Por Ivan Pessoa

§1

O verdadeiro tempo é tempo de ruptura. Sem a possibilidade de saltar sobre as obsedantes situações, aplacando-as: o tempo seria a clara antevisão infernal. A própria noção de um presente constante para os medievais, em especial Santo Agostinho na obra: ‘A Cidade de Deus‘, já seria a definição mesma do inferno. Endossando essa clássica noção – no primeiro dos ‘Quatro Quartetos‘ (1943), Burnt Norton, escreveu T.S.Eliot: “Se todo o tempo é o tempo presente. Todo o tempo é irredimível.” O tácito entendimento de que as palavras de Eliot foram vivenciadas na condição de ‘Air Raid Warden‘, ou seja, como sentinela de ataques aéreos, em plena Inglaterra sitiada pela Segunda Guerra, já antecipam apropriadamente o sentido de que, em meio ao tempo de uma catástrofe, a assimilação da circunstância é proporcional a um grau de entendimento, de modo que, quando efetivamente compreendida – para além de sua transitoriedade: a história justifica-se integralmente à luz da Redenção. Quando não é vista sob o horizonte de sua transcendência; e deixada à própria sorte de seus planejadores e engenheiros sociais, tal história é a antecâmara infernal da degradação humana, cujo critério de sua degenerescência é tanto a extrema animalidade, quanto o confinamento do indivíduo à atualidade irredimível do presente. A defesa danosa de que só o presente interessa às satisfações humanas, em seu alcance político, estético e pessoal já é a medida criteriosa daquela degradação. Ainda que propagada de forma totalitária ou de um modo subliminar: por meios esteticamente inesperados, como em jornais, publicidades e discursos politicamente corretos – a campanha degradante tende a confirmar acintosamente o ‘Sermão do Fogo‘ de Buda: “O que oprime o homem é a obsessão com impulsos transitórios.” Portanto, o período histórico mais opressor – em seu paroxismo – não é aquele que se dá exclusivamente em meio a uma guerra ou em um momento crucial entre cárceres e grilhões, afinal esses são conscientemente combatidos por seus personagens, mas é aquele em que, o apego ao presente constante, deforma a individualidade humana (sem o saber) até o limite da idiotia involuntária. No momento mesmo em que alguém afirma para si mesmo ou para outrem; resultado de uma intercessão exterior inapreensível: ‘- Eu já não me reconheço como antes, ou já não sei mais quem sou‘, o limite da opressão e, consequente retardamento, é imediatamente observado. Em situações aparentemente vinculadas pela atribulação histórica e sua opressão – em um presente inescapável: ucranianos, no Holodomor, e cambojanos no terror do Khmer Vermelho confirmariam o extremo dessa certeza, justificando as práticas de canibalismo por um encurtamento de consciência e pela necessidade de alimento.

§2

A promoção deliberada de que a satisfação humana se encontra ao alcance do presente constante, e daí por que é necessário combater em seu nome e lutar, correntemente veiculada em uma campanha massiva em meios de comunicação – em um período autointitulado: democrático – desencadeia tanto malefícios em tempos de paz, quanto do seu contrário: em zonas de guerra. Destarte, para promovê-la, a necessidade de esvaziar o sentido integral da história torna-se premente, o que compromete a assimilação do intervalo entre as coisas pretéritas e o futuro. Portanto, nada é mais bestializante que promover a dilapidação das esperanças supratemporais, perpassáveis em um conjunto de valores religiosos, padrões de comportamentos e legados culturais.

