Cantar é Ser (…).
Cantar é um outro alento.”

(Rilke, Sonetos a Orfeu – I,3)

Por Ivan Pessoa


§1

Duas coisas precisam ser ditas, de sorte que são complementares. Primeiro: em 1965, assim escreveria W.H.Auden em ‘About the house‘: “Tudo o que bom é/ nos deixa a buscar mais.” Segundo: passados uns anos, mais precisamente em 1988, em alusão ao hábito de roubar livros quando tinha-os ao alcance – a escritora de Antígua, Jamaica Kincaid -, justificava assim tal prática: “Depois de ler um livro, eu não conseguiria ir embora sem ele.” (‘A small place’, 1988).


§2


Um dia, ao folhear uma revista – cuja menção acidental em rodapé destacava o nome de Orides Fontela e um de seus versos, deleguei a mim mesmo uma certeza: ” – Preciso levar isso comigo vida afora.” O que li naquela ocasião, na marginália de uma revista por mim já esquecida, era: “Nunca amar o que não vibra/ nunca crer no que não canta.” (‘Teia‘, 1996). Confesso que hesitei entre aquelas palavras: ‘ – como roubá-las?’ Entretanto, eis que, não por força de um artifício de usurpação – como quem recortasse o papel daquele ritmo impresso – as escutei posteriormente de súbito, anunciando o fulgor daquela música. Sobressaltado e tomado de tamanho encanto, vi que cada pássaro que canta – sibila em sílaba aquele verso: cada pássaro o anuncia. Por ora, eis o que lembro: poesia é escuta. Tudo mais é olvido.

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