Quanto mais avançamos na existência, mais é necessário abandonarmos.” (Jean Guitton)

Abandone tudo.” (‘Áphele pánta’) (Plotino)

Por Ivan Pessoa

* O eixo alegórico deste conto surgiu em meados de 2012, logo após a apreciação do documentário sobre o equilibrista francês Philippe Petit, em ‘Man on wire‘:

***

A vida é uma passagem entre o ponto de partida e a travessia. Embaixo, acovardados homens aguardam a queda do equilibrista que, indiferente, se sobrepõe aos olhos dos que podem ver. O que o mantém, não é outra coisa senão a leveza de si mesmo, com efeito, o que não pode se elevar, impedido está de pôr-se em equilíbrio. Um passo de cada vez. Outro passo. Um próximo suspiro, e gotas de suor lhe escorrem a face, que tombam aos pés dos que estão embaixo. Os braços abertos concentram todo o peso sobre a corda. O vento sopra levemente. Um pássaro passa por ali, mas indiferente se sobrepõe aos olhos dos que podem ver. – A travessia é uma distância, de que modo conseguirei alcançá-la? Pergunta o homem sobre o fio da corda distendida. O instante de dúvida, por um lapso, o poria em meio àqueles que lhe desejam a queda; o que lhe reabilita os esforços. Aos poucos, seus olhos concentram um voo e logo o pássaro revoa ao redor do homem. Apoiada entre duas escarpadas montanhas, a corda, levemente, tenciona ao vento que sopra. De um lado, seus olhos veem o acesso de um deserto, habitado pelos mesmos que o espreitam. Enquanto que, por outro lado, vê o manancial das águas límpidas de um rio. Entre ambos os olhos, a montanha divisa a fronteira entre dois mundos. – Nem por um segundo hesitaria ver o que deixei para trás, sussurra sem se deixar perceber, enquanto se distancia cada vez mais do ponto de partida. Nada parece lhe tirar o foco, nem mesmo um pássaro que, indiferentemente, se apoia sobre a corda por ser transposta. Tal coisa lhe exige maior cuidado, de modo que seu passo suspende-se graciosamente, um após o outro. Tendo abocanhado um pequeno inseto que vira aos pés dos que estão embaixo, o pássaro dilacera, pedaço a pedaço, a pequenez daquilo que até então rastejava.

Tu cairás, ao cair da noite, bradam aos gritos, os acovardados homens que, empenhados na circulação das pequenas coisas de baixo, não sabem dimensionar os perigos de uma travessia. – Tu cairás, logo que a noite rebentar por detrás das montanhas; uníssonas, as vozes gritam como famintos que se põem à mesa, com rictos entre os dentes. – Tu então cairás por sobre o vazio deixado por nós; gargalha a chusma impedida de contemplar o episódio mais importante dos séculos do vilarejo. A gargalhada reverbera pelas redondezas. Ecos se projetam, levando ecos de areia pelos arredores. Poeira de ecos cobre, despercebidamente, as bocas risíveis daqueles que embaixo riem, por que fazê-lo é a única possibilidade de elevação.
O pássaro, depois de saciado, desce de sobre a corda e vê dentre eles, algo incomum. Um inseto descansa por sobre a terra, aos pés daqueles que riem, mas o pássaro o indispõe à goela. Gritam-se entre eles, como o mais febril dos escárnios: – Onde queres chegar, ó tu que andas sobre uma corda? Não vês que tudo tem um fim?

O vento, levemente, traz consigo a noite cadente. A embriaguez da gargalhada leva-os para uma dança. Uma fogueira é acessa, abrasando assim a hora noturna. A lua inteiriça cresce lentamente sobre os homens que, impedidos de voar, maldizem aquilo que não podem. As chamas crescem igualmente com suas destemidas labaredas. Cálices de vinho entorpecem os olhos daqueles que não podem ver.

Pontualmente um cego, já embriagado, brada a plenos pulmões: – A única possibilidade de elevação é ainda assim uma mentira, portanto desça logo, ó tu que estás por sobre nós. Não vês que a impossibilidade de voar te faz igual a cada um de nós? O que queres provar, com tal gesto antinatural? A única diferença, se é que há, é a palavra que não pronunciamos: coragem, determinante para aquele que se arrisca por sobre as lacunas da caminhada. Agora, que a lua é alta, a noite, crucial, e ainda que não veja, te aconselho amistosamente: desça o quanto antes; não nos foi assegurada a possibilidade do equilíbrio, essa grandeza de espírito, com a qual os pássaros se aninham às montanhas. Desça logo, antes que a queda dilacere teu corpo, despedace teus sonhos.

