Por Ivan Pessoa

A história é uma sequência de Auschwitz. Isso não é exceção, mas regra.
(Tadeusz Borowski)

§1

Acusado de liderar um suposto grupo formado por intelectuais, cujo nome seria conhecido como: ‘Cerebralismo Judaico’, o compositor austríaco Arnold Schönberg afirmou: “Uma vez judeu, sempre cidadão de segunda classe.” De um extremo que remete ao cativeiro da Babilônia até o Holocausto nazista, o que perpassa (ao modo de Schönberg) é a insinuação de Northorp Frye em menção a Kafka: ‘cada história judaica é a história de Jó. ’ Entre as adversidades sofridas pelo personagem bíblico (sinônimo incorrigível de fé) e o sofrimento de um cidadão de segunda classe – rumo a Auschwitz, renova-se a lição das tragédias: a supremacia de um poder impessoal que limita os esforços humanos; a acusação e consequente perseguição a um grupo específico ou etnia, cujo restabelecimento da ordem anterior é fruto da intervenção divina com sua miraculosa misericórdia; e, por fim, a dignidade da inocência representada pelo olhar das vítimas. Destacados os três elementos em circunstâncias atuais, veremos – como um ciclo que atualiza burocraticamente a barbárie, não como um museu de horrores imaginários, mas como uma realidade eficientemente racional dirigida a inocentes – o ressurgimento contínuo do drama da condição humana (acuada em episódios catastróficos). Há setenta anos, em Auschwitz, esse drama renovava-se ciclicamente como a tragédia judaica. Ademais, para qualquer leitor mais exigente, ou mesmo incomodado com tal tese, sugiro a leitura da suntuosa obra do filósofo polaco-americano Horace M. Kallen, intitulada: ‘O livro de Jó como uma tragédia grega’ (1959). Portanto, onde existir um ou mais bodes expiatórios (sacrificados injustificadamente por esforços coletivistas e ideais abstratos) lá escorrerá igualmente – como em Auschwitz – as lágrimas de Jó. Por esses motivos, sou levado a crer que o mesmo ainda chore.

§2

Lido objetivamente como uma constatação histórica, o fenômeno da desesperança face aos horrores da barbárie, cabe sem titubeios nas palavras de W.B.Yeats no poema: ‘The second coming’ – segundo os críticos, uma paráfrase do filosofal ‘Prometheus unbound’ de Percy Bysshe Shelley. Para W.B.Yeats a história se move nos extremos de ciclos ou giros vorticais, ou seja, em uma espiral crescente que anima o curso das civilizações, oscilantes entre o esplendor e a decadência. Como se pressentisse os horrores posteriores à Primeira Guerra, e atento ao giro vortical da história – às vésperas do Holocausto, Yeats profetizou as insinuações da barbárie em sua apoteose cíclica: “Aos melhores falta toda convicção/ Enquanto os piores estão cheios de uma intensidade apaixonada.” (The second coming, 1919). Ademais, isso pode ser renovado continuamente como um constructo histórico capaz de nos fazer compreender o curso das ações humanas e a antecipação da catástrofe. Portanto, basta sobrepor o ímpeto apaixonado à indiferença para descobrir a proporção entre perseguidores e perseguidos, entre a ira dos algozes e o silêncio dos cúmplices.

De um modo apressado se vê que, a conjunção de fatores políticos e uma dezena de ressentidos com ideias sem sustentação perante a realidade; empenhados em justificar qualquer sandice ou idiossincrasia em nome do sacrifício de eventuais bodes expiatórios, já seria o suficiente para antecipar a composição de um arranjo totalitário e o giro vortical da degenerescência humana, fenômeno que assusta não pela crueldade documentada no passado distante, mas pela proximidade insuspeita. Para aqueles que associam imediatamente totalitarismo a nazismo (como se fosse algo pretérito ou exclusividade daquele período) sugiro a leitura episódica dos respectivos: ‘Antes que anoiteça’ de Reinaldo Arenas e ‘Fuga do campo 14’ do jornalista Blaine Harden. No primeiro caso se tem a autobiografia de um escritor homossexual (um, entre inúmeros perseguidos pelo regime castrista) enviado a um campo de reeducação sexual em plena Cuba revolucionária. No segundo, o miraculoso relato de sobrevivência de um norte-coreano nascido, e criado durante boa parte da vida em um campo de concentração. Em ambos os casos, e, sobretudo nos eventuais casos esquecidos, se antecipa a certeza: Jó ainda chora por cada vítima, por cada inocente sacrificado por sua religião, credo ou etnia. Por conseguinte, cada gota de lágrima sitiada evoca Auschwitz.

