Por Ivan Pessoa

Quando um ancião morre, uma biblioteca inteira é consumida pelas chamas.”
(Amadou Hampaté Bâ)

§1

A palavra fulge como fogo, avivando os homens e as civilizações. A ignorância a obscurece por temê-la. A conservação deste fogo primordial, desta palavra criadora, é legada àqueles que estão habituados ao fervor da realidade: pulsante e viva. Enquanto que, por não suportá-la, outros hipostasiam alucinadas quimeras, tomando fagulhas por chama. Em um tom metafórico, poderíamos supor; neste processo de deferência e transmissão desta palavra viva às gerações vindouras – a lição elementar do fogo, que aclara os homens em meio à escuridão. Desmerecê-la é investir sobre o abismo, recaindo, portanto, sobre sombras, equívocos e vaidades. Por ser entusiasticamente transmissível, este fulgor de palavra é encadeável desde que seja merecida por quem a comunica: ou por meio da oralidade, ou por meio da escrita, em uma centelha de inteligência que aviva os antigos, os novos e os ainda não nascidos. Sendo um fogo vivo, subjacente às gerações, toda investida requer um merecido comprometimento, que vincula extraordinariamente a claridade de todas as eras. Daí porque não hesitaríamos em vê-la como cultivo: daquele que ajusta os gestos e as ideais pessoais (destituindo-as de envaidecida soberba) a partir da tradição, despertando em seus entusiastas; a excelência intelectual, moral e espiritual, ou seja, a sabedoria. Fertilizar a vida, cotidianamente imerecida e apequenada, por meio deste fogo do conhecimento atemporal, eis o que Matthew Arnold chamaria de cultura: princípio espiritual que, ao dispor a herança incorrupta dos antigos, eleva as gerações à partilha de saberes, cujo propósito naturalmente: ‘procura abolir as classes.’ Dentro desta comunidade – comungável entre gerações, e que requer: silêncio, ponderação e demora – nada se sobrepõe ao fogo e à vitalidade do conhecimento partilhável, algo que se constata no diálogo entre um ancião e seus entusiasmados ouvintes, ou mesmo entre o leitor e seu livro dileto. Deste cultivo demorado, que conserva a claridade do conhecimento perene, surge a cultura e, por conseguinte, a semente de sua transmissão: a formação, que aprimora continuamente o lume dessa busca até ressurgir entusiasticamente em fogo por meio da presença e do diálogo. Entretanto, ressalvadas suas condições, todo empenho em merecê-la requer sacrificado cuidado, diligência e respeito, pois: ‘não há cultura sem culto.’ (Christopher Dawson). Como consequência deste cultivo; cuja exigência é a formação, compassiva e inesgotável eis que: ‘Cultura é lentidão.’ (Dámaso Alonso). Portanto, nesta sofrível e angustiada lentidão, o espírito que se empenha em cultuar o fogo do conhecimento tem por via aberta um grandioso caminho: a serena humildade, que atenta os olhos e os ouvidos para as descobertas infindas da tradição, bem como às surpresas do porvir. Tudo o que contraria isso, ignora o caráter fulgurante do conhecimento: grandioso e inteligível, confundindo chispas com a propriedade absoluta da claridade, passível que é de transpor desertos.

