Por Ivan Pessoa

§1

A capacidade de discernir sobre a especificidade de um fenômeno – diferenciando-o de outros eventualmente análogos -, é possível por meio de seu caráter unitário, ou seja, a partir dos traços permanentes que sua aparição imprime no decorrer de um período particularmente datado. Aquilo que lhe é intrínseco é igualmente compreensível por meio de uma definição, que se apressa sempre que aquele fenômeno se manifesta. Definindo-o, a partir de sua natureza, ou seja, a partir de sua proporcionalidade intrínseca (logos), de sua essência (eidos), se alcança a certeza de que o verdadeiro saber é puramente demonstrativo, o que confronta a definição à coisa mesma. Em linhas gerais, saber é demonstrar desde os princípios, anteriormente pressupostos como um conjunto de verdades primárias. Acerca dessas verdades ou princípios, São João Damasceno ponderou suas características supremas: “são aquelas que por si mesmas estão naturalmente insertas ou pré-dispostas na mente humana.” Portanto, ter consciência de que algo é similar a si mesmo intrinsecamente, é atender ao chamado desses princípios ontológicos que são o fundamento tanto da definição de algo, quanto de sua demonstração. Saber sobre algo é sabê-lo especulativamente, ou seja, é ver refletido em sua ideia, a verdade sobre o fenômeno compreendido. Ora, qual o dado primeiro da realidade senão sua manifestação sobre a consciência, que a sabe imediatamente? Portanto, o campo das definições é proporcional ao nível de verdade que a consciência capta face ao objeto observado, e é capaz de demonstrar para si mesma aquilo que sabe.

Deslocar uma definição sobre os comportamentos humanos é deveras problemático pelas mudanças interpostas pela vida, tanto de quem se empenha em pesquisá-la, como das demais pessoas investigadas. Entretanto, por considerar as palavras de Albertine Sarrazin, para quem: ‘devemos julgar a nós mesmos pelos reflexos sobre as outras pessoas’, a fonte da definição dos comportamentos deve partir – primeiro de si mesmo, para enfim encontrar: seja ao redor, seja na história – determinados padrões recorrentes, trazendo-os para o centro da auto-compreensão, que se ajusta a partir da própria sinceridade. Desse modo, um padrão definível é aquele que resiste essencialmente às mudanças, permanecendo o mesmo perante as circunstâncias. Descobri-lo, exige problematizá-los tanto em si mesmo, como ao derredor, o que requisita especular necessidade contínua de avaliar a própria imagem como que refletida em um espelho. Especulativamente, ou seja, ter esse auto-reflexo como eixo das ações humanas, determina o aprimoramento de determinadas condutas, refletidas ao longo da vida.

§2

Como se renova a partir desse aprimorado auto-reflexo, nada se oculta para si mesmo, de modo que a transparência da consciência sobre suas próprias certezas gera um comportamento espontâneo, capaz de um conjunto de respostas imediatas: seja a partir de um gesto de nobreza, admiração, ou mesmo recusa. Sua resistência cria seu contrário: o comportamento vampiresco, cuja característica é destacável a partir da aparente e confusa indiferença deliberada que se alimenta de uma fonte de energia vital (‘prana’ em sânscrito) daquilo que toma por inferior. Portanto, diferentemente do comportamento transparente, que é espontâneo; o comportamento vampiresco é confuso, desde que policia e mascara a si mesmo. Desta forma seu indício é dúbio, alternando aparente nobreza com a busca pela saciedade primal de ‘prana’, cuja expressão na literatura é a imagem de um Conde à cata de sangue. A propósito vale considerar que o homem espontâneo é aquele que manifesta num conjunto de comportamentos (a despeito das mudanças acidentais da vida), algo que em sua personalidade contém a unidade de seu carisma, a saber: a Graça de suas ações espontâneas que se dão sem testemunhas. Como contraponto, o homem vampiresco é aquele que, abismado pelo vazio de seu carisma, busca compensações na ‘prana’ ou no sangue daqueles que, aos seus olhos confusos, são menores do que ele.