Considerando todos os fatores que se notabilizam diuturnamente: desde os ressentidos face as suas vítimas, passando pelo recrudescimento da ‘violência vã’ (para usarmos um termo cunhado por Primo Levi) até a intensidade apaixonada, veremos que o giro vortical do Holocausto ainda assombra, por mais silencioso que pareça. Desse modo, e de forma compósita, o fenômeno regular da barbárie seria a consequência da defesa passional de algumas pessoas e um gradual anseio de reparação de diferenças, de modo que sua melhor demonstração é a decantada expressão: ‘lutar por um mundo melhor, ou, por que não: por uma raça pura’. Portanto, desde as primeiras insinuações de totalitarismo, o que se constata é a necessidade de reparar as eventuais mazelas do mundo (no contexto nazista tais mazelas teriam matizes raciais, expiáveis no povo judeu) com uma intensidade apaixonada que se sobrepõe ao silêncio dos justos e bons. Destarte, basta a concessão dos homens sãos para surgir, sorrateiramente, uma justificativa à barbárie.

§3

Setenta anos depois da libertação de Auschwitz, a fórmula se renova: onde houver ressentimento não haverá nem vítimas, nem inocentes, haverá intranquilidade e inculpação. Dito de outro modo: basta transferir a culpa a uma classe social, a uma raça ou etnia ou a uma nação para que, orientada por uma formulação abstrata e um aguçado senso de revolta, a intensidade apaixonada insinue um Holocausto. Em seu afã, a história será redimida e o sangue das vítimas imoladas será definitivamente purificado. Como uma espiral que atualiza os ciclos históricos, fazendo com que Jó se acomode eternamente na segunda classe, a tensão entre o ressentimento e a inocência de uma vítima faz surgir constantemente duas disposições humanas: a defesa passional de alguma bandeira político-ideológica com sua finalidade de redenção histórica ou a aceitação trágica da vida com sua espontânea realidade. Enquanto a primeira disposição enseja a partilha coletiva entre entusiasmados defensores – devotados ao fervor apaixonado e à mudança decisiva de tudo o que se contrapõe à pretensa causa redentora – a segunda favorece a atuação individual face o mundo real, com seus gestos de bondade e gratidão.

De um modo breve ou pretensamente didático, o filósofo Phillip Hallie equalizaria tal arranjo no conceito de ‘crueldade institucional’, fenômeno que se observa à proporção que, por deliberações políticas e efeitos psicológicos como no nazismo, um grupo de entusiastas – munidos de formulações abstratas e anseios de vingança – inculpa, sobre um conjunto de vítimas expiáveis (no caso: o povo judeu), o desequilíbrio da ordem natural. Vale considerar que para o nascente Partido Nacional-Socialista, logo após a Primeira Guerra, toda humilhação sofrida pela Alemanha naquele fatídico conflito, seria culpa do povo judeu. O que se segue a isso é um senso sanguinolento de reparação (proveniente de um ciclo vortical de decadência), bem como a institucionalização do ressentimento com suas expressões politicamente corretas e práticas persecutórias. Promovendo toda sorte de inculpação, por meio de uma máquina publicitária incansável e igualmente ressentida, o nazismo lograria um êxito não apenas premeditado, mas incontestável. Como corolário, relembro Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda Nazista: “Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade.”.

Entretanto, para Hallie – apenas a necessidade de se vincular às pessoas, não abstratamente como conceitos raciais, ideológicos ou sexuais, mas sim de um modo efetivo e apiedado, é capaz de retardar os efeitos encantadores do discurso ressentido, constatável sempre que o apelo à transferência de culpa se insinuar. De um modo oscilatório ou súbito como em um pêndulo, o discurso aparentemente mais humanitário e, quão mais abstrato – como purificar as raças, sempre insinuará inesperadamente o cortejo impremeditado da barbárie, fazendo com que, sob recursos retóricos, todos os desmandos em nome de uma causa sejam justificados, renovando assim as palavras de Hannah Arendt à memória de Karl Marx: “A violência é a parteira da história”.

