Em textos relativamente análogos, o sentimento ressentido da inveja também está presente:

  1. voyeurismo-vampiresco/;
  2. notas-sobre-a-mediocridade/;
  3. a-filosofia-e-um-outro-departamento/

Por Ivan Pessoa*

” – Aquele Cassius tem uma expressão magra e faminta. (…). Não conheço outro homem a quem deva evitar com tanta rapidez como esse minguado Cassius (…). Homens assim não ficam à vontade vendo outro homem maior do que eles, e portanto são muito perigosos.” (‘Júlio César‘, Shakespeare)

§1


Cassius, principal responsável pela conspiração que assassinaria Júlio César no Senado Romano, carregava consigo uma insatisfação tão nefasta, que sucumbia imediatamente à inveja crônica. Ao percebê-la, Júlio César concedeu o posto de primeiro pretor a Brutus. Por declinar em sua concessão, Cassius passou a alimentar um ódio mortal, leia-se: patológico, por César. Nem mesmo Calpúrnia, esposa de César que, na noite anterior à conspiração, sonharia com o corpo banhado em sangue do marido sem conseguir alcançá-lo; nem mesmo ela poderia sondar a intensidade mórbida da inveja de Cassius. Enquanto eu, passados todos esses anos, não poderia imaginar que caminhamos sobre as ruínas de Roma.

§2


Em outro plano, e em tom mais alegórico, poderia ver na sanha dos invejosos; tal qual em Cassius, a ânsia de ser aquilo que não é, ou seja, o esforço de imitação inconfessada (ver: ‘Voyeurismo vampiresco’), o que chamaríamos de desejo mimético, ao modo de René Girard. Edward Joseph Thomas (cuja obra, encaminho em anexo: https://books.google.com.br/books?id) em: ‘The life of Buddha as legend and history‘ (1952), ao relatar um antigo ensinamento budista sobre o ressentimento, depreende tal desejo mimético – no plano da natureza – da seguinte forma: “Um deus inferior, ao querer imitar o Buda, tentou criar um cavalo de corrida e, em vez disso, trouxe ao mundo o camelo.”


§3

Entre o camelo e o cavalo, como uma ‘coincidentia oppositorum‘, oscila a cópia e o original; o simulacro e sua fonte. Entre ambos descansa a inveja como o peso da não-aceitação. A propósito, conta-nos Heródoto que um dia – um rei da Capadócia; após ter recebido de seu aliado da Frígia um animal incomum, assim correspondeu à altura: ” Se me mandas um elefante, também eu vos envio um animal estranho: um filósofo.


§4

A versão moderna deste animal filósofo – simulacro do sapiente, porém corpulento elefante, e impedido de alçar voo -, desde há muito, inveja aquilo que não alcança, sobretudo, as ideias da tradição, cuja ancestralidade remonta à metafísica clássica. A tentativa de preterir esta tradição, reorganizando as ideias a partir de um anseio sistêmico, cujo esquema descritivo pretende exaurir a realidade (como em Kant e Hegel), é próprio de um estado de aguçado senso de despeito da atualidade perene da filosofia clássica. A frase ora atribuída a Alfred North Whitehead, ora atribuída a Arthur O. Lovejoy, dimensiona o peso deste elefantino ressentimento: ” A história da filosofia é uma coleção de notas-de-rodapé a Platão e Aristóteles.

No Ocidente, como diria Samuel Taylor Coleridge: ou se nasce platônico, ou aristotélico, de modo que tentar ignorá-los, ou mesmo pretender superá-los, é ceder ao ressentido niilismo. (Ver sobre a pretensa novidade: a-luz-de-caravaggio/). Deste modo, o peso da inveja filosófica é determinado pela pretensão à originalidade, como um contemporâneo que anunciasse: ‘A partir de agora, as ideias filosóficas só podem ser compreendidas, retrospectivamente, por meio das minhas impressões sobre elas.’ Por precaução, e na expectativa de arrematar imediatamente a questão, reputo Giovanni Papini em menção ao mais ‘sábio’ entre os animais racionais: “Acaso não foi por ciúme da glória de Dante esse Nietzsche infeliz, que teve inveja de Jesus, na ordem religiosa, de Sócrates, no plano filosófico, de Wagner, na esfera da música?” Não por acaso, em seu controverso ‘Ecce Homo‘, assim afirmaria Nietzsche; algo que caberia como a imagem do ressentimento filosófico: “Antes de mim, ignorava-se o que podia a língua alemã, o que pode qualquer língua.


§5

No mesmo esforço denunciado por Papini em menção a Nietzsche, Montherlant observa em seu ‘Carnets‘, o ressentimento e a crise existencial dos filósofos posteriores a Platão e Aristóteles, empenhados em construir um novo edifício filosófico: “Lucrécio traz uma concepção metafísica nova ao mundo romano, e a única que convenha a um homem de razão. Sêneca, uma arte de viver pela sabedoria, que é nova igualmente para os Romanos. Petrônio, uma arte de viver pela libertinagem graciosa, de que não tem equivalente na literatura latina. Todos os três se suicidam.” Nada é mais desesperador que a tentativa de principiar uma filosofia arbitrariamente e a despeito da tradição, com efeito, esta é a própria atualidade perene das grandes questões humanas face a realidade. Por estas alentadas razões; e tragicamente, todos os caminhos levam a Roma. Nem que seja a camelo.

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