Quando o fenômeno, por mim nomeado de: ‘voyeurismo vampiresco‘, me aconteceu como uma ideia – à procura de definição, decidi depreendê-la de uma soma fortuita de comportamentos que associassem de pronto: a aparente frieza e seu efeito contrário, a curiosidade mórbida, ambos característicos da estrutura psíquica dos supostos e alegóricos vampiros que carentes de ‘prana’ buscam-na inconscientemente.  Em outras palavras, como defini-la enquanto norma de conduta, por vezes, impremeditada por seus viventes? Na perspectiva de compreendê-la como um desvio patológico ou mesmo espiritual, comecei a apurar a capacidade de enfoque, ciente de que o ponto de partida para descrever a estrutura da consciência seria o foco de atenção. Como se crescesse em proporção inversa: a necessidade de enfocar sobre o comportamento dos demais ao derredor exigia uma permanente auto-compreensão, cujo risco – caso negligenciado – seria recair mimeticamente sobre o ambiente que me precipitava, afinal como bem pontuou Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” A partir de então, comecei a rastrear tal comportamento: refletindo-o em mim mesmo; para sobre seus efeitos, buscar parte da compreensão. Daí comecei a entender o centro das motivações, tanto nas pessoas que se aproximavam, como em algumas narrativas, fossem literárias ou fílmicas.

Certa vez, logo após ter assistido: ‘Drácula‘ de Tod Browning, comecei a perceber algo até então imperceptível. Ciente, sobretudo, após ter lido Gavin Ewart, de que a real motivação para Bram Stoker e seu magistral: ‘Drácula‘ fora a obra de Jules Verne: ‘O castelo dos cárpatos‘, comecei a ponderar sobre a fonte de tal inspiração. Na obra de Verne, o excêntrico barão Gortz ressuscita a cantora de ópera, Stilla, morta durante um espetáculo, e por quem, ele nutria uma paixão obsessivamente avassaladora, ainda que jamais confessada.  De que forma se dá tal ressurreição demoníaca? A recriação de Stilla não se dá como o ‘Prometeu Moderno’ de Shelley: retalhado a partir de um conjunto de corpos caoticamente costurados, mas por meio da captura da sua imagem num objeto vítreo que a projeta, e a reprodução ininterrupta de sua voz, captada em uma gravação. Somadas as características, senti – como se pudesse inteligir todos os eventos ulteriores parcialmente análogos: a definição do fenômeno, condensando-o em: ‘voyeurismo vampiresco.’

De sua assimilação mais próxima – por meio de determinadas pessoas – até sua possibilidade enquanto comportamento imaginariamente desdobrável: o ‘voyeurismo vampiresco‘ é sintomático no barão Gortz, porquanto, de posse de uma admiração platônica inconfessada, seu senso de admiração cede à obsessiva possessão. O que daí surge é o vazio espiritual entre o objeto devotado e o espaço interior, que não o acolhe imediatamente de forma serena, mas sempre de um modo convulso e inquieto; em razão de sua pequenez irreconhecida que o contempla entre frestas, e jamais aceita, surgindo assim a recusa reativa de ver em si mesmo (in-veja) tanto aquilo que lhe encanta inconfessadamente, como lhe excede infinitamente. Neste diapasão contraditório entre o objeto devotado (entre frestas) e a recusa reativa (in-vejada) é que se encontra o ‘voyeurismo vampiresco‘. Ademais, como não poderia ter a cantora em vida por sua grandeza, Gortz se esforça em conservá-la como imagem, premeditando sua fixação vampiresca, ao modo de um voyeur: gravando a voz e o rosto de Stilla como a representação do seu objeto, proporcionalmente devotado e invejado. Portanto, como definição, o ‘voyeurismo vampiresco‘ é: o sintoma contraditório de um comportamento psicopatológico que, na impossibilidade de externar admiração ou nobreza a um objeto interiormente admirado, recai em uma obsessão inconfessadamente in-vejosa; vampiresca por que sedenta por energia vital e fonte de criação (‘prana’), bem como sanguinolenta a tudo aquilo que não vê em si mesmo, mas admira silenciosamente em outrem, e, voyeur por que votada àquilo que gostaria de ser, mas observa entre frestas. Daí a fixação de um vampiro por sangue (‘prana’), que o leva a cobiçar – não com transparência, mas às escondidas – aquilo que não tem, mas inconscientemente vê no Outro.

