A Fernando Brant, em memória, falecido na última sexta-feira, 12 de junho de 2015. 

Por Ivan Pessoa

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Sobre as últimas palavras dos grandes homens, assim ponderou Jacques de Lacretelle em seu ‘Journal de Bord‘ (1974): “Inscrevo, de antemão, as minhas, mesmo se a tristeza de deixar aqueles que amo abafar meu grito: ‘É lamentável! Tinha ainda tanto que aprender.‘”.

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Ouso reescrevê-la, alardeando por sobre os grandes homens, a negligência de suas eventuais últimas palavras: “É lamentável! Tinha ainda tanto a ensinar.” Qualquer pessoa minimamente entusiasmada com a obra de um grande homem, e do mesmo modo, de um grande artista sabe avaliar o sentido dessa reinscrição. No horizonte daquelas palavras reinscritas é que avalio a densidade de todos aqueles que se empenharam em compor, tocar e produzir o trabalho do famigerado: ‘Clube da Esquina‘ – sem alarmismo: uma das últimas expressões apoteóticas da beleza lírico-musical não apenas do Brasil, mas igualmente do povo mineiro, popularizado pela obra de um Drummond de Andrade, um Pedro Nava, um Autran Dourado e um Lúcio Cardoso. Portanto, deve-se à Minas Gerais, a celebração de uma plêiade de grandes e vultosos artistas, aliás, de uma mentalidade estética devidamente consolidada, capaz de ensinar todo um país sobre seus reais propósitos e potenciais.

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A primeira vez que ouvi detidamente o chamado: ‘Clube da Esquina‘, tive a impressão de acessar outro estrato da consciência, decerto uma região crepuscular tão próxima de um sonho quanto sombras projetadas no fundo de uma caverna. O que ouvi, e, sobretudo, intui a partir daquelas letras ora densas, ora confusas, revelara-se deambulatório como o caminhar impreciso de um sonâmbulo, aliás, adentrava a região dos sonhos ainda que desperto.

Um dia, ao ler o estudo de Jaime Sabartés sobre Pablo Picasso (‘An Intimate Portrait‘, 1949) dimensionei com propriedade o que sentira ao ouvir aquele disco pela primeira vez: “quando ele cria, parece um sonâmbulo submetido à imperiosa intuição que o governa.” Sim, o que reverberava em meus ouvidos eram os apelos de uma intuição que governa – sem recair em inconsciência – à força de uma expressão poética tão mineira quanto universal.

Desde aquele dia, entre Sabartés, Picasso e o ‘Clube da Esquina‘, atento àquela musicalidade imediatamente estranha, intuitiva e encantadora; consegui captar a dissonância curiosa do ‘canto jondo’ ou andaluz de Federico Garcia Lorca – forjado na tensão entre o cântico litúrgico bizantino e as poesias árabes e turcas (vide: ‘Dos Cruces‘ e ‘San Vicente‘) – na proporção mesma em que depreendia o automatismo confuso, porém quase místico de Paul Éluard e Robert Desnos (vide: ‘Pelo amor de Deus‘ e ‘Os Povos‘).  Por conseguinte, e sem reservas, passei a conceituar aquilo, desobrigadamente, como: ‘surrealismo‘.

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Acerca daquele controverso movimento surrealista, os estudiosos relatam a seguinte história; desdobrável igualmente a qualquer outra expressão artística, em meio às venturas e surpresas da vida. Conta-se que, quando Diaghilev conheceu Jean Cocteau, o russo não se entusiasmou com o poeta, exclamando logo em seguida ao modo de uma condição: ‘Surpreenda-me!’ Após o desafio imposto por Diaghilev, Cocteau convidou o então desconhecido Pablo Picasso e o compositor Erik Satie. Logo, surgiria o balé ‘Parade‘, encenado pelo Ballets Russes, diga-se de passagem: sucesso de crítica e de público. Daí, empenhado em constatar o clamor ao redor da obra, Apollinaire escreveria uma nota, fazendo surgir o inusitado termo que marcaria gerações:surrealismo. Apresentações à parte, por ser inapreensível; diáfana e poética: a palavra ‘surrealismo‘ sempre me pareceu indefinível, de modo que nada a condensa melhor, pelo menos aos meus ouvidos – fazendo-a soar com relativa leveza, que as músicas deste disco que, em ocasiões inoportunas, como a perda de seus criadores – haja vista, Brant – sempre nos levará ao incorrigível anseio de Lacretelle reescrito: “Lamentável! Tinha ainda tanto a ensinar.” 

Enquanto isso, a vida segue: sonâmbula, e em sina.

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