Escrevo para ser fiel ao menino que fui.” (George Bernanos)

Por Ivan Pessoa

§1

O prazer em escrever é antes um prazer silencioso e tátil, similar em tudo às fabulações e rasuras da primeira infância, sobretudo, aquela mais solitária; de onde a encantada descoberta do mundo – como linguagem – é assimilada paulatinamente como um código secreto, livre o suficiente para ser reescrito por aquele que o domina. Partilhar este código, fruto da cultura a partir da qual se está alocado, é comunicar um sentido público acerca das coisas, favorecendo assim – quando efetivamente compreendido – a aguçada liberdade imaginativa. Dominá-lo, e posteriormente condensá-lo por meio da escrita, é tanto a manifesta e decisiva compreensão daquele código, como a descoberta imaginária sobre o mundo que, via liberdade expressiva, passa a ser diferentemente encantado àqueles que conservam o hábito de escrever desde a infância. Por fazê-lo, é que a criança se assenhora de sua imaginação, aprimorando-a vida afora. Conservar tal hábito, até a vida adulta, é candidatar aquela criança, tanto às vicissitudes da escrita literária, como aos ecos solitários da primeira infância, afinal o processo de escrita e consequente leitura, é dependente da recepção cultural de determinadas épocas; o que enclausura o escritor infantilmente ao silêncio de seus próprios rabiscos. Daí seu traço mais característico e resistente; rastreável igualmente na vida dos grandes autores como um resíduo remissivo à infância, com efeito, nada é mais alusivo à pureza e ao rabisco do que a arte de escrever. Entretanto, como é um impulso intelectual que cresce incontrolavelmente, a escrita é um fenômeno tanto biográfico – determinado pela criança permanente do autor – quanto pelas vicissitudes de seu tempo histórico. Portanto, é a tensão entre a pureza interior e a exigência mundana. Quando tal tensão se torna intensa, ou melhor, historicamente decisiva, uma pergunta se insinua nas entrelinhas dos grandes autores; uma pergunta não menos infantil:       – escrever, para quem?

§2

Durante boa parte da vida, mais especificamente no decurso de trinta anos silenciosos e angustiados, Proust amargou o peso desta pergunta, igualmente partilhada por outros autores: ‘Por que e para quem escrever?’ Adoentado e, sobretudo, desmoralizado por seu ímpeto pessoal, o francês só veria a consagração de sua obra, dois anos antes de morrer; ao ser agraciado com o Prêmio Goncourt em 1919, pelo Segundo Volume de ‘Em busca do tempo perdido’: ‘À sombra das moças em flor.’ De certa feita, toda a atividade literária de Proust – extensiva igualmente aos outros grandes escritores – sendo um resíduo da infância, não teria outro propósito senão a fidelidade à pureza de outrora; ao encanto de quem descobre o mundo pela primeira vez. Aliás, saber lidar com isso é – desde há muito –  o propósito mesmo da escrita; encantadora por que lúdica e silenciosa face à vida adulta. Tornando-se posteriormente um lugar comum na história da literatura, a própria motivação de Proust em escrever ‘Em busca do tempo perdido’, já denuncia o fundo mitológico da infância dentro das inquietações adultas de um autor. Conta-se que, certa vez, ao levar à boca um pedaço de madeleine molhado em chá da Índia, o escritor teria sentido subitamente recordações sinestéticas da infância, sobretudo, do hábito de sua tia ao fazê-lo.