De certa forma, e ainda que o fizesse com outros propósitos, o poeta Allen Tate ao acusar a fragmentação e o excesso de provincianismo no homem moderno, talvez, estivesse apontando avant la lettre, para o fenômeno do vampiresco, crescente numericamente em uma sociedade que nivela todas as realizações humanas desde baixo e cuja publicidade de desejos custosamente alcançados, aguça a crise e a mentira do fracassado, que não torna claro para si mesmo (ainda que seja sua mais íntima projeção) os méritos do vencedor. Portanto, o provinciano: preso ao tempo de seus desejos e fracassos, alterna um estado interior confuso entre a admiração e a dilapidação daquilo que admira, surgindo assim a fonte de sua queda, captada a custo de uma longa e nada autoindulgente reflexão.  Afinal, como dizia o poeta, em outras palavras: o melhor meio de conhecer um provinciano é acusá-lo de seu provincianismo, caso isso o aborreça, tudo o que já era esperado se confirma. Por extensão, caso se queira detectar o voyeurismo em alguém, basta acusá-la acerca de sua suposta indiferença contra determinados episódios discutidos, e na mesma medida: em seus modelos arquetípicos inconscientemente renunciados. Contra pessoas conhecidas ou desconhecidas; contra a grandeza dos comportamentos humanos; contra os êxitos individuais em circunstâncias inusitadas: qualquer rejeição àquilo que tem grandiosidade, e, de certa feita, se sustenta por seus próprios méritos; quando envaidecidamente negligenciados – revela o traço de uma personalidade vampiresca: multiplicável onde quer que as vaidades humanas se acirrem, mas jamais sejam confessadas, portanto, em qualquer relação dialógica. A assoberbada indiferença, o diletantismo, a afetação e um senso aparente de distância aristocrática, são traços da personalidade vampiresca: características que assomam em um comportamento precipitado entre o autoengano e a falta de naturalidade.

Em sociedades democráticas, apontadas por Tate como: provincianas temporais – em razão de uma campanha publicitária ostensiva, porém subliminar, os efeitos de comportamentos vampirescos são impostos despercebidamente, e alternam um cinismo custoso tanto para o indivíduo obsediado, como para seu objeto de admiração. Tais campanhas publicitárias promovem o triunfo do vampiresco, estampando aquilo que Kristeva considera como: o abjeto, cuja expressão é o sangue, a mácula da violência, o crime, quase sempre consumidos por meio de notícias. Portanto, em um período aparentemente saudável, como uma alegoria: o espírito vampiresco é a concentração de um poder impessoal que se alimenta do recrudescimento da in-veja compartilhada, perpassando seus êxitos e a sustentação de seu poder com o fracasso daqueles que o promovem. No nazismo, tal fenômeno – que se assenta sobre um delírio psicótico coletivo, proporcional às frustrações interpessoais igualmente partilhadas, isso  foi chamado de: ‘Gleichschaltung‘. Vendo por entre as frestas, observando entre as janelas, e, sobretudo, conservando um ar aparentemente distanciado; o voyeurismo confirmaria seu propósito: inutilizar em si mesmo qualquer resquício de extraordinariedade inalcançável ou traço espontâneo de grandeza individual, de modo que tudo o que se sobrepõe em qualidades humanas objetivamente observáveis, é imediatamente questionado: seja com uma acusação ou campanha difamatória, seja com uma pretensa indiferença.

