Por Ivan Pessoa*

Segundo Nietzsche, só existe uma pergunta que deve ser feita intimamente quando se pretende investir em alguém, e eventualmente casar: “Continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa, daqui a 30 anos?”

§1

No romance do escritor turco Orhan Pamuk: ‘Museu da Inocência‘ (2008), há a intermitência de uma palavra que determina tanto os afetos humanos (há séculos) quanto a própria narrativa. Em turco, a palavra: ‘muhabbet‘, significa concomitantemente: ‘amor‘ e ‘conversa‘, aludindo, portanto, àquele encontro súbito, cujo diálogo é capaz de consumar a proximidade entre duas pessoas. Entremear uma conversa que revele uma afinidade é o pressuposto para um sentimento tão nobre quanto incomum, algo que pode: determinar a descoberta de uma história nascente, ou confinar a lembrança às impressões saudosas de afinidades passadas; proeza que o marroquino Tahar Ben Jelloun condensaria no título de uma de suas obras: ‘Le premier amour est toujours le dernier‘, ou: ‘O primeiro amor é sempre o último.’

Desde há muito, o primeiro e último amor descansa no plano de um encontro revelador que, ao aproximar intimamente duas pessoas, ajusta a ordem de suas afinidades à construção de um particular museu da inocência com suas primeiras palavras e primeiros gestos. Nos dias atuais, a palavra ‘muhabbet‘ fora confinada em um museu de aberrantes criaturas tão raras quanto incomuns, entre os artigos e quinquilharias de séculos passados, afinal quem ousa investir os seus perigos, desvendar os seus segredos, destituindo suas vaidades em nome de um propósito maior? Em uma era de aguçado egocentrismo e orgulho sem fim, de fato, buscar e encontrar afinidades se torna tão extraordinário quanto perder-se – como um visitante antigo à procura d’a-ventura – naquele museu da inocência, algo que exige um prévio entendimento daqueles ardis denunciados por Nietzsche em ‘Humano, Demasiado Humano’: “onde se venera o que não passa não é bom deixar passar gente limpa demais.” Como um artigo inatual daquele museu da inocência, o amor é tão antigo quanto eterno, cujo propósito é correr riscos, e tornar-se Um.


§2

Em um mundo com apurado senso tecnológico e adiada concessão aos encontros físico- presenciais, cujos olhares são apreendidos à distância, o diálogo cede à frieza de uma mensagem qualquer, quando não, sucumbe à pobreza de espírito. Quantas expectativas serão frustradas até o encontro de um grande amor: revelado que é desde as primeiras palavras, arrebatador e súbito à maneira de quem aprecia um objeto empoeirado em um museu da inocência, submetendo-se clandestinamente a carregá-lo consigo? Daí que, descobrir-se em meio à uma conversa de aguçado grau de afinidade, determina a eleição de um definitivo grande amor, afinal vemos-nos naqueles olhos; escutamo-nos naquelas palavras, cedendo à necessidade espiritual de ser Um. Daí que em turco: ‘fazer muhabbet‘ implica tanto: ‘fazer amor‘, quanto ‘dialogar‘, expressões indiscerníveis de uma mesma provisão do espírito que almeja a completude, a totalidade. Não seria por isso que é facilmente identificável uma pessoa: pobre de espírito, incapaz que é de um gesto de amor, bem como de entravar uma boa conversa? Por certo, quem não ama, tartamudeia.

§3

O sentimento nobre do amor implica sacrifício, renúncia, ou seja, um constante senso de esvaziamento em nome do objeto amado: algo que uma pessoa cheia de si, só encontrará por vias tortuosas, quando não, por reforço à própria vaidade. Ademais, dialogar – anuncia-se no mesmo plano renunciante, com efeito, a escuta tende à concessão, daí a natureza do amor como fala e entendimento: ‘ – Sim, pensei melhor. Tu estás certo(a).’ Dito tudo isso, eis que surge Serge Beucler a contrapeso, revelando a especificidade deste amor/conversa: “Talvez seja o único gesto puro que nos resta.

A pureza deste sentimento – que nos aproxima de nós mesmos no encontro e no diálogo com a pessoa amada -, exige de Serge Beucler uma correção à clássica frase de Montesquieu: “Não toqueis no amor senão com as mãos trêmulas.” Aliás, quem pode detê-lo fisicamente entre as mãos empoeiradas de tanta antiguidade eterna? Incapaz de deter o amor com as próprias mãos trêmulas, o que surge é o diálogo franco e a compreensão auto-consentida, que renova as pessoas que se amam, porquanto, exija um incansável senso de escuta e entendimento. O que daí surge é a certeza: só se pode amar aquilo que eventualmente se renuncia, caso contrário, toda expressão de afeto se torna egoísta, passional e violenta, do mesmo modo nenhuma afinidade se sustenta nem se aprimora como diálogo, entendimento e conversa.

Atualmente, em que boa parte das pessoas é suficientemente incorrigível em suas certezas, afinal uma grande maioria é nada auto-indulgente sobre si mesmo – o que implica ausência de diálogo e indiferença – , o amor resulta inútil como um artigo de museu em abandono, fazendo-as lançar impropérios ao ar: ‘ – O amor não existe, mas eu preciso encontrar alguém nem que seja a bem da minha vaidade.’ Como em um museu de inocência ancestral, e eterno – a advertência que surge é: ‘ tocai com as mãos trêmulas, hesitantes, ciente de que o que aqui se preserva é aquilo que jamais se esgota.‘ Quem ousa preservá-la ou mesmo obedecê-la?

§4

Sustentada a tese de que o amor é uma peça – a mais antiga, a mais eterna – no museu da inocência, não haverá nada mais inesperado que encontrar sua escorreita aparição retroativamente: desde as primeiras palavras, algo que, estando acima de nossa compreensão, manifesta-se tão miraculoso quanto a única frase preservada da peça perdida de Sófocles, ‘Os amores de Aquiles‘: ‘O amor é como o gelo que a criança segura na mão.’ Corrigiria: o amor é o diálogo entre duas crianças em vias de habitar o museu da inocência.

*Para minha Glaucinha, neste dia dos Namorados!

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Um comentário sobre “Amor à primeira palavra

  1. E o amor falou baixinho,e ergueu meu olhar lacrimejante… Não cansa de fazer tantas surpresas? Por favor, nunca deixe de lado as nossas cartas, pois muito me agrada dizer o quanto é especial em minha vida. És o meu parceiro e companheiro, aquele que é capaz de tocar o meu coração e faze-lo chorar. Stendhal dizia que no amor temos a impressão de que uma felicidade ilimitada, sempre está logo ali dobrando a esquina, aguardando apenas uma palavra ou um sorriso…Bem, acredite que este belíssimo texto fez a minha alma cantar de tanta felicidade.

    Amo-te

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