Na mesma ordem da fixação primária da infância, conta-nos o ensaísta Pierre Beyssade que, durante certa noite argelina, Albert Camus teria presenciado um fato tão horripilante quanto inesquecível. Naquela noite angustiada, um árabe surgiria imprevisivelmente, lançando-se sobre sua mãe até brutalizá-la violentamente. Ao chegar em casa, voltando da escola, Camus encontraria um forte odor de vinagre e um médico no quarto de sua mãe. Deitando-se ao lado dela, passou boa parte da noite insone; vindo a escrever posteriormente – ao modo de uma catarse (…). Até: “os bondes da meia noite drenarem, ao afastar-se, toda a esperança que nos vem dos homens, todas as certezas que nos dá o rumor das cidades. A casa ressoava à sua passagem, mas, aos poucos, tudo se extinguia. Restava apenas um grande jardim de silêncio, de onde subiam, por vezes, os gemidos amedrontados da doente.” Lido novamente, este jardim de silêncio – o qual Camus se refere – é o espaço interior da escrita. Visitá-lo, custa toda uma existência, sobretudo para o escritor que amadurece e seus leitores ocasionais, mas é uma das vias ideais para alentar sonhos e esperanças em um mundo em ruínas. Portanto, quando dilapidado – tal jardim da imaginação sucumbe à pobreza das experiências humanas, aprisionada entre a finitude e a desesperança. Aliás, basta a alma de criança perecer dentro de um homem, para que seus efeitos traumatizem inesperadamente o adulto. Por conseguinte, o mesmo vale para a humanidade.

§3

No jardim desta infância rememorável, símbolo espacial da própria escrita, cada autor pressente os ecos daqueles ‘gemidos amedrontados‘ como a descoberta primeira do mundo com suas decepções, fracassos, êxitos e contentamentos. Por certo, o que leva alguém a escrever é exatamente a visitação àquele jardim de ecos e gemidos primários, tencionado entre a criatividade e o espanto; entre a pureza e a descoberta. Em determinados períodos da história, com efeito, durante os mais assombrados: escrever é tudo o que resta, afinal favorece uma extensão esperançosa para aquele que escreve, seja para purgar seu sofrimento pessoal, seja para incitar esperanças, sobretudo, por fomentar a possibilidade de comunicação e compreensão mútua entre eventuais falantes. Ademais, essa é a fonte primária da escrita, similar à esperança de uma criança perante o seu ‘amigo imaginário‘. Para um autor, um único leitor representa tal amigo.

Como uma criança em seu jardim de infância, empenhada em alternar: divertimento e criação lúdica, Balzac costumava escrever vestido num hábito dominicano; à luz de lâmpada – em pleno dia – ficando, por vezes, três dias sem se alimentar. Não seria isso o rumor de uma alegria infantil, que vibra criativamente sem jamais se censurar? Com a pureza de uma criança, no prólogo de ‘O som e a fúria‘, William Faulkner confessou incorrigivelmente: “Escrevi este livro e aprendi a ler.” Como se aprende a ler senão desdobrando a leitura em fragmentos de escrita, ou seja, ressignificando-a como uma aventura infantil por entre jardins de encantamentos?

Neste processo, cabe a espontaneidade de Henri Troyat ao confessar – ao modo de um garoto – a descoberta encantada da natureza física e sonora das palavras: “Escrevo à mão, penosamente. Rasuro muito. Faço muitos rascunhos. Seria incapaz de escrever diretamente à máquina, porque há uma espécie de prazer físico em traçar as letras, ao qual sou muito sensível.”  Portanto, é nos ciclos rasurantes da infância, que a humanidade – dependente do grau e do fôlego da imaginação – forja seus escritores e seus níveis expansivos de experiências alentadoras. A partir dessas experiências, a mesma humanidade (representada pelo conjunto dos homens, viventes de determinadas situações fáticas ou reais) cria suas linhas de fuga, aliás, seus níveis expressivos de esperança a partir da qual a vida torna-se minimamente inteligível e suportável. Amontoando-os: Proust, Camus, Balzac, Faulkner e Troyat, cada nome evoca um nível de revigorado contentamento, vivenciável em circunstâncias tanto pessoais, como superiormente históricas. Quando desmerecidos, e imediatamente contrapostos pela nulidade da vida tecnológica, os efeitos são tão inesperados quanto decisivos, afinal a pobreza da imaginação embota o entendimento e consequente comunicação interpessoal. 

Haveria algo mais infantil e espontâneo que rasurar, rabiscar e hesitar caligraficamente qual palavra a seguir? À mão ou à maquina, qual arte e qual expressão estética – diferentemente da escrita – poderia dar suporte a uma confissão, ou mesmo à uma mensagem secreta, decerto uma revelação, seja em períodos de paz, seja em períodos convulsivos? Como jogos de descobrir segredos, a escrita é uma construção infante, partilhável – com relativa surpresa e encanto – por pares igualmente ansiosos por descobertas; em um jardim imaginário que assenta convidativamente as palavras do autor aos olhos de quem lê. O diálogo e o entendimento entre ambos é o anúncio de uma redenção. Fazê-lo é tanto acercar-se de um amigo imaginário ou interlocutor, quanto revigorar-se pleno de esperança. Daí as palavras de Hervé Bazin: “Escrevo para que saibas que tu não estás só.” 

