Conta-nos Van Wyck Brooks em: ‘The flowering of New England: 1815-1865‘ que, quando da introdução (nos lares norte-americanos) do lampião Argand por Thomas Jefferson – em meados do século XVIII, algo curioso passou a ser observado. Tão logo o jantar findasse, as famílias, e, sobretudo, seus mais entusiasmados analistas intelectuais, dispersavam para seus quartos para, de posse da luminosa invenção, ler custosamente até a chegada do sono. Por ora, haveria a leitura, ou mesmo o homem, sem a capacidade intelectiva de captar a luz, fenômeno incandescente que, ainda que visite as coisas e em tudo se adapte, delas jamais se contamina? 

***

Por Ivan Pessoa

§1

Dentre outras coisas: quando efetiva, uma leitura deve favorecer uma ética que, ao partir do refinamento interior, encaminha o homem ao compromisso velado de responsabilizar-se pelas palavras ressurretas de um autor, desdobrando-as no plano interpessoal. Do mesmo modo, por esta extensão ética, uma leitura deve insinuar uma religiosidade primordial que, ao convocar o leitor a tal compromisso: vincula suas palavras e gestos à partilha de uma Verdade que se manifesta sem testemunhas, pois vivida interiormente, e por meio da qual, toda decisão almeja o transcendente e a liberdade. Destacar, por uma via fática e real, o que separa a ética da religiosidade, é tão improvável quanto destituir a leitura de um bastidor simbólico, cuja imediata descoberta harmoniza e faz aguçar as três expressões espirituais: ética, religião e poesia. Entretanto, qual das três deve ser priorizada sem comprometimentos? Impossível merecê-las sem cultivá-las, de sorte que uma verdadeira leitura, quando bem encaminhada, harmoniza os três graus desta esfera. Ora, como cultivar o espírito; pretender-se ético ou religioso, sem dimensionar a beleza e o esplendor de lúcidas estrelas, cujo símbolo particular, manifesta poeticamente o sentido universal da iluminação? Com efeito, como escalar montanhas e píncaros de acirrado fôlego, sem recobrar em si mesmo um fulgor de encantamento, iluminando as coisas ao redor? Como ler algo, ou mesmo sê-lo, com a luz apagada? Eis a questão.

§2

O escritor Robert Louis Stevenson costumava dizer que aprendera a ler apenas aos sete anos e com severa resistência por que, habituado a ouvir o ritmo; a música e a prosa contada horas antes de dormir por sua babá Alison Cunningham – queria prolongar interiormente o encantamento daquelas narrativas de luzes acesas. Reforçar esta imagem: de uma criança envolta em uma história antes de dormir, (aprimorando sua luz interior), é atentar para a certeza de que aquilo determinaria seu caráter; sua acolhida religiosa ao transcendente e sua recepção estética perante o sentimento trágico da vida. Quem não reconheceria em tal hábito, o meio mais eficaz para permanecer sonhando, ainda que lúcido, em um mundo a poucas horas da ruína? Tal estágio, de resistente esforço em ser alfabetizado, e proveniente encanto luminoso da leitura, Stevenson chamaria de: ‘Síndrome de Sherazade.’ Determinadas leituras são tão reconfortantes; precisas, que conservá-las – em ocasiões futuras -, é guardar consigo a chama insuspeita de um archote, dispondo-as criativamente perante as circunstâncias. Com este afã, pontua Ralph Waldo Emerson em ‘The American Scholar‘ (1837): “É preciso ser um inventor para ler bem.” Ora, com isto Emerson quer significar: é necessário recriar; assumir, refazer em fogo aquilo que se lê, daí o apelo ético-religioso à invenção. Por esta via é mais fácil conhecer um canalha, um fundamentalista religioso e um homem vulgar, que reconhecer seus antípodas: o probo, o santo e o esteta. Enquanto o primeiro grupo representa a espontaneidade das mais ignominiosas ações humanas, por que impassíveis à criação – o segundo remete ao trabalho contínuo; um esforço de melhorar a si próprio, o que, por vias exaustivas, se nos reporta àquele proverbial ensinamento chinês: “O lugar mais sombrio é sempre sob a lâmpada.”

