessão promovida pelo governo russo naquele período, defendida pela ideia de que, em casos extraordinários de sobrevivência à pena capital, o perdão seria imediatamente proferido. Entretanto, como que tomado por um processo vaidoso e subversivo de ‘skotosis‘, e logo após levantar-se de seu martírio, Rileiv disparou contra os mensageiros do czar e à multidão: “Na Rússia não fazem nada direito, nem mesmo uma corda!” Ao chegar ao Palácio de Inverno, o mensageiro já entrevia o perdão ser assinado por Nicolau I, entretanto a pergunta comprometeria o revoltoso e imerecido perdoado: “Ele disse alguma coisa?” O mensageiro respondeu: “Senhor, ele disse que na Rússia não se sabe fazer nem mesmo uma corda.” Tomado pelo agravante de ver seu opositor sobreviver à morte, o czar ordenou: “Vamos provar-lhe o contrário.” Em seguida, o perdão seria rasgado e o bem-aventurado traidor seria enforcado no dia seguinte, confirmando a certeza de que a fala atenta para além das esperanças, mas sua concessão demora em uma longa espera, para que o agraciado a mereça em silêncio.

§6

Vinte e quatro anos depois do infortúnio das palavras de Rileiv, e sob as ordens do mesmo Nicolau I, o escritor Dostoiévski viveria a mesma densidade daquele desespero. Enfileirado à iminência do fuzilamento, o subversivo autor e conspirador, teria sua pena suspensa por ordens superiores, o que favoreceria subitamente a clareza de uma ‘metanoia‘. Tal estado de dobra interior desencadeado pela oração atendida seria considerado pelo autor como o dia “mais feliz de sua existência”; palavras dele, que se sentia lisonjeado com a dádiva da vida, inclusive, situando-a ilustradamente como o sentimento de um condenado, momentos antes da execução, em seu romance: ‘O Idiota’ (1868).

O êxito da oração, ou mesmo da palavra – além das esperanças, é consequência de uma longa espera, ajustável desde a dobra interior em meio à pessoa de Deus. Quando efetivamente compreendida, desencadeia a ‘metanoia‘, quando não: a envaidecida ‘skotosis‘. Rileiv confirma o dissabor desse obscurecimento. Enquanto Dostoiévski a sopesa da seguinte forma: “Um homem que não se inclina perante coisa alguma, jamais pode suportar a carga de si mesmo.” (‘Os Demônios‘, 1872.) Atentar para isso, e sentir seu peso, é ouvir com muitas sílabas uma única palavra: fé.

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