Preferindo o termo ‘involuntário‘ em vez de ‘inconsciente‘, por razões óbvias que se propõem anti-freudianas, e tendo observado demoradamente o comportamento do soldado e poeta da Primeira Guerra, Siegfried Sassoon, o psiquiatra inglês W.H.R.Rivers, cunhou um termo apropriado para as situações-limite; observáveis tanto em períodos de guerra, bem como durante a paz. Quem suspeita que, em um período imperturbável de paz, alguma mensagem se prolifere: seja na televisão, seja por jornais impressos, partindo de uma personalidade perversa e doentia, para disseminar os efeitos da guerra interior e seu imperceptível estado traumático de discórdia individual e social? Em tais situações ou eventos extremamente estressantes como no caso da violência (em qualquer esfera possível) – decorrentes de conflitos entre o homem e seu conjunto de valores espontâneos, a longo prazo – a resposta involuntária do indivíduo alterna estados de: distanciamento emocional, fuga, alheamento psico-afetivo, irritabilidade, reações espasmódicas, surtos e consequente idiotia. Para Rivers, tais características seriam decorrentes de um: ‘transtorno de estresse pós-traumático‘, perceptíveis nos experimentos de Alfonso Laurencic, chamados de: ‘tortura psicotécnica‘, no auge da Guerra Civil Espanhola. Tal tortura, que não difere de longe da quantidade de informação que somos bombardeados na vida cotidiana, por seus anúncios sexuais, celebridades e toda sorte de decadência, consistia em confinar os prisioneiros em celas minúsculas, similar em tudo a uma sala escura e sua televisão: com menos de dois metros de altura, um metro de largura e dois de comprimento, além do calor infernal, que levava muitos cativos ao desmaio. Ademais, por um recurso de irônica densidade: os prisioneiros eram submetidos a perturbadores murais com pinturas modernistas e surrealistas, além da projeção incessante do olho seccionado da atriz Mareuil, no filme: ‘Um cão andaluz‘ de Luis Buñuel. A conciliação da imagem, da violência e do apego ao presente constante desencadeiam um processo imperceptível de dissociação, decorrente do trauma submetido.

Em um nível relativamente adventício, o transtorno de estresse pós-traumático traz consigo – em determinadas situações: a fuga dissociativa e o transtorno de personalidade, observáveis em um indivíduo que, tendo perdido a transparência e o eixo de suas ações;  se esvai em uma torrente de respostas impessoais, e anonimamente dispersivas. Tal situação traumática – quando desencadeada de um modo deliberado por alguns entusiastas de uma agenda político-ideológica, defensores de uma revolução permanente ou congênere com seu ataque a tudo o que é harmonicamente natural, enseja a bífida promoção: mudança de valores (herdados de uma tradição) e consequente manipulação da cultura que, por sua vez, também surge de uma tradição anteriormente sedimentada. Portanto, o que interessa àqueles que promovem uma revolução cultural é a dilapidação definitiva dos valores individuais mais espontâneos e, consequentemente, a aclamação de um novo padrão de tempo que, surgindo desde o zero, impeça tanto a abertura ao passado, por que supostamente antiquado, quanto a aspiração ao futuro, por que imprevisível ao clamor de seus propósitos.

§3

Em observação ao anteriormente dito, o poeta Hölderlin escreveu que a pretensa originalidade de uma nova cultura insinua proporcionalmente vingança e rebelião à anterior. Portanto, é no âmbito da vingança e rebelião, contra o que representa a tradição, que se observa a promoção do presente constante. Se a história é o conjunto das possibilidades humanas, a partir de acontecimentos impremeditados, o anseio de ordená-los a partir de algumas iniciativas coletivistas, sempre favorece a insurgência de fenômenos traumáticos, seja para disseminá-lo como em uma guerra cultural, seja para conservá-lo como um foco discursivo de defesa. Em tais casos, sempre que alguém se posicionar contra o que se propõe construir – na esteira da destruição dos valores já apreendidos: um senso traumático, oriundo de uma pressão coletiva, se sucederá, até a completa impossibilidade de distinção do que é real ou imaginário, e mesmo: o certo ou o errado. Quanto mais esse bombardeio se fizer presente, seja na guerra declarada, seja na esfera subliminar da vida democrática e seus discursos da liberdade televisionada, mais os focos de resistência e relações traumáticas se sucederão, consumando uma ‘tortura psicotécnica‘ idiotizante por que involuntária. Quando vitoriosos – ambos desencadeiam a idiotia, que nada mais é que o esgarçamento da personalidade, até a involuntariedade de um conjunto de ações despersonalizadas. Daí o seu caráter ‘opressor’, no sentido de que, ao impor desde a esfera coletiva seus propósitos ocultos com a experiência traumática da dissociação cognitiva (ver o experimento de Leon Festinger nos anos 50) o indivíduo acaba por decair ao limite cotidiano da reprodução idiota e ao apelo publicitário da satisfação de seus impulsos no tempo presente. Em outras palavras, é como se ecoasse subliminarmente: ‘ – Como não existe nada além disso, nem mesmo Deus ou a esperança, procure subterfúgio no uso de drogas, etiquetas, perversidades sexuais, suicídios coletivos e bandeiras ocasionais.’