§2

Acerca desta humilde característica de quem busca o fogo e, portanto, o cultiva, Dryden ponderou em referência a Ben Johnson: ‘A capacidade de assimilar é o dom de absorver cultura.’ Sendo lentamente assimilável no decurso das gerações, o propósito da cultura é tanto apurar o cultivo de si mesmo quanto aprimorar a formação dos mais novos. Em uma breve observação quanto o seu desmantelo cada vez mais frequente, Karl Kraus que, segundo o poeta Georg Trakl, impunha a presença de um mago furioso – escreveu brilhantemente: ‘Formação é aquilo que a maioria recebe, muitos passam adiante e poucos possuem.’ (Pro domo et mundo, 1912). A crise da formação é resultado de uma visão de mundo em que, ao desmerecer o cultivo de quem a professa, e o imediato compromisso entre gerações, a busca pelo conhecimento vacila ante o improvisado conteudismo. O que sobra a partir desta crise da cultura é o diletantismo que, por fragmentar e menosprezar a visão integral da formação confina a busca intelectual aos dilemas imediatamente acidentais (raça, sexo, classe social) reduzindo a totalidade das inquietudes humanas milenares às fagulhas de particularidades datáveis e epocais. Elias Canetti, que via na escrita de Kraus o peso de uma espécie de ‘citação acústica‘ tão cara àqueles que absorvem e professam a cultura, ilustra com muita inventividade o sentido de formação em seu romance de 1935: ‘Auto-de-fé.’ Nesta obra, o protagonista – Peter Kien, erudito que põe fogo em si mesmo e em seus livros quando suspeita inadvertidademente da decadência do mundo exterior cada vez mais amesquinhado, alenta-nos a certeza: cultivar as chamas da tradição (pressuposto de uma formação) requer consumir-se desde dentro, até sê-la integralmente. De posse desta imagem, cabe a pergunta a um entusiasmado cultor do conhecimento: ‘O que pretendes perder para assumi-lo posteriormente em êxito?’ Deste fogo peripatético, que se consubstancia nas palavras e gestos de seu porta-voz, por que o consome vividamente, é que se dimensiona o vigor da formação: possível apenas àqueles que assimilam e se deixam encadear pelo apelo ígneo da tradição. Quem a detém humildemente revigorada, revitaliza não apenas a si próprio, mas está apto a transmiti-la. Da transmissão deste fogo interiormente cultivado, e o intento que se encaminha à formação dos mais novos, é de onde surge a centelha criadora da educação, cujo propósito, segundo C.S.Lewis seria :’não derrubar florestas, mas irrigar desertos.’ (1943).

§3

Conta-nos Anne-Marie Tolba em: ‘Villes de sables‘ (1999) que nos desertos da Mauritânia, mais especificamente em Ouadane, no começo do século XV, um mendigo apareceu esbaforido às portas da cidade. Tomado pelo cansaço e com bastante fome, fora piedosamente levado a uma mesquita. Passados alguns dias após a chegada, e já devidamente vestido e alimentado, o homem hesitava em dizer seu nome e seu lugar de origem. Em meio ao silêncio, apenas as inacabadas leituras lhe confortavam, de modo que um dia o imã lhe interpelou: ‘Cada leitor é apenas um capítulo na vida de um livro, e quando não passa adiante seus conhecimentos condena o livro a ser enterrado em vida, por assim dizer. Você quer um tal destino para os livros que lhe serviram tão bem?’ Em réplica, o homem comentou encantadamente o livro entreaberto, o que fez o imã perceber que estava diante um discreto sábio. Em seguida confessou: ‘Decidi ficar calado pois, desesperado com a surdez do mundo, prometi a mim que só falaria quando chegasse a um lugar em que o conhecimento fosse verdadeiramente prezado.’ Não há outro lugar no mundo em que o conhecimento seja verdadeiramente prezado que não a tradição, de modo que desmerecê-la é distrair-se entre vaidade, verborragia e diletantismo. Desde o sábio mendigo de Ouadane até os dias atuais, o processo de assimilação e cultivo do espírito – em meio ao deserto, requer impassível demora e lentidão, condição exemplar para a formação das sucessivas gerações. Cultivando o fogo ancestral de antigos sábios, o homem atravessa corajosamente o deserto de sua condição, encarnando em vida a natureza de suas palavras e gestos. Para quem pretende atravessá-lo, guiar-se pelo fogo das palavras eternas é uma condição, daí o humilde silêncio. Para quem não pretende fazê-lo, incendiar florestas é a condição mais triunfal para manifestar as palavras de uma revolta qualquer: ‘A ignorância é força!’ Em meio à floresta de incendiárias e evasivas ideias, toda idiotia é uma prova de fogo.

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3 comentários sobre “Cultivar desertos

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