Por Ivan Pessoa

***

Certa vez, em pleno Shabat (sábado judaico) em uma yeshivá chassídica – espécie de centro de estudos israelense – um rabino sentou-se bem no centro de uma mesa comprida, enquanto os presentes renovavam seus pratos e taças. Após selecionar criteriosamente cada porção de comida, e empenhado em celebrar aquela terceira refeição sabática com algumas palavras, falou:

Era uma vez um rei que tinha um único filho. Este filho não externava apreço pelo reino nem entendia o papel protocolar de um príncipe. Como característica, jamais levou nada a sério; nem mesmo a si próprio. Por comodidade, jamais pôs os pés para além do palácio, indiferente que era a tudo e a todos. Preocupado com a possibilidade daquele filho querido não cumprir as expectativas, o rei decidiu afastá-lo do palácio por uns tempos, na esperança de vê-lo merecidamente à altura daquela circunstância real. O príncipe – amarguradamente – foi enviado a uma terra distante, munido apenas com a roupa do corpo. Despreparado para o espetáculo do mundo, logo começou a mendigar por comida e a dormir onde quer que encontrasse abrigo. Uma noite, porém, após o infortúnio da fome e da sede – em um dia inglório – e já maltrapilho, entendeu o que perdera. Na manhã seguinte, acordou com a necessidade de retornar para o palácio, visto que, naquela fatídica noite, entendera a precipitação e o sentido de seu infortúnio. Enquanto o maltrapilho peregrinava entre terras de nenhum lugar e oceanos infindos na expectativa de retornar ao palácio, o rei continuava receoso de que, tão logo um emissário encontrasse seu filho, este sucumbisse à revolta e à vingança, banhando em sangue o seu reino. Passaram-se anos entre o retorno e a indiferença, até que aquele mendigo, que outrora fora destinado a ser príncipe, cedeu à desesperança e ao rancor; passando a dimensionar aquela vida palaciana que levava ou como uma ilusão, ou como obra alucinada de sua própria mente enfraquecida. Com o tempo nenhuma lembrança lhe sobrevinha da vida principesca de alguns anos atrás, afinal apenas comida e água lhe importavam. Um dia, passados longos anos, ciente de que a tarefa se consumara em plenitude, o rei enviou um emissário à procura de seu filho. Indo àquela mesma cidade que o deixara anos antes, o emissário se espantou quando o viu desfigurado entre a indignidade e a penúria. Ao anúncio de que o rei o esperava saudoso, o príncipe esfarrapado afirmou categoricamente: ‘Peregrinei dias e noites à procura de algo que perdi, mas sem saber o que era, e agora tenho pressa: preciso de um casaco quente e de um prato de comida.’ Esquecido sobre tudo o que um dia fora; das benesses palacianas, e, sobretudo de seu pai, o príncipe insistiu com o emissário de que tudo o que lhe era relatado não passava de uma falaciosa tolice. Então, o príncipe agradeceu as palavras generosas daquele homem, que se considerava emissário, além do casaco e da comida, vindo a encontrar, logo em seguida, os mendigos que por ali o esperavam…”

Assim o rabino encerrou a parábola. Voltando-se à comida, um rapaz do grupo o interpelou: ‘- O príncipe fora redimido ou continuou em frangalhos?’ Fitando-o, o rabino replicou: ‘- O rei ainda está vivo e continua a enviar emissários, pois pleno de Amor, sabe que o príncipe vai recobrar a consciência e despertar, extraindo do sofrimento a maior das lições: o perdão. Como o príncipe, estamos afastados do reino há tanto tempo que esquecemos quem somos, mendigando indignamente ora comida, ora um casaco. Um dia, se a pressa não se interpuser; a revolta não obscurecer o caminho, e a serenidade surgir: o príncipe retornará em silêncio. Quantos emissários se anunciaram no dia de hoje? ‘ Perguntou o rabino. Silenciosamente, o rapaz partiu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s