“(…). a mediocridade poderia definir-se como uma ausência de características pessoais que permitam distinguir o indivíduo em sua sociedade. Esta oferece, a todos, um idêntico fardo de rotinas, preconceitos e domesticidade; basta reunir cem homens, para que eles coincidam no impessoal. ‘Reuni mil gênios em um concílio, e tereis a alma de um medíocre.’”.

 (José Ingenieros: ‘O homem medíocre.’).

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Por Ivan Pessoa

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A capacidade de ver superiormente quer dizer: (ante)ver.

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Tudo o que tende à acomodação inconteste, e tem acolhida coletiva, é aqui compreendido como mediocridade. Portanto, seu apelo não surge da posição individual e consequente contrariedade, mas surge da aclimatação genérica dos demais sobre o indivíduo.

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Se tomada em um âmbito alegórico, a sua especificidade é similar ao conto: ‘The country of the blind’ de H.G.Wells, em que progressivamente a capacidade de ‘ver’ é comprometida por uma cegueira que censura inclusive as palavras associadas à visualidade. Neste contexto, ‘ver’ enquanto captura natural do homem perante a realidade, se torna coletivamente censurável.

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Em terra de cegos a mediocridade é tudo o que não se vê.

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Sendo cego, mas sem o saber, o medíocre é o homem que na multidão se atomiza; tornando-se coletivamente a cópia arquetípica de todos os demais, ou sua sombra. Por conseguinte, o propósito da mediocridade é anular toda e qualquer diferença exclusivamente individual, antepondo-a naquela aclimatação genérica: cega e assoberbada.

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Vendo apenas as suas necessidades mais primárias; a partir dos olhos cegos e a órbita de seus sonhos mais apequenados: o medíocre é vaidoso por excelência. Entretanto, a sua vaidade é um constructo coletivo, selecionável a partir da cegueira dos demais.

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Como todo o esforço de sua vida tende à preservação tangível daquilo que por ventura possa conseguir, ao medíocre interessa não o espírito visual: inquieto, insaciável, mas o temor à distância de tudo o que engrandece e atemoriza – o que aguça um senso de revolta coletiva contra o incompreendido, o misterioso, o divino. Em seus olhos cegos, nada de grandioso vigora: apenas lapsos e imagens de autossatisfação, disponível por seu respectivo agrupamento.

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Satisfeito com sua própria sombra, e por distanciar-se daquilo que lhe é infinitamente superior, ao medíocre interessa a soberba deliberada, cujo maior gesto de grandeza é observável por um senso envaidecido de indiferença. Desde então, tudo o que não for coletivamente compreensível, e se lhe sobrepuser, é tanto passível de indiferença quanto de recusa, porquanto, apenas a mediocridade conforte.

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Por indiferença se compreende a resistência autodeliberada em julgar padrões hierárquicos. Tais padrões são destacados por duas possibilidades intrínsecas – algo que a mediocridade não consegue alcançar: o primeiro padrão é inferior, e por sê-lo só pode ser visto para além da mediocridade, portanto, constatável por um espírito que não o seja, ou é destacadamente superior; algo que, ultrapassando a mera observação, não é imediatamente compreensível, mas se demora entre a contemplação, o silêncio e o contentamento.

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Em meio ao grupo e sua aclimatação, que tende a atomizar tudo o que se lhe contrapõe; a mera observação de que algo é hierarquicamente inferior já denota uma compreensão por sobre a mediocridade. Logo, apenas o espírito individualmente habilitado a essa autodescoberta é resistente à mediocridade quanto encaminhado àquilo que é superior.

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Cego às hierarquias, o medíocre é indiferente àquilo que lhe é inferior, quanto à superioridade. Desta perspectiva advém a quebra de padrões (morais, estéticos, políticos) cujo esforço é o de nivelar tudo o que é observável a partir de sua indiscriminada manifestação. Portanto, como é indiferente, duas características se apressam ao estado medíocre: a ausência de referencial moral, estético e político, com respectivos critérios objetivos; e, por conseguinte, a relativização de tudo o que é nobre, virtuoso e admirável. Ora, qual o propósito deste espírito apequenado, senão o de impedir a descoberta do ímpeto heroico ou superior que, se anunciado, o julgaria terminantemente? O que daí surge como um advento da indiferença e do ímpeto democrático é a ‘mediocracia’.

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Por ‘mediocracia’ se compreende toda e qualquer forma de poder, não exclusivamente restrito à deliberação político-institucional, mas perpassável na relação simbólica da autorrepresentação coletiva. Deste modo, a ‘mediocracia’ é o conjunto de práticas (desde o discurso até a ação cotidiana) que tende a acomodar a diferença e a individualidade; aclimatando anseios pessoais à banalidade da impessoalidade medíocre com acirrado grau de indiferença.

 

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Quando institucionalizada, ou seja, quando triunfante no espaço público, seu discurso tende à ‘reformulação semântica’, almejando assim a substituição de tudo o que remete ao indivíduo (liberdade, vida pessoal, bondade, personalidade) por constructos sociais inapreensíveis (classe trabalhadora, opressores, oprimidos, patriarcado, intelectual coletivo). Por característica, a reformulação semântica é o esvaziamento de tudo o que há de grandioso na comunicação humana, preferindo datar termos e expressões para, de posse da suposta novidade, sobrepor – via verossimilhança – o coletivo ao indivíduo. Portanto, seu propósito é o de domesticar pela imbecilização: constatável a partir dos padrões linguísticos recorrentemente utilizados, bem como pelo índice de vitimização.

