Ter é tardar.” (Fernando Pessoa)

***

Por Ivan Pessoa

§1

Aos 15 anos de idade, envolto naquela curiosidade habitual de como se tornar um escritor bem sucedido, Fernando Sabino recebeu de Marques Rebelo a seguinte orientação: “Vá escrevendo e cortando. Escrever é cortar.” Não por acaso, já em sua etimologia, a palavra: ‘estilo’ (do latim: ‘stillus’, donde advém a palavra: estilete) ao aludir ao objeto pontiagudo com que se escrevia os papiros, antecipava ao fenômeno da escrita, o elemento distintivo da rasura; do corte e da precisão. Aliás, desde o símbolo dos escribas – representado na figura da deusa mesopotâmica Nisaba com um estilete, desde há muito, a característica do ato de escrever é dimensionável como um ato perfurante e custoso, simbolicamente assimiláveis na prática física da escrita cuneiforme (‘cuneus‘ em latim: cunha). Com efeito, um dia – o maior estudioso daquele emaranhado ainda por ser descoberto, George Hughtinghton, do Departamento do Museu Britânico, quando da decifração da escrita suméria, observou a particularidade daquele enigma rasurante: “O sumério distingue-se em especial por ser escrito de forma parecida com uma charada. Segundo o contexto, cada um dos signos cuneiformes pode significar o nome de um objeto, uma função gramatical ou um valor fonético. A escrita suméria contém, de fato e em potência, todas as variantes de escrita decifrada até hoje. É mais difícil decifrá-la do que tê-la inventado.” Sobrestimar a última oração torna-se, no mínimo, recomendável, afinal nada é mais proporcionalmente mágico e demorado ao intelecto que a escrita: atividade humana que, pulsante entre dedos; inteligível e entre unhas – fere, perfura ou redime. Em todo caso, sangra.


§2

Neste exercício estilístico de exaustivo manuseio tátil, o literato cujo primor de sua atividade é a inteligência e a concisão, evoca – por vezes – muito mais do que mil páginas academicamente datadas poderiam supor; esforço que exige demora, sagacidade e capacidade seletiva. Uma tal constatação nos faz recordar Samuel Butler em seu ‘Caderno de notas‘: ” Você se torna breve porque tem mais coisas a dizer do que tempo para dizê-las. Uma das artes cardeais é a de saber o que omitir.” Evocando-as, eis que ouço o apelo de São Taurino d’Evreux: “Seja breve de vez em quando, se não puder sê-lo todo dia.” Por certo, há palavra mais penetrante, singela e imediatamente decisiva que aquela que sangra; em breve, eternamente?

Quando da decifração ansiosa do misterioso código sumério, Hughtinghton saiu pelos corredores do Museu; começou a despir-se e bradou aos ares: “Após dois mil anos de silêncio, sou o primeiro a escutar essa voz.”  A propósito, aquela voz fendia a pedra de sentido.

Determinadas descobertas demandam um tempo específico; um tempo para uma autodescoberta pessoal, de modo que nem mesmo a exigência protocolar e acadêmica de um volumoso e denso apanhado de páginas de uma tese, se aproxima – em súbita grandeza – à brevidade de uma simples e indecifrável oração: oracular, vívida e precisa como a fenda de uma verdade por ser decifrada.

O que sangra, entre o fio da inteligência e a fissura da mediocridade institucional, pomposa e evasiva (?) aquilo que Fernando Pessoa escreveu em ‘Mensagem‘, sem os devidos méritos: “A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar”, ou aquela tese que é lida ao dia; adiada à tarde, até ser esquecida na noite de sua defesa , já madrugada e amanhecida? 

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