“Uma igreja deve ser julgada pelos frutos intelectuais, pela influência sobre a sensibilidade e por seus monumentos arquitetônicos. “(T.S.Eliot. ‘For Lancelot Andrewes‘, 1928). 

Por Ivan Pessoa

§1

Somadas, e a tomar o senso imperioso de julgamento (‘uma Igreja deve ser julgada‘): as três constatações de Eliot acerca da exigência espiritual de uma Igreja em comunhão com o indivíduo, com Deus e com a história, ajustáveis respectivamente a partir dos frutos intelectuais, da sensibilidade e dos monumentos arquitetônicos – convergem mutatis mutandis, e verticalmente (como os alicerces de um edifício) para a certeza pascalina, segundo a qual todo o universo material nada é, se comparado a um único pensamento, e todos os pensamentos do mundo não se equivalem ao valor de um único gesto de caridade. Desse modo, e em um tom genuinamente girardiano, se pode considerar que, enquanto as igrejas mais vulneráveis são evidentemente as mais intransigentes, a verdadeira Igreja é aquela que, ao se doar, jamais sucumbe ou mesmo se esgota, assentada que está sobre o fundamento da caridade. Daí a certeza de Simone Weil, para quem, toda e qualquer discussão religiosa remete não necessariamente aos dilemas teológicas stricto sensu, mas a uma simples questão de antropologia, ou seja, de humanidade.

Portanto, nada edifica mais a Igreja humana, que o conjunto total e desobrigado de ações voluntariosas, possíveis desde que ajustáveis a uma vida sacramental, ou seja, a partir da relação harmônica entre a apropriação doutrinal e a prática cotidiana que, em seu último grau de expressão, concilia os frutos intelectuais de uma vida espiritual total e superior; a sensibilidade para com os semelhantes – perdoáveis quando de suas diferenças, e por fim, a construção estética de monumentos arquitetônicos perpassáveis ao longo da história (catedrais, bibliotecas, universidades, hospitais, museus). Qualquer intervalo entre tais extremos, decorrentes de falta de obra espiritual e material, desencadeia guerras santas, destruição incendiária e falsos moralismos, e da mesma forma, a proliferação de ciclos violentos de rivalidade, remissivas sabiamente às palavras de Cristo em ‘São Marcos 3, 23-24′: “Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não poderá subsistir.”

(…) A continuar.

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