Por Ivan Pessoa

§1

Conta-nos Maurois, que Shelley subia ao topo das árvores para ler Shakespeare entre os pássaros, algo que nos faz pensar tanto no sentido da poesia como música primordial quanto na metáfora da subida como ascese. Em um estado de excelência expressiva há algo mais significativo para o espírito (poético-musical) que alçar voo? A tônica, a melodia, o ritmo, a cadência, tanto enformam a poesia e a música; quanto confirmam as palavras de Diderot em 1772, em um dos volumes de sua Enciclopédia: “Toda verdadeira poesia é emblemática.” Como no soneto de Tasso da Silveira, que segue logo abaixo, o que há de mais emblemático, ou significativo, é o fato de que, não apenas música e verso se harmonizam, mas a própria vida parece se insinuar num clamor (vertical) de pássaros revoando:


Soneto XXXII:

“Somos aves do mar, batendo, ansiadas,
as asas, num viveiro de pomar.
Em torno, ao vento, agitam-se as ramadas:
ao vento vivo que nasceu do mar.

Ah, que nunca dobremos resignadas,
as asas, nem deixemos de sonhar.
O vento vem em trêmulas lufadas;
e no canto do vento vem o mar…

Se entre as formas efêmeras nascemos
foi para que a alma eterna que trouxemos
em si mesma realize, a soluçar

a absoluta beleza, à nostalgia
das origens divinas a que um dia
retornaremos como para o mar…”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s