Por Ivan Pessoa

 

§1

A qualquer momento, um sábio em estado terminal morrerá entre estas palavras, levando consigo a sobrevida de sua aldeia. Aproximando-se da fogueira ao entardecer, os aldeões demoram-se em cosmogonias, narrando poeticamente a origem do mundo, a gênese dos tempos. Morto, o sábio sepulta em sua voz o cultivo da terra, os deuses primordiais, afinal habita em seus olhos a lonjura daquelas paragens. Sem suas reminiscências e sua transmissão, forjadas no calor da terra, a aldeia morre. O sábio animava como a alma ao corpo, as virtualidades daquela aldeia.

No imaginário grego, as entidades Hypnos, Nyx e Caronte, vinculam-se ao arquétipo do esquecimento, de modo que o elemento soturno contrapõe-se à luminosidade da manhã. Portanto, deixar de narrar, ou seja, emudecer – é o mesmo que esquecer, dormitar. Esquecer as tradições da família, desconhecer os monumentos da cidade, são sintomas de um tempo em ruínas, à iminência da queda.

O fenômeno do esquecimento, similar ao estado crepuscular da escuridão, acompanha a humanidade como uma sombra à espreita, entretanto, dissuadi-lo: requer luz, preservação e partilha. A despeito desta sombra: condicionada à escuridão histórica, os homens criam reservatórios de referências, guarnecendo assim a memória e a tradição. Se o esquecimento é turvo como a escuridão, porquanto seja obscuro – a memória, bem como a história, tem a luminosidade de um sol que resplandece. A sombra espreita, mas o sol aquece.

Tornou-se um truísmo decerto, que a história da humanidade é a história do dualismo. Corpo e alma, céu e mar, Deus e diabo, mas nada como a oposição cosmogônica, perpassável entre as civilizações por meio da relação entre: luz e sombra. Diógenes, o cínico, tinha o hábito de perambular pelas ruas de Atenas com uma lanterna, à luz do dia a entoar: “Procura-se um homem.” Platão, um tanto cínico, retrucava: “Diógenes é um Sócrates que enlouqueceu.” Ensandecido ou não, Diógenes acenava para a ideia de que, ante as ruínas da decadência e sua escuridão subjacente, um resto de humanidade só seria identificável com um resto de claridade.

§2

Em tempos sombrios, a fuga mais íntima para o homem é a possibilidade de contar estórias, imaginar, conjecturar; vivenciando-a antes interiormente para consumá-la enfim na vida interpessoal. A fuga é originalmente especular. Primo Levi, ex-cativo do Holocausto, sabia que a única força capaz de permitir aos demais infortunados escapar daquele infortúnio; partiria sob os escombros da imaginação, de modo que devanear sobre possíveis conversas com os familiares, contando-os imaginariamente sobre aquele inferno, já aguçava os desdobramentos da redenção e da liberdade. O mais impressionante é que, logo após a sua providencial saída, tal como era imaginado outrora – em que os familiares postavam-se à escuta dos relatos inimagináveis da catástrofe, o escritor não acreditava no que via. Inesperadamente, todos os presentes bocejavam com descarado desdém. A inusitada cena – que teria acometido não apenas Primo Levi, mas uma centena de sobreviventes do Holocausto, rendendo, por meio de detratores e revisionistas como David Irving: a alcunha de testemunhos do ‘Holoconto’ (sic) – figura aqui como a síndrome dos últimos séculos, cuja característica é preterir a dimensão de alguma adversidade ou êxito historicamente anterior, em nome da entediante apreensão do ‘hic et nunc’ (aqui e agora) e suas conotações não, humanamente universais, mas justificadamente ideológicas, étnico-raciais e religiosas. A esta síndrome dou o nome de: ‘esquecimento deliberadamente mórbido’.

Se ao ato parricida de assassinar o sábio da aldeia, sobrevém um estado de desnorteamento inimaginável, na mesma proporção: desobrigar-se da voz ancestral da experiência humana historicamente acumulada; pelas razões anteriormente denunciadas, é ocasionar tanto um niilismo deveras justificável quanto reviver a catástrofe insuspeitadamente revigorada. Alojando-se no bojo deste processo niilista – o esquecimento; qual escuridão inescrutável, solapa qualquer vestígio de tradição: acumulável como triunfos e fracassos históricos, dilapidando por fim, a capacidade humana de aprimorar a condição corrigível de sua própria história. Minimizada assim como parte constitutiva do humano que somos; oscilante como um continuum entre luz e sombra, a história cede ao anseio messiânico de ordem e consequente construção de um novo homem, por conseguinte, de um novo tempo. Arrogando-se a concessão da novidade, títeres e líderes ensandecidos; empenhados em sobrepor a luz do controle social às sombras do passado, e seus vestígios daninhos, apressam a síndrome do esquecimento deliberadamente mórbido, algo que se denuncia com o imperativo de Mao Tsé-Tung: “Destrua o velho e estabeleça o novo.”.

§3

Se à perda do vínculo humano, historicamente vinculado ao passado/presente/futuro, ou seja, a um continuum indeslindável, sobressai um esquecimento niilista, nada mais natural imaginar que, em tal estágio finissecular, os homens não mais comunicariam a partilha de suas experiências; acumuladas no decurso de suas existências reais ou imaginadas, mas silenciariam ao patrulhamento e posterior reeducação: “Sejamos o Além-do-Homem.” Esquecer, dormir e silenciar: quando condicionados por exigências hediondas exteriores, são sinônimos da mesma condição crepuscular, que põe o homem nas circunvizinhanças de um embotamento espiritual, visível em tempos de paz, apenas em loucos, alienados e lobotomizados.

Che Huang Ti – imperador chinês que teria ordenado a construção da muralha da China, da mesma forma que Júlio César e Adolf Hitler – teria providenciado a queima deliberada de tudo aquilo que lembrasse tradição. À proporção que as labaredas abrasavam os ensinamentos de doutos sábios, ironicamente o esquecimento avultava-se mais sombrio, originando arbitrariamente homens novos em novos tempos. Ao morrer a sabedoria ancestral, surgem os fantasmas. Ao apagar a luz, manifestam-se as trevas. Certa vez perguntaram para um destes sábios que teria sido vítima da cólera de Che Huang Ti, o que ele faria se detivesse o poder do Senhor absoluto. Laconicamente Lao-Tsé teria respondido: “Restabeleceria o sentido das palavras.” Restabelecer o sentido das palavras é reanimar um velho hábito humano, imaginável por enquanto: o de se aquecer ao redor do fogo com o cuidado de não apagar a sua luz.

 

 

 

 

 

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