Por Ivan Pessoa

§1

Cada povo cria o que necessita, entretanto a língua é o que subjaz em meio à passagem do tempo e da decadência, determinando assim uma identidade. Neste esforço de conservar as palavras de um povo, preservando-as do degenerescente falatório cotidiano, efetiva-se a poesia – com sua musicalidade, ritmo e forma. Subjacente aos anseios espirituais de um determinado ethos, o labor poético descansa como uma concessão à fantasia, aliás, a um apelo crepuscular que os medievais – em um contexto igualmente noturno – chamariam de: ‘jus primae noctis‘, ou ‘direito à primeira noite‘. Regressar a esta noite perene – onde, ao redor de intensas fogueiras acercavam-se cantantes aldeões – eis o que cabe àquele que se entrega à poesia, concedendo à palavra o múnus de uma lei atemporal, e não menos estética. Daí a certeza de Shelley, segundo o qual, os poetas seriam os legisladores não reconhecidos pelo mundo. Entretanto, em meio à decadência de tempos hodiernos, urge uma questão: onde estão nossos autênticos legisladores, aliás, tais poetas ainda existem? Se existem, por que volteiam escandalosamente à margem?

§2

Em um mundo em que o poeta é visto como o sucedâneo do publicitário, não é de estranhar que uma pretensa palavra poética encaminhe-se a estampar camisas. Quando não, apressa-se entre corporativas concessões de generosidade, a defesa em favor dos amigos dos poetas e suas herméticas invencionices. O que esperar de um mundo em que todo artista popular é poeta, enquanto Gerardo Mello Mourão é apenas um verbete enciclopédico? Onde a língua é tomada em seu sentido mais primordial, cada expressão poética singular revitaliza-se supinamente perante todos as demais expressões desobrigadas da língua, em uma passagem que engloba o passado, o futuro, bem como a expressiva comunicação de um povo. Nesse intervalo, a língua renova-se sub specie aeternitatis, abarcando as expressões populares ao redor de um propósito cultural igualmente grandioso.

Em sua obra: ‘Il Cannocchiale Aristotelico’ (1654), conta-nos o italiano Emanuel Tesauro, que no final do século I, em Lyon, uma lei exigia que ao término de cada competição literária, os perdedores apagassem suas criações poéticas com a própria língua, de modo que não fomentassem subliteratura. Por conseguinte, é inconteste que, por cá, esta lei vigora às avessas, com efeito, a língua dos piores poetas é sempre laureada; seja nas tertúlias literárias, seja nas estampas de camisa; às custas de um provincianismo estético, no mais das vezes: bairrista e regional que não ascende à expressão poética universal.

§3

Em terras brasilis, cada esquina é ironicamente uma pletora de criações poéticas – em um extremo que vai do pichador, ao giz que rabisca o piche – aguçando a maior débâcle da língua: o falso didatismo e o farsesco popular, que põem a poesia à distância de seu verdadeiro propósito: redimir o tempo, como diria T.S.Eliot. Se não há um senso de Unidade superiormente consagrado por sua ancestralidade, sobre o qual se constrói uma língua poética em comum, ou minimamente, inteligível aos outros povos – o que sobrevém é a tagarelice sem fim dos que habitam esta Babel, advindo daí, portanto, o multifacetado regionalismo empobrecido e sua vinculação às manifestações transitórias pretensamente vanguardistas. Desse modo se decide: ou a poesia é a guardiã da língua, e daí sua expressividade universal, ou o resto é confusão; cacofonia; niilismo e tolice. Das palavras de André Gide a Julien Green, se pode deduzir um antípoda a toda sorte de pretenso regionalismo e apelo popularesco, reclamando imediatamente à poesia a sua universalidade: “Pertences a um país que não existe.”

Ora, por estar em todo lugar – como um estado de espírito analógico – o dizer poético é uma possibilidade empática à condição humana; uma suspensão da incredulidade que, ao comunicar um conjunto de experiências particularmente privadas, se torna imediatamente impessoal, ainda que atualizável subjetivamente àquele que a lê. Daí porque, perante as infaustas notícias que nos chegam do Oriente Médio, se pode sentir amargamente o choro das crianças; o peso da violência; o sangue que escorre; os canhões troantes e a poesia de Mahmoud Darwish, voz de um deserto que se nos espreita a angustiada humanidade: “Sou, sozinho, uma geração inteira.” Do outro lado do mundo – mais precisamente onde nos encontramos, nos confins de outra Palestina – uma geração inteira sucumbe à própria sorte: na marginalia da história; nas marginais da pauta; na margem – em que decaem os nossos legisladores; à margem da noturna lei de poetas inexistentes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s