Por Ivan Pessoa

§1

Entre os sorvos de uma xícara de café e um livro qualquer à espreita é que renovo as minhas esperanças. Entre hesitações e, sobretudo, com o receio de queimar a própria língua, pontuo cautelosamente a leitura; cadenciando a atenção ao dulçor da palavra vindoura. Em tal circunstância, com a qual: a xícara descansa indiferente; embebeda-se o espírito em páginas de alentado vigor. Envolto no calor desses dias – aguçados com o café ininterrupto de minha curiosa atenção, descobri um livro de Nicolas Chamfort: ‘Máximas e Pensamentos & Caracteres e Anedotas‘, e repentinamente vi naquela obra, algo entre La Rochefocauld e La Brueyère. Providencial indício para um café que ainda saboreio.

§2

Tal qual o tom aforismático e pilhérico dos franceses anteriormente referidos, Chamfort detém a concisão sem maiores comprometimentos de modo que, em poucas linhas, dá azo a um bom humor de afinada construção verbal. Com este apuro, conta-nos – dentre outras anedotas – o caso de um certo bispo de Autun, absurdamente gordo, cuja justificativa à sua obesidade seria provar não apenas a misericórdia divina, mas igualmente a elasticidade da pele humana. Em seguida, como que para aguçar os sentidos ao sabor da língua, Chamfort interrompe o intercalado café: ‘ Deus meu, livrai-me das dores físicas; das dores morais, eu me encarrego.’

§3

Enquanto leio Chamfort, e o café demora-se em meu silêncio, fico a imaginar os dados biográficos do autor em pauta. Como o filósofo Sêneca, que fora condenado por aquele que defendera durante toda vida, ou seja, a mando de Nero, obrigando-o a cometer suicídio: desfecho que se consuma ao cortar o próprio pulso, no Grande Terror da Revolução Francesa (episódio que defende entusiasticamente), um desesperançoso Chamfort, já condenado, desfere um tiro que, tragicomicamente, lhe dilacera o nariz e parte da mandíbula. Em seguida, na tentativa de findar o próprio sofrimento, golpeia violentamente sua artéria vital sem o êxito irônico dos suicidas. O que se segue é sofrimento.

§4

Ó Senhor, dai a cada um sua própria morte.’ Quando li sobre este infortúnio de Chamfort, lembrei dessa frase de Rilke, imediatamente. Lembrei, ademais, das revoluções históricas: suas guilhotinas, tribunais e (contraditórios) louvores intelectuais. Lembrei que, em algum café filosófico deste mundo, alguém enaltece o nome de outro francês, pomposo e celebrado acadêmico: Foucault, sem ao menos imaginar que este defendia o terrorismo (com o mesmo ímpeto impremeditado de Chamfort) com a justificada expressão de: ‘justiça do povo.’ Aquela Revolução que incriminara Chamfort, e seu ‘hábito de pregar a cabeça do inimigo no poste para que o povo visse‘, Foucault a concebia como o exemplo paradigmático da justiça popular anteriormente referida. Em tempos de recrudescente investida de grupos terroristas islâmicos no médio Oriente, o nome de Foucault surge, remissivamente, como um dos primeiros ocidentais entusiasmados pela Revolução Iraniana e seus desfiles de intolerância. Entretanto(…).

§5

Estar consciente do que pretende um autor, e a quem lança suas invectivas, é um requisito indispensável para o entendimento, com efeito, à luz das palavras de Benedetto Croce: ‘Só se compreende um filósofo quando se sabe contra quem ele se insurgiu.’ Qualquer estudante das humanas que lê um Foucault, pretendendo assim tomar nota dos mecanismos do biopoder – pressupondo-o: humanista, talvez o faça sem se dar conta de que ali assoma-se: a escandalosa defesa da destruição do Ocidente. Para quem concebia a Revolução dos Aiatolás iranianos como expressão da justiça popular, louvadamente antiocidental; tanto quanto antevia a dissolução do ser humano como um rosto na areia (em obra: ‘As palavras e as coisas‘), nada mais natural que supor sua reação ao ver a decapitação do jornalista James Foley em meio ao deserto e um gesto qualquer de aguçada contradição impremeditada. Naquele fatídico contexto, poderia vacilar da boca de um Foucault redivivo (como a compreender a morte do jornalista, ou endossá-la) o lema da organização maoista que fazia parte, reportando involuntariamente ao trilema daquela Revolução que trucidara Chamfort: ‘Violência, Espontaneidade e Moralidade.’ E por que não: ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade?’

Do mesmo modo que Chamfort prestaria loas à Revolução Francesa, para em seguida sofrer em seus porões, ao celebrado Foucault restaria aquilo que, em 2010, o programa Panorama da BBC mostrou no Reino Unido: algo como um constrangimento. Em instituições de ensino destinadas às crianças muçulmanas naquele país, leia-se: administradas por sauditas, ensinavam-se ‘boas maneiras‘ genuinamente antiocidentais, tais quais: como cortar as mãos e os pés de um ladrão, a equiparação dos judeus a porcos (não muito diferente dos alusivos ratos do período nazista), punições acaloradas – entre apedrejamento ou precipitação – para os efeminados. Uma coisa é certa: enquanto recordo do sofrimento daquele jornalista, injustificadamente decapitado (circunstância indigna a qualquer outro ser humano), demoro-me sobre o café e o livro à frente – a ponto de ver na frase de Chamfort o contraponto daquele pesar: ‘O dia em que não nos rimos foi o dia que desperdiçamos.’ Suponho que, a bem da verdade, se ainda estivesse vivo em qualquer lugar do Oriente Médio, o riso de um Foucault festivo, morreria entredentes, entre o apedrejamento ou a precipitação. Entrementes, eu rio do café filosófico e da misericórdia divina, cuja liberdade põe o homem a pagar com contradições pela elasticidade da ponta da língua.

(Ver também em ‘Notas Breves‘: O caso Foucault)

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