Portanto, para além da ‘crueldade institucional’ e seu desdobramento ideológico, Hallie antepõe a ‘hospitalidade’ – destacável, segundo o filósofo, na assistência arriscada do casal André e Magda Trocmé aos judeus perseguidos nos arredores da vila de Le Chambon no Sudoeste da França ocupada. Desse modo, e ao se contrapor os dois conceitos, se conclui que a necessidade de ajuda ao próximo e a expectativa de retardar os efeitos das mazelas do mundo só são plausíveis quando direcionadas aos homens reais, transcendentes ou acima das formulações intelectuais e bandeiras de ocasião, bem como necessitados de compaixão. Desconsiderados os efeitos da gratuita ‘hospitalidade’, contrapostos às especulações abstratas, o que sobra é o insano ressentimento, incapaz de um lapso de consciência ou ponderação. Aliás, nada é mais característico do ressentimento que a transferência a causas exteriores (o capitalismo, a desigualdade social, o povo judeu), visto que em uma vida normal o processo de culpa é interiorizado por meio do exame de consciência, o que determina por sua vez um grau acirrado de reparação de equívocos eventuais e responsabilidade. Desobrigando-se de sua interioridade e consequente exame de consciência, ao homem sobrevém uma gradual perda do senso de proporções, o que o faz justificar cinicamente expurgos, assassinatos e holocaustos. Prova desse cinismo desproporcional é a inscrição afixada pelos oficiais nazistas na entrada dos campos de concentração, dentre os quais, Auschwitz: ‘Arbeit macht frei’ (‘O trabalho liberta’). Para o ressentimento nazista e sua intensidade apaixonada (tanto faz se há setenta anos ou nos dias de hoje) o trabalha ainda liberta. Justificadamente.

§4

Um dia, Paul Celan escreveu para a poetisa, e igualmente sobrevivente Nelly Sachs: “O que nós, os judeus, precisamos suportar ainda?”. Passados esses simbólicos setenta anos pós-Auschwitz, o povo judeu ainda sofre toda sorte de dissabor, de um extremo que alterna a alcunha de deicida (por matar Deus, em particular a figura de Cristo) até a conspiração de uma suposta investida contra os valores cristãos ocidentais. Para os mais ‘incrédulos’ (daí o temor visionário de Paul Celan) o massacre e o absurdo infligido ao povo judeu na chamada: ‘solução final’ (visto pelos revisionistas como um mal necessário: sic!) consta não como um crime contra a humanidade, mas como um ‘Holoconto’, renovando assim as palavras: ‘o que precisamos suportar ainda?’ Afora isso, por mais que uma parcela se favoreça inescrupulosamente ao barganhar benesses políticas com o Holocausto, reconfigurando particularmente a esfera geopolítica do Oriente Médio, ainda assim a lição que se tira de Auschwitz é inconteste e cabe nas palavras do também judeu, Heinrich Heine: “Cada homem isolado é um mundo completo, que vive e morre ao mesmo tempo (…) e cada lápide tumular cobre uma história universal.”. Desse modo, basta uma única vítima inocentemente assassinada para sucumbir a humanidade inteira, não como uma totalidade estatística, mas como uma realidade digna de compaixão.

Se justificado exclusivamente à luz de motivações políticas, ideológicas, ou mesmo por razões religiosas, o Holocausto sempre será recontado com ressentimento (advindo daí a dúvida estatística quanto os seis milhões de mortos), com efeito, nada explica o absurdo da crueldade institucionalizada. Entretanto, se compreendida como uma tragédia humana que, ainda que vitimasse um único inocente, nos despertasse para a intensidade apaixonada dos maus – oscilantes entre a revolta e a ocasião, a vida pós-Auschwitz nos levaria ciclicamente setenta anos adiante. Ou ainda estamos na segunda classe com Jó, como há setenta anos? Diferentemente dos que acreditam que Auschwitz fora enfim libertada, e ao longe se escutam os vagões da história: rumo a um mundo melhor, estou convicto de que é por esse motivo que choro. Inocentemente, estamos do mesmo lado.

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