 

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Se no âmbito discursivo, a linguagem medíocre apresenta-se via ‘reformulação semântica’, que reconstrói a comunicação para se ajustar ao anseio de indiferença e quebra de padrões hierárquicos, no âmbito prático seu empenho é o da ‘mediocridade confortável. ’ Quanto a essa, seu apanágio é a ocupação do espaço público, sobretudo, em instâncias que, de posse da reformulação semântica, estão aptas à reprodução ad nauseam. Portanto, ao se conjugar: a reformulação semântica e a mediocridade confortável, o que se tem é a ininterrupta atuação em zonas de produção de ideias, sejam intelectuais, estéticas, sejam políticas. Sua vigência, e inexpressiva oposição, determina a permanência tirânica da mediocracia, cuja indiferença mortifica tudo o que é humanamente grandioso, exemplar e notável ao longo das eras.

 

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Por oportuno, a partir de seu lugar de destaque, o melhor meio de fomentar ou promover indiscriminadamente a reformulação semântica é por meio da ocupação da vida intelectual, esvaziando-a de qualquer sentido possível de descoberta pessoal (aqui é descredenciado o exame de consciência e a meditação) para substituí-la por clamores coletivistas (engajamento, militância, vanguardismo estético, paganismo e demonismo institucionalizados).

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Para consumar tal reformulação semântica, o exercício teórico ou intelectual tende a ocupar as redações dos jornais, as Universidades, as escolas, as editoras, as agências de pesquisa, ou seja, lugares reservados à construção do conhecimento, cuja finalidade última seria a problematização da própria mediocridade, quase inapreensível por que sutil e renovável.

Decerto, a dificuldade em combatê-la se deve, sobretudo, à sua sutileza, continuamente renovada por meio da reformulação semântica que, ao esvaziar o sentido natural da comunicação em nome da indiferença coletiva, a compreensão pessoal tende a se dissolver perante: especialistas, doutrinadores, psiquiatras e autoridades coletivamente representadas. Todos esses, de um modo ou de outro, vêm a público para defender a crise da família, o esfacelamento e desesperança da condição humana, a compreensão relativista sobre povos e culturas; a perda do sentido espiritual da vida e da morte (…). Logo, a demorada apreensão interior é obstaculizada, por que dependente do olhar indiferente desses teóricos. Dos obstáculos que surgem da busca pessoal nos desencontros da mediocracia, e que parece insuperável a partir da sensação individual de clamor no deserto, toda resistência tende à aclimatação e posterior estado de comodidade, alcançável no horizonte de uma satisfação decisivamente realizada. Quando efetiva, o espírito acomodado tende à preservação daquilo que conquistou, acercando-se de uma autojustificada ‘mediocridade confortável’, constatável a partir da dificuldade superada, e consequente animosidade a tudo o que tende a conflitar adversamente como antes. Deste modo, a mediocridade confortável é tanto indiferente, quanto impassível à superioridade, preferindo a permanência de onde se está com aquilo que se alcançou. Entretanto, quando triunfante, o único meio de renunciá-la é promovendo a busca ininterrupta, destacável na experiência humana com o sagrado, ou com a experiência ética e estética. No tocante a essa busca, toda sua grandeza parte da vida fática: árdua e atribulada, mas que enseja à renovação de si mesmo, à clausura interior e à reorientação pessoal devotada aos que estão próximos, de sorte que seu anseio é real, jamais abstrato.

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Se em seu sentido metafórico, o regime mediocrático favorece a institucionalização da cegueira – voltada à ausência de padrões hierárquicos, sua conservação triunfal se dá por meio da atualização discursiva da reformulação semântica atuante na ordem prático-cotidiana por meio da mediocridade confortável. Desse modo, todo beneficiado tende a preservá-la e a reproduzi-la, em um crescendo que vai da linguagem às ações. Estando cego à superioridade, seu propósito é a permanência benevolente da mediocridade. Neste ciclo, tudo permanece como está, ainda que se modifique, porquanto, para além da descoberta individual tudo seja incorrigivelmente medíocre.

 

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Por fim, tudo o que acomoda tende à mediocridade, superável apenas pela capacidade de renunciar sua comodidade inquestionável e ajustar a vida desde um padrão mínimo de superioridade: imediatamente inalcançável, porém admirável enquanto busca. Fazendo-o, o indivíduo alcança um plano em que as coisas são tomadas por seu grau de exclusividade, jamais por sua aclimatação mediocrizada indiferente. Nesse plano, o indivíduo ajusta-se consigo mesmo, vendo por sobre a terra de cegos, lugar amesquinhado onde quem tem um olho (ante)vê.

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2 comentários sobre “Notas sobre a mediocridade

  1. Que excelente texto, sim estou um pouco atrasado em relação à data de publicação (=P), no entanto seu conteúdo é atemporal! Discutir sobre a mediocridade sempre é algo interessante, me sinto colocado no meu lugar, sinto a importância de não deixar que arrogância toque meu caráter e sobretudo a possibilidade de sempre ser alguém melhor do que fui ontem.. É isso que considero nobreza em uma pessoa.

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