Por Ivan Pessoa


§1

Nos primórdios da discussão ocidental sobre a alma e o intelecto, mais especificamente com os estudos de Aristóteles (‘De Anima’), a compreensão do estagirita acerca da captura da realidade era aquela, segundo a qual, o olho humano adaptava-se ao objeto exteriormente observado, assumindo sua forma, cor e dimensão, para informá-lo por meio dos humores visuais – às entranhas (splanchna) que, ao regular o conglomerado orgânico de pulmões, vasos sanguíneos e fígado, controlava os sentidos. Para os medievais, sobretudo, em função da leitura exegética de Filipenses 1,8 de São Paulo: ‘Deus me é testemunha da ternura que vos consagro a todos, pelo entranhado amor de Jesus Cristo‘, tal entranha (splanchna) seria o coração: a sede dos afetos (upper viscera); centro de todos os sentimentos humanos. Passados seis séculos, mais precisamente com o médico Galeno, a descrição das coisas capturadas pelos olhos, passou a ser sediada em um repositório sensorial localizado no cérebro, chamado: ‘senso comume‘ que, vinculado ao splanchna aristotélico, processava a memória, o conhecimento, as fantasias e os sonhos. Capturada pelo olho como impressão sensível, ou seja, como imagem: a realidade seria julgada pelo senso comune, transformando-se em uma faculdade específica (memória, pensamento, devaneio) sob a influência e supervisão do coração ribombante. Destarte, no processo de assimilação da realidade desde Aristóteles: o coração (splanchna) e o cérebro (senso comune) exerceriam uma função não apenas determinante, mas complementar, de sorte que a debilidade funcional do primeiro – acarretaria o comprometimento integral do segundo. Se não podes sentir, como pretendes pensar, já que pensar é abrir os olhos pela primeira vez, aproximando-se afetivamente dos objetos?

§2

Em um nível intermediário – o elemento entre o coração (splanchna) e o cérebro (senso comune), seria compreendido como o sopro (pneuma), cuja presença animaria com vida a natureza dos seres. Desde os gregos e romanos antigos, até as tribos germânicas, a crença natural da pneuma entranhada no peito dos seres vivos, aguçava um traço constitutivo aos humanos, e que os diferenciariam dos demais vegetais e animais: o pensamento – processado pelo senso comune sob orientação do splanchna -, que estaria associado à respiração, ao ritmo pulsante. Ora, entre o coração e o cérebro; dotados de naturezas complementares, o ânimo de vida seria determinado pela respiração, que seria o fluxo intercalar do pensamento: entre a luz e a sombra. Logo, neste processo de captura e compreensão da realidade circundante: um olho que observasse as coisas ao redor, remeteria suas respectivas imagens ao cérebro, que as julgariam afetivamente desde o coração. Pensá-las, ou seja, esquematizá-las em atributos, essências e particularidades; requereria o fôlego arfante e vivo, animando-as com ritmo, cadência e regularidade respiratória, cujo intervalo é determinado pela oscilação entre a unidade e a diferença: sístole e diástole. Pensar seria, portanto, alentar e dar contorno ao que descansa em sua própria forma – trazer à luz o que está em sombra, daí o sopro de vida, que restitui a diferença das coisas às suas respectivas unidades. Por extensão, como pensar acerca de algo sem entranhá-la afetivamente: vivificando-a, anulando suas propriedades acidentais, por meio do senso comune cerebral, em busca de sua unidade? (A simples descoberta de que só nos envolvemos intelectualmente com aquilo que nos entranha o coração, portanto, com aquilo que nos faz pensar, já enseja a compreensão desta antiga questão.)

§3

Se o ‘espírito visual’ cruzasse os olhos, aguçando o nervo ótico à captura da realidade, possibilitando-nos ver as coisas como que pela primeira vez, veríamos com olhos entranhados, eivados de encantamento. Veríamos com o splanchna, por intermédio do senso comune, e imediatamente pensaríamos com o fôlego vivo da pneuma, do centro do peito, determinando o ritmo barroco das coisas: em um murmúrio entre o dia e a noite. E então seríamos poetas, emulando assim a nomeação. Ao longo da tarde compreenderíamos a natureza de tudo – não de um modo acidental, e historicamente datável, mas por entre correspondências e imagens; perenemente renováveis, pois que essenciais, à maneira do poeta que pensa enquanto respira, e ao fazê-lo: en-canta primordialmente o ser das coisas, porque como diria Rainer Maria Rilke: ‘Cantar é ser’. De posse deste espírito visual, um dia D.H.Lawrence escreveu algo que poderia ser tomado como a entranha da verdadeira poesia: ‘os versículos de Walt Whitman são como a sístole a diástole de um peito poderoso. ‘ Se pensar é respirar, e pensar significa: buscar a unidade na diferença, então a poesia é a expressão deste fôlego frequentemente vivo, pois inteiramente envolvida com o ritmo primordial das coisas significadas. Sendo a expressão verbal da consciência, em seu ritmo mais cardíaco possível, a poesia é como olhar o mundo desde o princípio, como se o tempo cessasse de acontecer, anunciando-se inteiramente em um fôlego.

Da breve menção à primeira gramática do Ocidente, a de Dionísio, o Trácio, advém a certeza: ‘A poesia é um sopro.’ Deste modo, todo verdadeiro poeta é apenas um acidente impessoal, um detalhe em meio ao labor de sua verve – alguém que, ainda que não saibamos o nome, dimensionamos o peso de suas palavras pelo ritmo universal de suas entranhas (splanchna), pela leveza de seu sopro que expressa, não uma época; um passadismo; uma moda, mas o olhar primordial, alentado a partir do ritmo eterno de vida que pulsa imediatamente agora. Ou seria da sístole e da diástole deste peito poderoso, cuja vitalidade escandimos ainda, e que se nos escutássemos, silenciaríamos à descoberta de que a história do mundo é a história de cada homem, de sorte que esta vibra no pulso (?): ” Eu me planto no chão para crescer/ com a relva que eu amo: quando vocês de novo me quiserem, é só me procurarem/ debaixo das solas dos seus sapatos.” Não faria diferença se este verso fosse escrito nesta tarde, ou mesmo entre os escombros de Cartago por um poeta sem nome, cujo ritmo pulsa em cada peito. Decerto, ao abrir os olhos pela primeira vez, veremos duas coisas: as mãos acidentais de Walt Whitman, que poderiam ser as mãos do anônimo que escreve isto, e o chão que se distende ao largo. Constato, ao recobrar o fôlego desta tarde, que ambos são maiores que os pés que pisam. Se sentes o chão, ou o fôlego por entre as mãos que escreve, logo podes pensar à maneira do poeta inaugural. Sinta, aliás: respire fundo!  Acaso não serias tu o poeta?

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