Por Ivan Pessoa

§1

Ao defender a tese de que um bom livro tem uma estrutura orgânica, viva, e igualmente harmônica, jamais supus que poderia encontrá-la tão bem descrita quanto neste pensamento de Marcel Jouhandeau: “Um bom livro é feito à imagem do corpo humano. Há, neles, o lugar do coração, o umbigo, o sexo. A respiração é livre ou dificultada. Se o livro não é um corpo a ponto de ter vida, construiu-se apenas um autômato, de sorte que faça como Joubert que, ao se entediar com uma leitura, ia arrancando suas páginas não apenas para corrigi-las, mas para dali escrever sua própria obra.”

Visto de outro modo, as palavras de Jouhandeau parecem denunciar uma certeza: a atividade literária – extensiva à arte de um modo geral – espelha um grau específico de organicidade, que por sua vez insinua a legitimidade do que é apreciado. Qualquer desacordo que houver entre: o coração, o umbigo, o sexo e a respiração desse corpo estético – destacável a partir de determinadas congruências ou incongruências, decisivas à sensibilidade e à inteligência – já é sintoma de uma deficiência corrente entre os pretensos criadores: a falta de fôlego poético, ou melhor, de élan criador. Portanto, um critério mínimo para destacar o pensamento de Jouhandeau é compreendê-lo à luz do sentido de criação. Ora, o que é um artista senão um criador, aliás, um demiurgo, cujo fogo de sua obra, proporcionalmente encaminha e ilumina aquele que a procura?

Por vezes, a simples leitura de um pequeno parágrafo, quando demiúrgica, tem mais efeitos terapêuticos que um conjunto de sessões autossugestivas de um proselitismo psiquiátrico, religioso ou ideológico. Entretanto, o que determina, ou qual critério elementar para identificar tal fogo a partir daquilo que é lido? Destarte, quando uma leitura é efetivamente crucial àquele que lê? Nada é mais determinante que a capacidade de encaminhar as demais pessoas para o ciclo de tal assimilação, a partir do qual a autodescoberta sobre a própria vida é reajustada sob os auspícios do que é lido. Sob tais méritos, o propósito da leitura se notabiliza como a reabilitação do leitor consigo mesmo, convocando-o para uma comunidade interpessoal maior que sua simples relação humana cotidiana, capaz de ajustar desde o presente, todas os anseios, êxitos e conflitos sob os desígnios de encaminhamentos há muito vivenciados por leitores em uma circunstância passada. Tal comunhão com esses ensinamentos, vivenciáveis eras afora, é fonte de autocompreensão e sabedoria, o que encaminha aquele que lê a um plano transcendente aos limites espaço-temporais.

Desse modo, a leitura demiúrgica – orgânica e pulsante – é aquela que se renova à proporção que as sucessivas gerações a leem sem jamais esgotá-la, fundando a partir do alcance de cada leitor, o universo inesgotável da expressividade, da comunicação humana e respectivo senso de realidade. De longe, e ciente de seus inesgotáveis desdobramentos, Paul Claudel escreveu sobre a obra demiúrgica de Homero: “não foram as palavras que fizeram a Odisseia, mas o oposto.” Por conseguinte, o critério para destacar as obras demiúrgicas – pulsantes em seu fluxo intérmino do coração, umbigo, sexo e respiração – é proporcional tanto aos efeitos sobre os leitores do passado (permanentes como uma comunidade de almas que abalizam a eficácia das grandes obras em circunstâncias imediatamente anteriores, testemunháveis a partir de seus relatos impressos em diários, gestos, ações e outros livros), quanto sob o grau de organicidade que envolve os leitores no presente e no futuro, de sorte que ambos são tomados como eventuais cultores para a sobrevida do que é lido. Ademais, o corpo de um livro é renascido em fogo sempre que sua compreensão é igualmente vivenciável por um leitor, em circunstâncias inesperadas aos propósitos conscientes do respectivo autor.

Como vige à maneira de um organismo: uno, pulsante e coeso; um livro tem sua qualidade mensurada a partir de seu centro vital, à maneira de um fogo que se nutre continuamente daquilo que destrói. Ora, o que um bom livro destrói senão a ignorância, vaidade e egocentrismo de quem o lê? Quanto mais esses gestos são destruídos sob as páginas de um livro, maior o fogo de sua conservação. Desse fogo, a obra se nutre. Ademais, a grande obra – por evocar o fogo da criação – é aquela que ‘ao mudar, repousa‘. (Heráclito) O que determina seu êxito ou fracasso é a extensão desse centro ígneo: longo ou breve – o que nos faz recordar a palavra grega ‘tonos‘ (fio, filamento, prolongamento).  Quando grandiosa, uma obra se estende, tonificante, sem jamais se esgotar no decurso das eras, com efeito, se renova na partilha infinda de seus curiosos leitores, no fulgor e na acolhida de suas palavras. Do mesmo modo, seu pulso tônico se mensura pelo nível de participação que arremete seus leitores à tensão entre a realidade e a autoconsciência, exigindo-lhe o ritmo de uma respiração: viva e pulsante. Portanto, aguçar a consciência para concentrar atenção sobre seus próprios atos, dando-lhe condições de compreender a estrutura da realidade a qual participa – desde si mesmo -, eis o sentido tônico ou orgânico da leitura: constante como um fluxo respiratório e seu excesso de vitalidade integral com respectiva: auto-ponderação.

Como a literatura é uma imitação das expressões humanas mais primordiais, por vezes, se credita sua existência à tentativa de ritmar a pulsação física da dança, o que determina sua cadência intrínseca e seu fôlego. Sob o ritmo desse pulso é que se mensura o tonos de uma obra, grandiosa desde que amplie o centro de participação de quem lê, face a realidade interior e sua circunvizinhança exterior.

Como o critério de Jouhandeau aqui se justifica inteiramente, nada mais justo que remetê-lo aos primórdios de sua intenção. A propósito, Quintiliano sustentava que uma frase, além de expressar o tonos de uma ideia (fiável a partir de seu centro pulsante), devia poder igualmente ser pronunciada de um só fôlego: firme e entusiasmante, ao modo de quem incandesce a noite destemidamente até conhecê-la.

A despeito de ter ou não consciência do método de Quintiliano, o hábito de Joubert de arrancar as páginas dos livros que o entendiavam – como nos faz crer Jouhandeau – decerto conserva o senso criterioso da leitura de uma grande obra: a capacidade de lê-la passo a passo em um só fôlego e em chamas – inquieto e entusiasmado – ajustando o fluxo respiratório à natureza do que é lido. Em cada página, tal fogo insinua uma pergunta: ‘qual a contribuição efetiva deste livro sobre a minha pessoa?’ Quando evasiva, arrancar página a página, é a medida da devida correção, o que exige escrever a própria obra em contraponto.

Entretanto, antes que o fogo se apague à lembrança da nova geração de literatos: dentre seus inúmeros autores (poetas, romancistas, dramaturgos e incendiários vanguardistas) nem mesmo arrancar as páginas bastaria.

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