Ao alcançar tal estágio, toda reação espontaneamente pessoal é rechaçada em um arranjo politicamente correto. Portanto, toda tentativa de saturação do momento presente, partindo de um conjunto de ações de um Indivíduo Absoluto e seu tendencioso discurso de um novo tempo: recorrente em uma campanha publicitária sutil ou ostensiva, acabam por oprimir traumaticamente a iniciativa pessoal, inclusive, sua resistência: até o completo aniquilamento. No limite último de sua implementação, a evocação impessoal desse poder exclusivamente terreno é tão distópico quanto inapreensível, consumando assim o experimento de Stanley Milgram e a submissão à autoridade: superiormente inquestionável por que em nome de uma ‘causa justa e nobre’. Ou seja, basta promover e angariar a defesa de alguns anseios pretensamente libertários, defendidos a partir de uma individualidade igualmente perversa e atraída ao autorismo intelectual de um líder, para que qualquer resposta contrariada seja traumatizada desde sua primeira manifestação.  Mutatis mutandis, e insinuando o dissabor desse trauma que surge da tensão entre o indivíduo e o grupo, escreveu Emmanuel Levinas: “Se todo mundo estiver de acordo para condenar um acusado, soltem-no, ele deve ser inocente.” Em tempos de guerra ou de paz, qualquer situação estressante é potencialmente esperada com seus respectivos traumas, cujos resquícios – no primeiro caso, são psicofísicos; no segundo, são psicoespirituais, de modo que ambos encaminham o traumatizado à completa alienação e idiotia. Com efeito, sem perceber: o idiota é como o sobrevivente de guerra que, tendo escapado à catástrofe, é tão fiel à autoridade que o liberta e lhe salva a vida (seja com um livro, com uma ideia, ou mesmo com uma causa) quanto oprimido em um presente constante e involuntário, cuja fuga é compensar o trauma com sua satisfação ilimitada, quase sempre: com tudo aquilo que costuma involuntariamente negar. De sua ideologia, o idiota reproduz e traumatiza outros indivíduos ao redor. Seria isso, os confins espirituais do inferno?

Quando a consciência individual reconquista a temporalidade através da erupção, ou seja, da ruptura, o que surge iluminadamente é a certeza de que o presente é a unidade entre momentos transcursos, portanto, é imprevisivelmente atualizável: ou por meio das ações humanas, ou da intercessão divina redentora. São Boécio, inclusive, escreveu – como a endossar a redenção desde o presente: “A eternidade é a posse inteira e simultânea de uma vida interminável.” O inferno é o contrário disso, ou seja, é a incapacidade idiotizada de assimilação simultânea do tempo, nesse caso: reduzido ao presente imediato e sua alardeada satisfação.  Saber que o tempo é simultaneamente a consciência do agora e sua eternidade, favorece um processo interior de historiogênese, a partir do qual a história se justifica em nome do que a transcende. Como advém de uma circunstância, tal erupção é testemunhável apenas de maneira pessoal, de modo que modifica aquele que a testemunha sem alterar a estrutura da realidade. Entretanto, seu contrário também é verdadeiro: a partir do momento em que, movido por um sentimento de vingança ou revolta e senso de subordinação a uma autoridade intelectual, seus entusiastas tentam promover a redução do tempo ao presente constante e consequentemente modificar, desde zero, a estrutura total da realidade. Em seu grau último de difusão, tal ideia inesperada só se sustenta por meio da opressão e do autoritarismo, disseminada pela idiotia que atrai a outros pela involuntariedade desobrigada de suas ações.

Como não era um idiota aos modos contemporâneos, e contrariado, desde suas baixas com gradual perda de prestígio, Napoleão ouviu de Talleyrand, as seguintes palavras em silêncio: “Podeis fazer tudo com as baionetas – exceto sentar-vos nelas.” Hoje, desde que a propaganda ideológica da idiotia ousa contrariar a lógica e o bom senso, um dos dois seria publicamente chamado de reacionário por sua reação àquilo que é anti-natural, com efeito, contrariante à estrutura intrínseca da realidade pontiaguda das baionetas. Outros, já involuntariamente idiotas, desconsiderariam a objeção; promoveriam um ato público: como um gesto revolucionário contra o ‘mundo burguês conservador’ (sic) e sentariam sobre o artefato cortante. No final das contas, o idiota é o inconsciente.

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