Por Ivan Pessoa

Quando estamos nos degraus mais baixos da escada do pesar nós choramos/ Quando chegamos à metade dela, nós emudecemos/ mas quando alcançamos o topo da escada do pesar nós convertemos tristeza em canto.”
(Poema anônimo hebraico)

I

A grandeza de um homem é proporcional ao seu grau de renúncia. Quanto mais os apelos do organismo psicofísico e suas necessidades primárias são canalizadas, mais nítida se torna a compreensão acerca de todas as coisas. Desta forma, a pergunta: “- o que pretendes sacrificar, em nome do teu propósito?” não parece de todo invasiva. Visto por um plano macrocósmico, se pode constatar que o alcance espiritual de um povo ou mesmo de uma civilização é a consequência do empenho integral e incansável de seus renunciantes, de sorte que aqui incluiria decisivamente os luminares desinteressados da Verdade: santos, poetas e filósofos. Seguindo a orientação de William Butler Yeats em ‘Discoveries‘ (1916) isso pode ser compreendido como uma menção imaginária a um círculo, cujo centro se encontra em toda parte e sobre tal eixo, o santo tende à centralidade; o poeta e o filósofo ao aro, donde toda compreensão se renova ciclicamente. Sem esses, tudo tende à permanente confusão e à aliciante decadência, ou como pensariam os gregos antigos: à zona informe do caos, portanto, àquilo que recua ao indeterminado. Ademais, basta a gradual desaparição desses luminares para que a apreensão da realidade decaia irreversivelmente em uma pobreza de experiência desesperadora.

Para cada um desses renunciantes, um grau de realidade se descortina; partindo de apreensões imediatamente simbólicas ao sentido integral da existência humana, cuja finalidade última é a comunhão com o divino. Que isso é desdobrável entre as civilizações já – de per si – nos dá a dimensão clara sobre os graus de realidade que se pode alcançar, desde as experiências imediatamente cotidianas ao extremo da renúncia ascética, o que aproxima a humanidade a uma espécie de ecúmena, cuja consumação é o estado beatífico da contemplação e do Amor. Por vias analógicas se pode imaginar que, como em uma escada, quanto mais alto se chega à divindade, maior o grau de renúncia e, do mesmo modo, mais nobre é a ação desinteressada do Amor contemplativo: sentimento de gratidão que surge quando da descoberta da Verdade. Santos, poetas e filósofos participam dessa experiência de modos distintos, mas com o mesmo anseio ascendente. Do mesmo modo, isso apresenta um maior nível de humanidade e uma renovável reserva moral. Portanto é na tensão agônica entre os degraus da escada e sua dificultada ascensão, que o homem participa da realidade, tendendo – em um alcance último – ao estado desperto de eviternidade (em sânscrito: ‘amrtatva‘), ou seja, à lucidez e à captura das coisas permanentes. São Bernardo, por exemplo, consideraria tal estágio de eviternidade como ‘excessus‘, movimento místico que tende à visão de Deus por meio do êxtase. Sem essa lúcida participação gradual no estado de eviternidade ou nesse ‘excessus‘: nenhuma experiência humana é verdadeiramente grandiosa, ou seja, extraordinária.

II

Em tal estado de acirrada lucidez espiritual, o dom eviterno da contemplação e do Amor converte-se em um Bem, ou seja, em uma pletora de gestos nobres e generosos, sem os quais o homem decai constantemente em um nível confuso de delirante violência. No último degrau da eviternidade, sacrificar antes a si mesmo já é vivenciar a benevolência do Amor contemplativo, advindo desse estágio o fundamento de toda e qualquer civilização. Civilizado, portanto, é quem renuncia a si mesmo para encontrar-se nos olhos do Outro. Para os hindus, tal gesto de grandeza é comum entre os ‘sannyasins‘; o que entre os budistas seria representado pelos ‘bonzos‘. Entre os muçulmanos é renovável entre os ‘faquires.’ Para os judeus é atualizável entre os ‘schnorrers‘ e para os cristãos é corrente entre os santos e padres do deserto, empenhados que são em viver as palavras salvíficas de Jesus Cristo, figura arquetípica do grau último de renúncia que a humanidade pode almejar; por meio da qual Eric Voegelin afirmaria: “em Cristo o ser humano adquire a compreensão de sua humanidade e simultaneamente dos seus respectivos limites“. Cada um, desde os sannyasins ao limite da divindade em Cristo, renova interiormente a gratuidade e o abandono da existência, sacrificando a si mesmo em nome de algo que tangencia a redenção e, do mesmo modo, justifica as ações do tempo perante a eternidade. Se universalizada, a ideia de Russell Kirk antecipa um sentido harmônico entre sacrifício e eviternidade, na proporção mesma em que atualiza a grandeza humana: “Devemos agir para redimir o tempo.” Fazê-lo conscientemente, ainda que à custa de muito sacrifício pessoal, é almejar a condição do santo, do poeta ou do filósofo. Se nada determina melhor uma personalidade que o conjunto de suas ações desinteressadas, ou seja, espontâneas e sem testemunhas, o mesmo vale para uma civilização: grandiosa desde que sua comunidade tenha um revigorado horizonte de experiências extraordinariamente eviternas, resultando a partir dai aspirações gratuitas como o desejo de servir e de conhecer. Por meio desses desejos, subsidiados por uma comunidade mais ampla que o próprio indivíduo, surge seu grau de participação na história como uma verdade que a transcende. Daí advém seu conjunto de símbolos e seu plano de autorrepresentação, grandiosos desde que alcancem os demais homens e povos. Como diziam os mestres de Port-Royal: “Não importa de que país sejais, deveis acreditar apenas naquilo que estaríeis dispostos a acreditar se fôsseis de um outro país.” Renunciando a nós mesmos é que somos espiritualmente universais.

III

Destacando-os da vida cotidiana: santos, poetas e filósofos, se encontra determinantemente a autorrepresentação de uma ordem civilizada com seus gestos nobres, palavras ditas e encaminhamentos. Por outro lado, o contrário também é verdadeiro, de modo que sua ausência denuncia a imediatez das satisfações mais primárias e consequente crise de representação. Ademais, escreveu Michael Oakeshott: “uma sociedade será mais feliz quanto mais extensos forem os seus recursos morais e civilizacionais.” O que se pode esperar de uma sociedade em que o santo vende indulgências incorrigivelmente, e tão logo se perverte; o poeta escreve para jamais ser lido, portanto, cede à nulidade e o filósofo é um copista envaidecido, por onde se inutiliza? Como há muito renunciei a esses modelos decaídos, e ainda subo – suponho que, a cada degrau, menor pareço aos olhos dos que não sabem tropeçar.

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