Por Ivan Pessoa

§1

Nos textos sânscritos, o encontro do homem consigo mesmo faz com que: “todos os nós da terra sejam desfeitos.” Portanto, ser um mestre – em termos hindus – pressupõe penosamente: praticar a isenção do fluxo respiratório (‘savikalpa samadhi‘) e alcançar a bem-aventurança (‘nirvikalpa samadhi‘). Em termos ocidentais isso é, respectivamente, a conciliação entre a transcendência e a serenidade, intermediada por um outro mestre. Em tal nível, o ‘rishi‘ (sábio) domina os ardis de Maya, ou seja, da ilusão de ‘ahamkara‘ (ego) proclamando humildemente: ‘Ekam sat‘ (‘Só existe Uma Verdade‘ ou ‘Tudo é Um‘). Não surpreende que isso seja similar à experiência filosófica clássica, haja vista, o pensamento grego, mais especificamente: o pensamento pré-socrático. Ademais, isso é o que chamaríamos de ‘philosophia perennis‘, impulso intelectual constante entre os homens e os povos, voltados à sabedoria e a autocompreensão. Dessa forma, esse impulso à sabedoria seria um modo de participação do homem na realidade, cuja fonte é a busca sincera e auto-confessada pela Verdade. Como jamais é posse, tal Verdade desencadeia senão busca, algo que os gregos chamariam de: ‘zêtêsis‘. Entretanto, pela crescente mediocridade institucional, todo esforço intelectual à Verdade é adiado – privilegiando-se antes a confusão e a prepotência, representados pelo chamado: ‘libido dominandi‘ (anseio ridicularizado por Samuel Johnson em ‘Vaidade dos desejos humanos‘, 1749), ou seja, a tentativa assoberbada de querer compreender a realidade com a incorrigível postura de um deus.

§2

Quanto aos deuses e seus emissários, um dia – no norte da Índia, na região de Taxila -, Alexandre enviou um discípulo de Diógenes, o cínico; de nome: Onesikrítos, para dialogar com o ‘sannyasi‘ (sábio renunciante) Dandamis. Em meio à floresta, Onesikrítos falou: “- Salve, ó mestre dos brâmanes! O filho do poderoso Zeus, Alexandre, soberano senhor de todos os homens, solicita a sua presença. Se consentir, ele o recompensará com grandes dádivas; se recusar, ele lhe cortará a cabeça!” Em réplica, Dandamis disparou: “- Se Alexandre me cortar a cabeça, não poderá também destruir minha alma. Minha cabeça, então silenciosa, e meu corpo, como um traje rasgado, permanecerão na terra, donde seus elementos químicos foram extraídos. Eu, então, vindo a ser Espírito, subirei a Deus. (…). Contra os brâmanes, suas armas são inofensivas; nós nem amamos o ouro nem receamos a morte. Vá, pois, e diga a Alexandre isto: – Dandamis não precisa das suas ninharias e por isso não irá; e se Alexandre quer alguma coisa de Dandamis, que venha ele mesmo até aqui.” Há rumores de que, amedrontado, Alexandre não consentiu em conhecê-lo. Entretanto, desde então surgiria entre os hindus o testemunho de uma certeza insofismável: “Algumas pessoas tentam ser altas cortando a cabeça das outras.” (Sri Yukteswar). Com um recurso à analogia, tal episódio pode ser atualizado, daí que nessa era de acirrada mediocridade; em plena vigência da arrogância evasiva e seus nós górdios, quantas cabeças pensantes se encontram em uma Universidade e seus corredores filosofantes?

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