Por Ivan Pessoa

Quem é ela? Com essas palavras uma pequena criança interrompe a atenção de sua mãe, às voltas com o atraso do trem.

O metrô, que baldeava todos os bairros, indo do centro à periferia, estava há algumas horas atrasado. Por toda a estação, crianças e velhos se acomodavam. Enquanto outros, mais acalorados, manifestavam politicamente a necessidade de descarrilhar os trilhos, em um tom fervoroso de enfrentamento. Por um descuido qualquer, advindo, com efeito, do trabalho fatigante daquele dia, uma senhora cochilou, deixando escorrer de suas mãos, todos os seus documentos. Papéis se amontoaram despercebidos, abaixo dos olhos dos presentes, que discutiam quais medidas seriam tomadas caso o atraso continuasse. Dentro da bolsa, no abrigo dos trilhos já enferrujados, permanecia intocada uma dezena de cálidas confidências.

Por entre todos, permanecia aquela sensação exaustiva de um longo dia, e a adiável chegada do trem, que provavelmente, acometido de algum infortúnio, se atrasara à pontualidade de longos anos. O que teria acontecido de repente, se nunca antes, algo do tipo fora visto? Eis as palavras que foram murmuradas pelos inquietos presentes, que sucessivamente iam se agregando à multidão que por ali se formava. Entretanto, algo chamava a atenção. Uma criança, indiferente ao desenrolar da embaraçosa situação, desassossegava a atenção de sua mãe, em uma tentativa de lhe dizer algumas palavras: – Mãe, por favor, diga-me quem é ela? Às voltas com a resolução a ser dada, passadas as ininterruptas horas do trem em seu atraso, a mãe concentrava o foco no discurso dos revoltosos: – Gente, vejam só, precisamos nos organizar. Estamos aqui há mais de três horas, e ninguém desta estação se prontificou em nos ajudar. Só nos resta uma única coisa a fazer e vocês bem sabem. Não temos tempo a perder.

Se pondo a interromper as palavras do mais exaltado dos presentes, um senhor – que se apoiava em uma bengala já corroída pela ação do tempo – lançou aos ares uma inesperada descoberta: – Pessoal, por que fecharam os portões? Meu Deus, estamos todos presos. E agora? Socorro! À certeza de que, de fato estavam acossados nos confins daquela estação, gritos desesperados se entrechocaram com os desencontros dos cativos. Cadeados foram transpostos nas vias de acesso, de forma que algo inusitado estaria por vir. O que está acontecendo aqui, afinal? Gritava sem se fazer ouvir, um mendigo que tomado de um inédito desespero, sorveu de súbito sua aguardente. Frustrada em seus esforços, uma grávida desmaiou. Ao lado, um surto de claustrofobia acometeu um homem, levando-o à sensação inquieta do suor por entre os poros.

Lá fora, nada se fazia ouvir, nem mesmo as insinuações do trem que se atrasara. Entretanto, havia entre eles algo que contrariava toda sorte de dissabor: – Mãe, por favor, ouça. Diga-me logo, quem é ela? Preocupada com uma possível desidratação da filha, a mãe se pôs a enxugar a criança, e lhe deu um copo com água, já morna em função do calor que indispunha a estação: – Tomei tudo, agora me conte. Quem é ela? Em um esforço de mostrar à filha, que aquilo de fato não era tão desesperador quanto poderiam supor, em um tom de insuspeita naturalidade, a mãe replicou: – Ela quem, filha? Inesperadamente uma confusão se interpôs entre os presentes, de modo que entre cotoveladas, toda revolta se canalizara. Os mais exaltados – tomados pela comoção da desconfortável situação – prontamente espancavam-se uns aos outros, tais os efeitos de um inesperado atraso.

Aos gritos de: somos todos animais, um senhor foi arremessado sobre os trilhos, vindo a falecer com o impacto. Na tentativa de acomodar sua filha contra o estardalhaço, a mãe não pode acreditar: a garota havia desaparecido, não restando outra coisa senão o copo, escorrido, entre seus pés. Objetos foram lançados por sobre todos. Uma banca de revista, que por ali permanecia fechada, foi contorcida até ser definitivamente destruída. Uns aos outros se esbofeteavam como se estivessem em uma batalha campal. Entretanto, algo chamava a atenção. A mãe, em uma tentativa de mirar o paradeiro de sua filha, permanecia atônita sem se dar conta do que acontecia. Seus olhos não puderam acreditar, quando viram a pequena criança a salvo. Subitamente se alvoraçou por entre a multidão, arrastando-se sofrivelmente através dos trilhos. Do outro lado, à distância da insólita situação, a criança permanecia. Segurando sua mão, uma senhora muito idosa acariciava seus dedos ainda não corrompidos. Ciente de que a filha não estava tão perto, a mãe se pôs a correr por entre os trilhos, abandonando despercebidamente seu par de sapatos. Feridos, seus pés atravessaram toda a estação, indo resgatar ao fundo, sua tão estimada criança. Como o fôlego fora se esvaindo com a apreensão de perder sua única filha, a mãe não pode agradecer de imediato àquela senhora, dando apenas ouvido a uma voz no mínimo reconfortante: – Seja bem-vinda, querida. Durante todos esses anos eu estive aqui, e, no entanto, ninguém havia me visto antes. Hoje, curiosamente recebi a visita de alguém, uma pessoa muito especial por ser criança. Parabéns pela filha! A garota, pondo-se a abraçar o corpo maltrapilho da idosa, pouco se importou com a presença angustiada de sua mãe. Quando manifestou algumas palavras, só pôde suspirar: – Minha filha (…). Como se fosse replicar um aprazível carinho, a garota respondeu: – Mãe, esta senhora me chamou a atenção. Como pode ver, ela é cega, e carrega consigo vários óculos. Veja este como é bonito. Pondo-o nas mãos enrugadas da idosa, a criança confiou-lhe ao ouvido: – Ouça: estes são seus mais novos olhos.

