Este ensaio não é necessariamente sobre Caravaggio, mas é, sobretudo, uma reflexão física e metafísica sobre o fenômeno  ondulatório e eletromagnético da luz. Portanto, feitas as considerações cabe a pergunta: se a natureza é una, será que uma investigação sobre seus fenômenos já não se faz presente, desde sempre, em outras culturas, fontes religiosas e filosofias? Esboçar uma reflexão sobre esta intrigante questão, aguçando-a em uma tela de Caravaggio, eis o que nos interessa.
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Por Ivan Pessoa
§1
Na aula inaugural do físico Schrödinger na Universidade de Berlim; na condição de docente da cátedra de Física Teórica –  vindo da Escola Politécnica de Zurique, as seguintes palavras foram ouvidas maravilhosamente por seus mais novos alunos: “Há uma antiga e uma nova teoria dos quanta. E dela se pode dizer o que Santo Agostinho disse da Bíblia: ‘novum testamentum in vetere latet‘ (‘O novo Testamento está latente no Antigo; o Antigo está patente no novo.’) Antes de ser uma questão atinente à constante de Planck e seu quantum de ação, ou mesmo exclusiva à relação dialógica entre os livros testamentários da Bíblia, as palavras de Schrödinger confirmam uma certeza: o que favorece a inteligência é a harmonia entre a criatividade e a comedida recepção às ideias imediatamente anteriores. Por ora, nada depõe mais contra uma ideia que sua pretensa originalidade.
Schrodinger
(Schrödinger na Universidade de Berlim)
§2

De acordo com essa harmonia entre a criatividade e a recepção às ideias já consolidadas, é que se mensura a publicidade de um nome, do mesmo modo: se atesta a profundidade e abrangência de uma inteligência. Afirmar em alto e bom tom que o novo está latente no antigo, pelo simples fato de que o antigo está patente no novo, é um critério particularmente cuidadoso para lidar com a aceitação ou a recusa de uma ideia popularizada pela intelligentsia. Portanto, é mister da intelectualidade – em qualquer circunstância – fomentar tal iniciativa criteriosa, determinando prioritariamente um obstáculo às megalômanas pretensões. Por conseguinte, e em tal horizonte, se edifica a certeza de que o intelectual não deve lidar exclusivamente com particularidades específicas e com noções díspares; arrazoadas a partir de uma época ou mesmo de uma moda, mas deve encadear seus princípios a partir de afinidades universais que os transcendam, remissíveis geneticamente ao longo do tempo. Sendo um cultor do intelecto, aliás, merecidamente um intelectual, tal estudioso se caracteriza pela remissão aos problemas que lhe antecedem, ajustando-os retroativamente desde suas reais motivações. Ao inventariar o problema desde suas primevas aparições até o presente, o intelectual confirma a implicação entre a novidade e sua ancestralidade, promovendo desta forma uma releitura, ou criativamente modos de ver desde o mais antigo: a consumação originária do que é mais novo. Outrossim, o intelectual só o é em grau máximo quando – diante posições antagônicas e parciais, posiciona-se para abrangê-las, e ao fazê-lo, as absorve em uma unidade cada vez mais abrangente, ou seja, mais inteligível.

§3

Suscitadas a partir de seu ‘status quaestionis‘, ou seja, desde sua ancestralidade, as palavras de Schrödinger remetem-se à mecânica dos átomos, bem como à teoria ondulatória da luz, herdadas da contenda entre Newton e Christian Huygens. Se para Newton a luz seria uma compactação de um conjunto de corpúsculos, propagados em linha reta, Huygens objeta, e defende a tese de que tal foto-fenômeno seria a deformação do espaço, posteriormente conhecível como: ‘onda‘, cujo raio de sua luminosidade seria a máxima intensidade dessa deformação. Sendo una, a natureza (‘physis‘) não poderia admitir duas físicas mutuamente excludentes, favorecendo posteriormente a assimilação daquela que melhor compreendesse o acontecimento físico em geral. Posicionando-se àquela que melhor refletisse a manifestação dos fenômenos físicos, Maxwell percebeu (apoiado no modelo de Ruthenford da atração repelente entre elétron e próton e o movimento giratório do elétron) que tal movimento perturba o éter, e a partir de sua propagação em forma ondulatória, desencadeia todos os fenômenos eletromagnéticos. Daí alcança-se a certeza: todo fenômeno físico é resultado dos efeitos dessa ondulação no espectro luminoso, de modo que a luz é a estrutura formal da natureza. A partir de então, a ancestralidade da questão física, ou melhor, da apreciação da physis, passa a vincular-se à interpretação matemática e filosófica desse espectro simultaneamente luminoso e eletromagnético.