Quando Murnau decidiu filmar a obra de Bram Stoker, em seu monumental: ‘Nosferatu‘ (1922), talvez não o fizesse sem o auxílio do coprodutor Albin Grau, estudioso de ocultismo que dizia ter presenciado um incidente com um vampiro real durante sua estada no serviço militar. Ainda que Drácula se transforme em Graf Orlok, seus traços são relativamente mantidos, sobretudo, pelo passo sorrateiro que admira e espreita as vítimas à distância; desejando-as antecipadamente. Por perceber o caráter esteticamente superior da recriação da obra literária a partir de uma linguagem nascente, consagrada desde então como cinema, sua mais importante crítica naqueles anos, Lotte Eisner, escreveu que Murnau – além de ser o maior cineasta entre os alemães – criara as imagens mais impressionantes e comoventes daquele teatro cinemático. Meses mais tarde, ainda naquele ano, outro diretor surpreenderia, Fritz Lang com: ‘Dr Mabuse.’ Tomado desde o subtítulo como um: retrato fiel da época, sobretudo, pela violência demoníaca dos poderes hipnóticos de seu protagonista, Lotte Eisner diria posteriormente que aquele filme era a antecipação simbólica da ascensão de Adolf Hitler.

Somadas as personalidades fictícias: Drácula, barão Gortz, Orlok, Mabuse, o traço que se apressa é característico de uma pessoa, cuja assimilação de si próprio é difusa à autocontemplação. O que lhe resta é negar desde si mesma, aquilo que admira, como um processo sofrível e catártico de deformação violenta do admirado. Desse modo, o vampiresco é a presença de um olhar encantado, mas in-vejoso, que tende a dilapidar em si o objeto de sua obsessão. Recusa-o por admirá-lo; admira-o por recusá-lo.

Na sociedade atual, os traços dos personagens anteriores convergem para o acirrado senso de admiração inconfessada, reproduzível a partir de padrões de comportamento, advindos de um provincianismo temporal, que se caracteriza pela destruição de tudo o que é notoriamente especial. A despeito das épocas, tais padrões de comportamento se assentam sobre a revolta interior, a in-veja e a obsessão, destacáveis, por exemplo, na personalidade doentia de Hitler, que vindo de um ambiente familiar relativamente comum, destina seu propósito de vida contra os judeus: celebrizados por superar perseguições étnico-raciais, e, em seguida, aplacá-las com a produção de riqueza em escala miraculosa.

Por certo, como se consumasse a definição mesma de ‘voyeurismo vampiresco‘ na imagem peremptória de uma pessoa incapaz de aceitar sua própria condição amesquinhada, Hitler encarna – ao modos dos personagens, tudo o que faz da pequenez, e do ressentimento: uma compensação autopromotora. Aliás, se sabe que, ao lado de Karl May ou Ibsen, Hitler admirava do mesmo modo, os romances de Goethe, determinantes, em especial: ‘As afinidades eletivas‘ para a sua compreensão hierárquica sobre a natureza. Tendo em vista tal hierarquia natural, compreendidas desde Goethe como uma alusão à civilização a partir da arte da jardinagem contra as indesejadas ervas daninhas, é que Hitler promulga a chamada: ‘Lei de Proteção da Natureza.’ Entretanto, e aqui reside a marca acusatória do vampiresco, inclusive, destacável em circunstâncias imediatamente cotidianas quando não se dá o devido reconhecimento ao que é verdadeiramente grandioso: o que o ditador faria se soubesse que a fonte filosófica de Goethe não era genuinamente germânica ou original, mas era obra de um judeu renegado, chamado: Baruch Spinoza? Por estas e outras é que os mesmos vampiros que nos observam, detestam a Verdade e os espelhos.

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Um comentário sobre “Voyeurismo vampiresco

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