Ao se dar conta de que de fato a idosa trazia uma centena de óculos; alguns com lentes já desgastadas, outros desprovidos de armação, em um tom intrigado, a mãe lançou a seguinte pergunta: – Desculpe-me a indiscrição, mas, por que todos estes óculos, já que és cega? Apurando-se na direção da espinhosa pergunta, a idosa respirou fundo, e aplacou a dúvida: – Deixe eu lhe contar. Meu pai polia lentes: morreu de tanto trabalhar. Exausto, costumava chegar à noite e contar a mesma história, que durante anos se desdobrava. Eu e meus irmãos ouvíamos admirados aquela curiosa cadência. Ouçam meus filhos, ele dizia, a felicidade passa todo dia perante nossos olhos, basta saber ver. Em complemento, ele afirmava, é como um trem que passa silenciosamente, quando menos nos damos conta. Ora, durante anos a mesma história, ainda que inconclusa.

Fascinada com a extraordinariedade daquilo que escutara, a mãe perguntaria: – E quanto à cegueira, quando aplacou seus olhos? Novamente, como se quisesse sondar a profundidade daquela alma em interlocução, a idosa suspirou: – Eu fiquei cega ao longo dos anos, de tanto procurar a felicidade; ao pôr nos olhos os óculos apanhados nos monturos da cidade. Suspeito que ela seja apenas uma passagem. Fui paulatinamente perdendo a visão, pelo simples fato de querer ver efetivamente a tão anunciada felicidade. Hoje, trago comigo a quantidade de vezes que tentei ser feliz: basta ver quantos óculos me volteiam o corpo. Fiquei cega de tanto querer vê-la. Um dia eu a vejo, inteira.

Admirada, a criança chacoalhava as centenas de óculos amontoados, a contrapelo da balbúrdia que se desenrolara no outro lado da estação. Compenetrada na ladainha anunciada pela idosa, a mãe da garota lançou a mais crucial das perguntas, com um proporcional senso de inquietude: – O que é a felicidade, já que a senhora tanto a procura? O cenho intrigado, com a questão mais importante dos mortais, demostrava o quanto a senhora sondava aquela querela. Uma tímida demora logo cedeu ao desabafo daquela cega andarilha: – Os anos me são caros, por isso é que posso afirmar – ainda que jamais a tenha visto – que ser feliz é habitar-se comodamente em silêncio. Talvez seja o murmúrio de alguma coisa súbita, quiçá a lembrança de algo indefinível, com a qual nos deparamos vez ou outra, quando estamos ocupados demais para contê-la. Daí porque, sem dar por isso, o rio cheio de si mesmo, sacia a sede dos peregrinos, afinal é a lembrança incontida da chuva que passou, e pela qual jamais se esgota…

Entre lágrimas, e como que envolta em uma revelação, a mãe da garota repetiu decisivamente: – Ser feliz é habitar-se comodamente em silêncio. Desperta de suas pequenas verdades, enfim ela acordara. Discretamente, ela pediu licença para a idosa, que lhe comunicara o sentido insuspeito da felicidade, e entre soluços, esgueirou-se em um dos bancos solitários da plataforma, chorando copiosamente os prantos de toda vida. No limiar de um estado inusitado, entre o contentamento e a euforia, ela derramou-se de joelhos, encobrindo seus olhos àquilo que acontecia. Ao seu lado, sua filha perguntava: Mãe, o que aconteceu? Por que estás triste? Entretanto, como os presentes, alvoraçados por suas rebeliões, quebraram todos os cadeados, deixando para trás dezenas de feridos, os sons que se projetaram nos corredores da estação, não causaram a devida repercussão. De longe, e de um modo compassivo, eis que surgia um trem. Modesto, visto que já enferrujado, sua aparência minimizava os efeitos daquilo que se anunciava. Seus motores, já consumidos pelos anos de infatigável trabalho diuturno, atrasavam consideravelmente a tão esperada chegada. A demora era amenizada pelo fato da estação se encontrar (quase) vazia. Enquanto a criança acariciava a mãe que se danava a chorar, a idosa apurou um dos óculos no rosto, mirando na direção daquilo que lhe confiava os ouvidos. Entretanto, não pode crer naquilo que seus olhos viam. Milagrosamente os óculos escolhidos pela garota, lhe reabilitaram o foco, fazendo-a ver as cores foscas da incomunicável revelação. Um trem silencioso se aproximava, por mais que não escandalizasse sua fumaça de sons. Apoiando-se em sua bengala, e tendo acomodado todos os seus óculos nos desvãos do corpo já envelhecido, a idosa se levantou. Em uma estreita passagem, lúcidos portais se entreabriam à sua presença, fechando-se logo em seguida. Silenciosamente o trem se fora. Para trás ficara a criança e sua mãe. Entre os corredores daquela solitária estação, uma voz esbaforida ecoava: – Filha, filha, socorro! Onde está você? Não consigo vê-la. Acho que perdi parcialmente a visão. Filha, muito cuidado: a felicidade é súbita (…). E cega! Apoiando-se cuidadosamente na ponta dos pés, a pequena criança fez com que sua mãe, já desesperada, dobrasse os ouvidos de sua atenção: Mãe, sempre que eu lhe perguntava quem era ela, a senhora jamais me ouvia. Agora saiba: enquanto os olhos não puderem vê-la, em vão padecem os que esperam. Aqueles que a querem imediatamente, logo cegam. Abra os olhos, e verás…

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