§4

Se cada nível de consciência corresponde a um nível de sinceridade: nada é mais determinante ao intelectual que a noção mesma de que, se rastreada desde suas motivações mais primordiais – no decurso das aquisições humanas – todas as ponderações já foram atendidas com um grau específico de eficiência, elaboradas por construções simbólicas: mito-poéticas ou religiosas. Portanto, do mesmo modo que as Sagradas Escrituras registram na pessoa de Cristo: ” Se o teu olho for único, todo o teu corpo será luminoso.” (‘Mateus – 6:22‘) a física desde Newton/Huygens/Maxwell, parece confirmar a certeza de que a única realidade atual ou fixa é a luz, e o que é a luz senão energia? Do mesmo modo, quando compreendida desde sua ancestralidade mais perene, o que pretende afirmar George W. Crille quando diz: “Os átomos são sistemas solares” (?) Em linhas gerais, a pergunta direciona-se à defesa de que há uma unidade entre os fenômenos físicos e metafísicos, de sorte que o que acontece no interior do átomo acontece igualmente naquilo que nos é exterior, aliás, o microcosmo reflete luminosamente o macrocosmo. Desde a experiência de Stern e Gerlach isso é corroborado, fomentado a ideia de que além do movimento de translação ao redor do núcleo, o elétron possui o movimento de rotação em torno de seu próprio eixo, o que define o movimento magnético e cinético quantificado, o chamado: ‘spin‘. Na tentativa de compreendê-lo por meio de uma explicação matemática, Pauli fracassou, entretanto, a questão já se desdobra religiosa e esteticamente desde há muito, aliás, a luz – desde o fenômeno micro até seu alcance macrocósmico – é o fundamento inapreensível de tudo.

§5

Confirmadas efetivamente: as palavras de Schrödinger em sua aula inaugural em Berlim favorecem o entendimento de que, se rastreadas em fontes que extrapolem a exclusividade de uma ciência, as descobertas aparentemente inovadoras surpreenderão por sua ausência de novidade, porquanto, o novo já está latente no antigo, na proporção mesmo em que o antigo já está patente no novo. Em sua própria estrutura tangente à metafísica e sua apreensão do fenômeno fotoelétrico, a discussão suscitada desde Newton/Huygens/Maxwell já estava retrospectivamente inscrita no livro sapiencial hindu, no filosófico: ‘Vaiśeṣika’, como uma proto-teoria cinética da energia e do átomo (extensível por meio da palavra sânscrita: ‘prana‘) como um sistema solar em miniatura. Se tudo é Uno, a unidade que se dispersa em tudo é luz.

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§6

Por um recurso à criatividade, se a frase de Francesco Albani – referente à obra de Caravaggio – fosse intelectualmente compreendida, a unidade elementar entre: física, metafísica, religião e arte, seria enfim subsumida. Encantado pela recorrência da luz amarela que se insinua em suas telas, Albani disse que Caravaggio condensa: ‘a luz do corpo terreno.’ Ora, como captá-la se, indiferente ou cego, nenhuma impressão se antecipa àquele que a aprecia? Portanto, conclui Albani que a luz cresce extraordinariamente desde dentro, ou seja, condicionada ao olhar do apreciador. Sem tê-la, o que se vê é um amontoado de tinta e algumas manchas aparentemente conexas. Portanto, nada pode ser visto fora dos olhos que já não esteja interiormente dentro de suas enervações, potencialmente crescentes em torno da luz. Daí a sibilina implicação, alcançável a partir dos níveis de sinceridade, ou melhor, da quantidade de luz que se destaca desde os olhos: o novo está latente no antigo, pelo simples fato de que o antigo está patente no novo. Aliás, é somente à luz da atemporalidade de uma ideia, nem exclusivamente antiga ou circunstancialmente atual, que esta deve ser credibilizada.

Como nenhuma pretensão me assedia, e nenhuma novidade me acossa, cedo a palavra ao maior filósofo do século XX: “O critério de verdade de uma proposição reside na sua ausência de originalidade.” (Eric Voegelin: ‘Equivalences of experience and symbolization in history.’ (1968)).
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