§3

Viver de acordo com a palavra lida é atentar, como um clarão de luz, para o grandioso esclarecimento de Kierkegaard em ‘Temor e Tremor‘ (1843): “O consolo do discurso é que ele me traduz para o universal.” Deste modo, o que é mais significativo em uma leitura, e o mesmo vale para o discurso, é alcançar a certeza de que determinadas impressões pessoais, quase tão insignificantes quanto idiossincráticas, devem ceder, sacrificadas, às ideias atemporais que transcendem aos imediatos interesses humanos, como satisfações pessoais, matizes político-ideológicas ou tolices ocasionais. Para que isto ocorra, nenhuma vaidade é reputada, e apenas a ideia lida é tolerável, tal qual uma vela que, ao se consumir desde o princípio, se apaga para iluminar. Lendo, o ritmo das palavras encaminha o leitor para uma comunidades de almas já sepultadas, mas que ainda vigem por meios das analogias, símbolos e alegorias, com os quais, o leitor anula sua individualidade para, como a vela, clarear-se no instante mesmo em que se anula desde dentro. Daí a relação anteriormente aludida entre: ética, religiosidade e poesia, sustentável por meio de uma comprometida exigência de abnegação pessoal, e muito bem depreendidas em quem lê uma passagem bíblica ou mesmo uma obra literária com parcimoniosa acolhida; desde que haja luz e nenhuma vaidade se interponha, ou seja vivo – por que atemporal – aquilo que se lê. Do mesmo modo, só há sentido em uma leitura, ainda que particular: quando a estrutura espaço-temporal da realidade suspende-se inequivocamente, convocando o leitor para a descoberta inteligível de sua própria existência: efêmera; apequenada e mortal – além é claro, da apreensão confortante das coisas permanentes. Com essa descoberta, toda a luz acende o que antes estivera oculto. Em tal esforço, o leitor encaminha-se nobremente àquilo que é constante por que partilhável nas vozes ancestrais; essencial ao longo das eras, civilizações e pensamentos. Daí a certeza: a leitura é uma experiência de aguçado senso de humildade, como o espírito em oração, primando – desde que bem direcionada – um impulso transcendental a uma ordem supra-histórica, de onde repousa o encaminhamento sempre atual de vozes inesgotáveis, daí o respeito e o recato com aquilo que é lido, bem como àqueles que estão imediatamente próximos. Convocá-las quer dizer: recolher-se ao silêncio da insignificância pessoal, e partilhar suas chamas luzidias. Como perceber o sentido da Unidade em textos, personagens e narrativas distintas, senão permitindo-se à suprema beleza da leitura, ou seja, por meio da luz que encanta tudo subitamente, e por meio da qual toda vela confronta a escuridão? Por certo, ainda paira a questão: como ler algo com os olhos fechados à percepção da luz que, assim sendo, é o que engendra a clarividência dos séculos? Pode o homem (pretender) ler sem cultivá-la dentro de si mesmo?

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§4

Conta-nos o historiador Jérôme Carcopino, em: ‘A vida cotidiana em Roma no apogeu do império‘ (1939), que a etimologia do verbo: elucubrar, advém de uma prática corrente entre os antigos romanos. No escuro do quarto, ou cubiculum, por meio da luz insinuante de uma vela feita de pano ensopado em cera, o lucubrum, um leitor, em penosas condições, acirrava sua visão sobre o mundo. Aquilo que era lido na noite anterior, às custas do sacrifício dos próprios olhos, era vivenciado nos dias seguintes como um encadeamento natural da luz absorvida às duras penas. Ler, portanto, era elucubrar, ou seja, pôr-se ao abrigo da luz, esgotando-se até sê-la substancialmente. Ainda em solo romano, ou mais especificamente por meio de Cícero, em: ‘De Republica, II.21.27‘, somos informados que um orador, de nome Sérvio Túlio – nascido de mãe escrava -, tinha uma alma tão brilhante, ou melhor, tanta luz interior que, ao dormir: ‘sua cabeça ardia‘, fazendo com que seus familiares em seu cubiculum, tomados de tamanho espanto, buscassem água para apagar sua mente flamejante. Dotado de erudição viva, e sendo um orador, provavelmente, Sérvio Túlio tornara-se a própria luz de suas palavras, como um lucubrum que ilumina, e tão logo se apaga, para renascer: nos olhos infatigáveis de um leitor qualquer, ou como um exemplo de notória grandeza. Como em tal vela, a leitura é luz porque proporcionalmente encadeia para escurecer a ignorância, o medo e a covardia, daí o seu sentido ético e imediata religiosidade. Ainda em símbolo, a leitura – quando empenhada em modificar integralmente aquele que a procura -, é tanto o gesto de Buda que, ao ser instigado à pergunta: “- por que não falas nada?” o iluminado responderia: “- porque tenho luz demais“, quanto aquela irrenunciável observação de Jesus Cristo (João 8:12): “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue, não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” Entre ter luz e sê-la, surge o caminho de uma leitura e a mais ética das religiões: a poesia. Entendê-la, significa estar doente dos olhos, e padecer lucidamente com a Síndrome de Sherazade, cujos sintomas renovam as palavras: leia (…). até apagar-se.

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