Quanto à esta arte sinuosa e criativa, tal qual o jardim de caminhos que se bifurcam na relação amistosa entre a inteligência e a descoberta, Anna Akhmátova acrescentou à atividade literária, um recurso velado e igualmente criptográfico, utilizado desde Pushkin, chamado: ‘tanopis‘, algo como ‘linguagem secreta‘ em russo. Doravante, ‘tanopis‘ poderia ser igualmente o recurso à imaginação, assegurado em períodos históricos tenebrosos, cuja esperança seria a partilha intelectual entre aqueles que escrevem e aqueles que leem, alentado por um jardim imaginário que se renova sobre a fé infantil da compreensão de uma mensagem redentora. Portanto, em tempos sombrios, o recurso velado à escrita é uma necessidade humana. Naqueles anos de terror na União Soviética stalinista, chamados por Akhmátova de: ‘Anos Vegetarianos‘, sobretudo, pela penúria generalizada e a recusa à livre comunicação, escrever era um risco de vida, compensado apenas com o recurso à inteligência e às mensagens literárias; decodificáveis por leitores de sólida formação que, como crianças, esperavam derrubar o regime com o usufruto das palavras. Dizem, inclusive, que seu poema mais emblemático, ‘Profecia‘, continua indecifrado para alguns; enquanto outros, sobretudo, os russos de seu período, deduziram a partir dali o sentido integral do terror e consequente reclame à liberdade.  Ora, não seria isso a escrita; um salto infantilizado à plena liberdade, plausível desde que partilhável entre outras eventuais esperanças infantis?  

Ainda hoje, nos idos desse anos vegetarianos, proporcionalmente pobre em experiência e rico em tecnologia, qual a criança leitora que, sem ser censurada pelas demais já conectadas em seus aparelhos eletrônicos, ainda se recolhe em seu jardim silencioso, para desdobrar – por vias imaginárias – a possibilidade dos eventos humanos, bem como pressentir a existência insuspeita do Mal, confrontado criativamente pela palavra russa: ‘tanopis‘? Por jamais pressenti-la, ou surpreendê-la, é que a comunicação escasseia e o jardim deserta, em um curso gradual que sugere o pleno esfacelamento da relação interpessoal, com consequente pobreza de experiências objetivamente grandiosas e sua degradação espiritual. Ademais, no solo angustiado daquilo que outrora fora o jardim da imaginação – há muito o símbolo espacial da escrita e da conservação dos saltos das aquisições civilizacionais; e contrariados pelos passos infantis paulatinamente abandonados em nome de uma vida adulta antecipada, ouso profetizar – à maneira de Akhmátova:

o que está por vir; na insinuante presença das novas gerações ainda infantilizadas, como um deserto desesperançado de proporções apocalípticas, escandalizaria – com um recuo à imaginação – até a criança cruel abrigada no último Stálin. Conta-se inclusive que o ditador georgiano, quando criança, era chamado pela família de ‘Soso’, sendo posteriormente rebatizado como ‘Koba’; codinome que o marcaria na história da Revolução Russa. Ora, por que ‘Koba’? Como era um leitor ávido ou inveterado, cuja adesão ao ateísmo se dera imediatamente no seu primeiro ano de estudo no seminário – após ter lido Marx, Stálin adotou o codinome após ter se inspirado no herói de um romance da Geórgia sobre criminosos do Cáucaso, o que prova seu hábito de leitura. Portanto, se outrora, até os ditadores eram crianças e visitavam as dependências daquele jardim silencioso para dali buscar caminhos a seguir, o que se pode esperar das crianças nascentes que jamais lerão Balzac, Proust, Faulkner, Camus, Troyat ou Bazin? Cada geração escreve a história desde a infância. Entretanto, em determinados períodos, uma pergunta silencia precocemente: – escrever, para quem? 

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