Ainda que um resto de luz viesse da fogueira, sob a corda, o equilibrista incandescia perante seu próprio caminho, iluminando de um modo noturno os arredores do lugarejo. Um passo de cada vez. Outro passo. Um próximo suspiro, e a meta já se vislumbrava. Em silêncio o fogo se consumia; enquanto os homens, embaixo, embriagavam-se em seus próprios risos. Aos poucos, levemente o vento foi soprando, a ponto de recolher o alcance das chamas. Escurecera. Admirados, os homens viam o equilibrista a alguns passos da decidida travessia, de modo que se empenharam em indispor sua chegada. Arremessaram então, algumas palavras, levantando assim, um véu de declinações. Por sobre todos, de um modo súbito, o pássaro, que por ali se alimentava – alçou voo, tornando-se, pois, o terceiro elemento sob as estrelas, seguido da corda e do equilibrista. Como o vilarejo ficara tomado pela poeira espessa que se levantara dos pés daqueles homens, nada do que se desenrolara, poderia ser visto por aqueles olhos.

O equilibrista, estando a alguns pequenos passos da montanha grandiosa, vislumbrava discretamente a beleza de algo até então não anunciado. O denso véu de poeira que se assentava, encobria vertiginosamente a epifania de uma grande revelação. Cientes de que nada impediria a iminente redenção do equilibrista, em vias de consumá-la, aqueles que estavam abaixo dos seus pés, puseram-se enfim à vã tentativa de arremessar pedras. Como tudo o que se eleva, se sobrepõe majestosamente à distância dos incautos, nada pode indispor os esforços daquele homem: a alguns passos de alcançar o seu propósito. Acima dele, o céu equilibrava-se sobre si mesmo, e nuvens envolviam-se indistintamente. O pássaro ombreou-se ao equilibrista.

De um modo súbito, na expectativa de derrubá-lo em definitivo – os presentes, que se demoravam embaixo da corda distendida, não tiveram olhos para o inusitado, não vendo, portanto, o desenrolar da trama. Uma chuva vinha por sobre a montanha, já ultrapassada pelo equilibrista; celebrando em júbilo, o primeiro êxito de um homem que se punha sobre o desconhecido. O desaguadouro de um mistério que vinha dos céus, reorientou a ordem cotidiana daquelas pessoas, dando-lhes o sentido real de tudo o que se desenrolara. Desde aquele dia, aos olhos do vilarejo, outro não seria o sentido da vida, senão dimensionar as insinuações das coisas que vinham de cima, como estrelas no firmamento; como imorredouras manhãs. Em abandono à mesquinhez da vida sob a montanha, os aldeões partiram.
No afã de encontrar o equilibrista, seguiram suas pegadas deixadas aos pés da travessia. Perto de algum lugar encontraram uma praia desabitada e algo até então inédito. Sólidas palavras descansavam em um monolito como encaminhamentos. Um, dentre tantos, se apressou em condensá-las, cioso de ter descoberto todos os inauditos do mundo. Como apontavam as sábias palavras, deixadas pela precisão do equilibrista, os aldeões se amontoaram em pequenas jangadas e singraram os mares, à cata do desconhecido, ou seria do mais exemplar dos homens? Durante séculos procuraram o equilibrista pelos oceanos, e jamais o encontraram, no entanto, na tentativa de disseminar seus ensinamentos, suas palavras foram arremessadas aos mares, pondo-as dentro de modestas garrafas que, por sua vez, escorreram no sumidouro das águas. Agora, que os dias são outros e tudo se apressa continuamente, tenho a impressão de ter sonhado com o equilibrista, de modo que não saberia dizer por onde anda exatamente, ou se verdadeiramente existe. Sei decerto que duas coisas me inquietam uma hora dessas – um pássaro sereno que, de longe, me observa, e, por fim – a solidão, pois quando o sol nascerá novamente, passados os rumores desta longa chuva?

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