Quando se procura escrever bem, o resultado é desastroso. Só nos deveria interessar um espetáculo interior.” (Paul Léautaud em carta a Valéry, 1902).

Por Ivan Pessoa

§1

Um grande artista, no mais das vezes, sempre sofre circunstancialmente um misto de aceitação e recusa. A vida – levada com relativa penúria, agrava o incômodo da indiferente acolhida; fenômeno que reservaria ao escritor Paul Léautaud, um auto-exílio entre livros e animais de estimação. Na obra – resultado de um conjunto de entrevistas radiofônicas: ‘Entretiens avec Robert Mallet‘ destaca-se a seguinte auto-confissão da mísera vida de Léautaud, celebrizado pela ideia de preferir – como Schopenhauer – os bichos aos homens: “Possuí pelo menos trezentos gatos e cento e cinquenta cachorros. Morreram todos de morte natural em minha casa; e estão todos enterrados no jardim.” Logo após seu falecimento, se pode constatar que, em seu degredo de mais de 50 anos em Fontenoy-aux-Roses, o escritor deixou enterrado em seu cemitério-zoológico: 130 gatos, 26 cachorros, 1 cabra, 1 macaco e 1 corvo, consumando assim aquilo que ele chamava de: “minha família.”  A propósito, tal vínculo fraternal entre feras, o faria escrever em dedicatória no livro – ‘Chroniques de Maurice Boissard‘: “Aos meus gatos, aos meus cachorros, à memória daqueles meus camaradas que me deixaram, estas crônicas que foram escritas em suas companhias, para mim a melhor de todas.

Por ora, qual a razão de preferir os bichos aos homens? Dentre os inúmeros motivos para seu infortúnio de toda vida, quiçá, a recorrência à indiferença reativa, levaria Léautaud a uma solidão consubstanciada entre a leitura e o silêncio animal, decerto sua mais espontânea redenção. De um extremo que surge desde Proust que, em carta a Léo Larguier escreveria: “li um livro de Léautaud, intitulado ‘Amours’, e se você não acha que é a coisa mais atroz, mais imbecil que existe, um de nós ficou louco” – até o artigo de Rachilde logo após a publicação de ‘Le Petit Ami‘: “Não é filho da puta quem quer“, a reserva – em relação à sua obra – daria ensejo a um maior nível de meditação, aguçando assim aquilo que D’Annunzio destacou como a excelência dos grandes estetas; forjados à luz de um: ‘hino sem voz.’ Aliás, pela ubiquidade consoladora do silêncio. Portanto, é no horizonte dessa nobreza de quem se levanta por sobre a reativa indiferença, assomando-se perante a penúria do espírito, é que o legado de Léautaud se sustenta, destacado, inclusive, por seu epígono Jean Dutourd. Em seu ‘Petit Journal‘, Dutourd prestou deferência ao seu mestre nos seguintes termos: “Cada uma de suas frases, mesmo mal-acabadas, é uma lição de estilo. (…). Todos os escritores deveriam ler Léautaud. Aprenderiam, então, que de nada vale ser profundo ou inteligente, de ‘vibrar com os grandes problemas’, de ‘pensar sobre o homem’, etc. Basta ter talento.” Em sua própria etimologia: talento, do grego antigo: ‘talanton‘ como balança ou medida, já dá a razão de seu sentido intrínseco, ou seja, como um grau objetivamente mensurável daquilo que tem valor. Que o destaque anterior àquele nível valorativo é o maior motivo da indiferença contra um grande artista; consequência da recusa impingida por reativas personalidades zoológicas, se conclui que nada é mais imperdoável que a notoriedade do talento. Portanto, para estar entre feras, e docilizá-las – ao recusado, implica a escuta e a resistência; recorrível no hino sem voz: ‘eu tenho talento.’ Em outras palavras: ‘Mensuro silenciosamente meu próprio valor.’

