Por Ivan Pessoa

A verdade que aprendemos sobre nós mesmos pode ser nossa ruína.
(T.S.Eliot: ‘The confidential clerk’, 1953)

§1

Visto paradoxalmente, talvez o dia mais efetivo para refletirmos sobre a verdade, e preservá-la, seja o dia da mentira, ou melhor, um dos poucos dias que nos mantém em alerta à possibilidade sorrateira de sermos enredados em uma teia de falsificações; evitando-as retroativamente. Despertos àquela possibilidade do logro e do engano, toda palavra dita é prontamente avaliada como uma mentira em potencial, o que supervaloriza cada declaração a ser dada. Em tal dia, e de forma inusitada, se aguça uma melhor apreciação entre: fala e escuta. Em uma realidade em que a palavra a ser dita é publicizada em nome da verdade, os efeitos de uma fé pública criam uma ordem permanente, ou melhor, um cosmos onde cada homem mantém-se atentamente em alerta. Daí a razão do fragmento 89 de Heráclito: “para aqueles que estão despertos há um único mundo em comum (koinón), enquanto, dentre os que dormem, cada qual se volta para seu cosmo particular“. Conservando-se a certeza de que estar desperto é a condição figurada para a resolução de uma fé pública, voltada à preservação e a partilha da verdade, logo se vê que a mentira é a tentativa discordante de ludibriar os esforços dessa resolução, ridicularizando-a. De longe, o dia da mentira é uma celebração saudosa dos dias verazes de outrora.

§2

De uma maneira sub-reptícia, e com um empenho velado ao binômio: verdade/mentira, o filósofo alemão Eugen Rosenstock-Huessy escreveu uma obra incorrigível, chamada: “A origem da Linguagem” (1981). Em seu quinto capítulo: ‘Linguagem versus reflexão‘, o filósofo afirmou: “A linguagem começa quando cada palavra dita de boa fé implica a afirmação de que o que digo é verdadeiro, e de que espero que o resto da comunidade acredite que digo a verdade.” Como esse exercício é tencionado a cada geração, entre os predecessores e seus sucessores – o que requer continuidade – nada mais natural supor que, como um corpo sujeito às circunstâncias, esse mesmo processo tangencie inesperadamente; entre as reviravoltas e contingências da saúde ou da doença de seus porta-vozes. Um organismo saudável, bem como uma civilização, é a manifestação de uma unidade atômica que tende a articular tudo a partir de uma harmonia entre semelhantes. Enquanto que a doença é a tendência impremeditada à dispersão orgânica. Partilhar um mundo em comum, ou melhor: estar saudavelmente desperto, é algo que, segundo Rosenstock-Huessy, só é possível com a assimilação integral da nobreza de seu próprio nome, de modo que compreendê-lo é determinante não apenas para si mesmo, mas para a conservação de sua própria ancestralidade. Saber quem eu sou já é, portanto, descobrir a natureza do meu nome, assentando-o sobre uma verdade originalmente maior que minhas disposições biológicas naturais. Empenhar-se em resgatar seu próprio nome, compreendendo-o desde seus ancestrais mais distantes, é o exercício supremo, e não menos contínuo da fé pública, em que cada palavra externada é compensada com a honra de quem a enuncia. Para Rosenstock-Huessy isso pode ser lido do seguinte modo: “Um homem tem de poder dar a vida por um propósito sagrado.” Em pleno dia da mentira, nada é mais verdadeiro que a pergunta: que propósito seria esse? Cada nome e sobre-nome já o suporta há séculos, portanto, nada é mais premente que apreendê-lo, sob pena de ter comprometida a própria sanidade.

§3

Destacando os tópicos anteriores, sou levado a endossar as palavras de Nathaniel Hawthorne em ‘A letra escarlate’: “Nenhum homem é capaz de mostrar um rosto para si mesmo e outro para a multidão por muito tempo sem acabar confuso em relação ao verdadeiro.” Se primeiramente a menção a Heráclito e seu fragmento 89, reclamou à questão da verdade um estado coerentemente desperto, para logo em seguida aproximá-lo a Rosenstock-Huessy e a continuidade do nome com sua honra e fé pública, o que se pode esperar da frase de Hawthorne? Ora, um homem que se dispersa em inúmeros rostos, desde o instante em privado até o passeio público, é alvo preferencial de um delírio psicopatológico que beira a despersonalização, e não por acaso, remete àquele estado neurótico que Carl Jung chamaria de: ‘dissociação‘. Daí surge indefinidamente um desencontro pessoal; a impossibilidade de autorreflexão e consequente perda do senso de realidade. Do mesmo modo, a dificuldade em assimilação de culpa com seu caráter inimputável de responsabilidade pessoal. Portanto, tudo o que dispersa, tal qual uma mentira despreocupada até a dificuldade de autodescoberta, é decalque impremeditado daquilo que Cristo em ‘Mateus 16, 22-23‘, chamaria de: ‘escândalo‘ ou ‘pedra de tropeço‘. Curiosamente, e não por acaso, a palavra grega: ‘skandalizein‘, significa algo como ‘mancar‘, ou seja, a representação dificultada do passo em falso. Por certo, não seria isso a mentira; aquele artifício desencontrado e sem recuo interior, que tem as pernas curtas?

§4

Para o hinduísmo, a dificuldade em despertar (‘sambodhi‘) é naturalmente desencadeada pela aparente saciedade de um cochilo (‘abodhya‘). Aquele que resiste ao estado desperto da consciência com sua imediata assimilação da verdade, cochila ante as aparições ilusórias de Maya, ou seja, vacila e logo tropeça face aos ardis da ilusão inquestionável. Portanto, esse elemento dispersivo de Maya, que despercebidamente convoca ao cochilo e ao tropeço, é tanto a mentira em estágio escandaloso, quanto aquilo que os Evangelhos sinópticos denominariam com o nome hebreu: ‘satanás.’ Em grego, mais especificamente no Evangelho de João está escrito como: ‘diabolus‘. A sedução decorrente de tal estado dissociativo advém da entrega espontânea aos impulsos animalescos mais primários, o que acaba dispersando a unidade da consciência em um sem-número de demandas e anseios irrealizados. Deixando-se seduzir, o homem encontra um bode expiatório a seus fracassos e frustrações, desdobráveis jamais em si mesmo, mas sempre em algo que o escandaliza. Em ‘Jó, 2,7‘ tais mecanismos são denunciados como obra de um: ‘Acusador.’ Como em um tribunal, satanás é aquele que acusa, pondo a culpa sobre tudo o que é exterior à consciência, algo que a defrauda impremeditadamente. Em pleno dia da mentira, o maior escândalo é esse: depositar a culpa em tudo o que nos excede. No dia de hoje é lícita a pergunta: em nome de que verdade, e sobre quantas mentiras cochilamos?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s