§2

No horizonte tencionado entre aceitação e recusa, a necessidade de conhecer o próprio talento, ou seja, seu próprio valor – ainda que seja como um esboço rudimentar – é a sobrevida reservada heroicamente a um grande artista. Ademais, tal certeza interior é destacável, por exemplo, no caso Émile Zola que, certa vez, segundo o jornalista Georges Reyer: “Apresentou-se ao editor Hetzel. ‘Três editores recusaram meu manuscrito’, queixou-se, desgostoso; ‘eles não têm faro, porque eu tenho talento.’ Tanta firmeza surpreendeu Hetzel que lhe pediu tais originais manuscritos. O livro em questão chamava-se: ‘Contes à Ninon.’ Com então 24 anos, Zola – autoconsciente de seu próprio talento – escreveu que aquela obra inaugural era, sobretudo, um longo estudo sobre ‘os temperamentos; com personagens denominadas pelo sangue e pelos nervos, verdadeiras bestas humanas.’ A partir daquele esboço de aguçado talento primário, Zola encontraria as vias psicológicas e estilísticas rumo à sua obra-prima: ‘Germinal‘. Portanto, nada é mais expressivo para um esteta nascente que a medida autoconsciente de seu próprio talento, autodeclarada pacientemente como uma resistência contra as bestas humanas e seus tropéis – em coletivos atômicos de insensibilidade.

Um artista que verdadeiramente se conhece e acredita em si mesmo, prefere a renovada descoberta interior ao tom evasivo e professoral de grupos, sobretudo, ao coletivo cômodo dos críticos – ridicularizados por T.S.Eliot como: ‘espremedores de limão‘. Quando ressentida do talento alheio, até a crítica torna-se insensível, similar ao caso Sainte-Beuve, que denunciou a ausência de gênio em Balzac, bem como tomou Stendhal por palhaço. Vale considerar que, como um invejoso comum, Beuve era um poeta frustrado, daí a razão de seu labor crítico. Em tal contexto, o talento  – enquanto valor – é uma moeda atemporal; creditável interiormente por aqueles que o possuem. Nesse caso, extensível à vida total, escreveu Sertillanges: “A inveja é o imposto de renda da glória.” 

Destarte, conhecer a si mesmo e descobrir-se, são instantes supremos para aquilo que definitivamente interessa para o homem de intelecto; algo como um pressuposto à vida espiritual. Um homem bem-sucedido (em todos os sentidos possíveis) sabe e dimensiona mais o limite de seus próprios talentos, do que qualquer crítico apressado poderia supor, de modo que reforço exemplarmente Paul Léautaud; alguém que – ainda que vivendo em estado de quase mendicância – conciliava grandeza de espírito, gratidão e inteligência, atestáveis não apenas pelos grandes intelectuais da época e pessoas da lida cotidiana, mas igualmente por obras de refinada verve poética. Além do que, a contrariada esperança utópica em nome dos homens, e a acolhida à espontaneidade dos animais, distanciá-lo-ia de qualquer anseio de perfectibilidade – anseio que segundo Anthony Quinton é razão de todo e qualquer impulso violentamente revolucionário ou redentor; encontrável, por exemplo, em todo espírito voluntariosamente crítico, empenhado em reparar erros e equívocos de toda sorte. Portanto, eis a razão de todo ressentimento retoricamente tolerável por seu senso de criticidade. Em linhas gerais, todo o esforço em conhecer-se ou mesmo assumir o próprio talento – contrapondo-se solitariamente aos padrões medianamente críticos; sustentados por aqueles que se  ressentem de sua modestíssima condição, sem jamais denunciá-la – perpassa a coragem de renovar interiormente esta certeza como uma oração: “Sempre encontrei tão pouco espírito em torno de mim que acabei precisando usar o meu.” (Paul Léautaud: ‘Journal Littéraire’). Negligenciada como um impulso à autoconfiança, tal certeza, torna gradualmente cada homem – um retrato fidedigno da insegurança; custeável a partir de compreensões jamais espontâneas, mas coletivas, ou melhor, supostamente reparadoras de erros (gramaticais, políticos, ideológicos) e pretensamente críticos. No mais, a recusa à necessidade de ‘usar o próprio espírito‘, inclusive, permitindo-se aos erros e aos equívocos da caminhada humana – tão cara aos homens de grande gênio, como Léautaud –  favorece a progressiva retórica do espírito crítico (abalizável com sua plêiade de especialistas), similar em tudo aos homens insensibilizados por aquilo que Baudelaire alcunhou de zoocracia: regime tirânico impessoal, que esvazia o homem até preenchê-lo de imperceptível animalidade – desde o nível de sua sensibilidade mais passiva e espontânea – até a idiotia, destituída de algum valor superiormente excepcional. (Ver:  ha-tempo-ainda).

No livro, supostamente escrito por Tomás de Kempis – ‘A Imitação de Cristo‘, está dito: “Nunca estive entre os homens sem ter de lá regressado menos homem.” Entre feras e bestas humanas, não admira que Paul Léautaud  jamais reclamasse o talento e a autoria de tal frase. Aliás, apenas uma besta não a reclamaria. 

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