Por Ivan Pessoa

E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: – Senhor Jesus, recebe o meu espírito. E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: – Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu.” (Atos 7:59,6)

§1

O eixo constante da construção simbólica das civilizações é o sacrifício (‘sacrum facere‘: tornar algo sagrado) – ajustável a partir da sobreposição de acusadores sobre uma vítima. Em seu limite virtual, o auge de uma civilização é a deposição desse mecanismo sacrificial em franca substituição pela renúncia dos apelos desse grau ritualístico de violência. A paulatina transferência dessa violência é o surgimento do judiciário. Entretanto, ainda que em mundos civilizados, o fenômeno contagioso da violência ritualística teima em se atualizar a partir da eleição inesperada de suas vítimas: centro motivador dos ciclos sacrificiais.

Na unanimidade violenta de acusadores sobre vítimas, ou seja, na precipitação em massa, os agressores tornam-se um único homem desproporcional, destituído de culpa ou autoconsciência. Desde a fundação do mundo (‘katabolês kosmou‘) até os dias atuais: eis a fórmula da violência coletiva – a incapacidade de inculpação ou imputação moral sobre o ato violento, justificado como uma reparação necessária no contexto da comunidade.

A representação ritualística dessa experiência sacrificial é atualizável – em todas as eras, a partir da perspectiva denunciada por Louis Gernet em: ‘Direito e instituições na Grécia antiga‘, segundo o qual: os linchamentos são fenômenos primitivos, remissivos às primeiras civilizações, que se reportam a uma modalidade arcaica e a um clamor imperceptível por uma Justiça sem culpa ou consciência de si. Em ambos os casos, desde a mentalidade primitiva até os tempos hodiernos, o traço curioso de um linchamento é que a vítima da violência coletiva – ainda que seja um criminoso notoriamente conhecido por seus atos – é aquele que reconcilia a comunidade, daí o sentido atribuído por Northrop Frye e René Girard em considerá-la como: ‘pharmakos‘ ou ‘bode expiatório‘, ou seja, aquele ‘abscesso de fixação‘ ou corpo purulento que, de sua peste, cura violentamente o dia-a-dia ensimesmado de vizinhos eventuais, transeuntes e desconhecidos, aproximando-os inesperadamente em nome da violenta situação. Portanto, a precipitação violenta de todos contra um, desencadeia um fenômeno moral há muito descoberto nas tragédias gregas: a ‘catharsis‘, ou seja, derramamento de sangue cujo efeito é a purificação ritual e consequente ajuste entre as disposições individuais, potencialmente desviadas, e os interesses soberanos da comunidade que, no auge de seu desarranjo, pode se precipitar contra novos bodes expiáveis, no mais das vezes: seres de exceção, como mendigos, desfavorecidos, inocentes e todos os que ousarem desarmonizar o convívio aparentemente saudável. Desse modo, o efeito da ‘catharsis‘ ou do derramamento de sangue é inteditar pelo escândalo da violência, a crise decisiva da comunidade, cujo ápice potencial é o esfacelamento definitivo em uma guerra de todos contra todos.

§2

Na tradição hebraica dos Evangelhos sinópticos, a figura de Satanás funciona como o príncipe da Acusação: aquele que, sob o viés inesperado da mentira e da discórdia, contagia e faz precipitar o esquema: todos contra todos para todos contra um, a partir do qual, surge o escândalo, a unanimidade mimética e a violência desproporcional, crescentes – como nos faz ver Gustave Le Bon – no seio das multidões ensandecidas, em função de sua inimputabilidade desproporcionalmente numérica e falta de consciência. Portanto, é no espaço anônimo das multidões que os acusadores se projetam, atualizando assim o dilema sacrificial das primeiras civilizações. Em seu cortejo depredante, a vítima é dilacerada, ou melhor, é despedaçada, daí o termo grego para o esfacelamento do corpo sacrificial e posterior incorporação canibalística de sua carne, respectivamente: ‘sparagmós‘ e ‘omophagia‘. Em uma perspectiva diametralmente oposta, tais fenômenos dilapiladores são expressões inconscientes: paródicas ou satânicas da simbologia eucarística, a partir do qual, a vítima é mutilada sem nenhum remorso ou expressão de humanidade.

Sempre que um linchamento se assoma no noticiário, uma pergunta inconfessada se apressa: – ainda que criminoso, por que tanta violência? pergunta que reconcilia ateus, agnósticos e religiosos ao clamor humano por piedade e por misericórdia. Entretanto, se rastreada desde suas primeiras expressões, toda manifestação apiedada se reportará incontestavelmente àquele que primeiro denunciou os mecanismos impremeditados da violência e das multidões ensandecidas: Jesus Cristo. – Ora, mas por que? objetariam os ideólogos da pretensa vida laicizante. As sociedade pré-cristãs – famigeradas pelos mecanismos sacrificiais de suas vítimas imoladas, cujo ápice de sua depredação, implicava a canalização da violência de todos contra um, ao modo de uma cura para uma peste – eram indiferentes aos reclames da opressão e da perseguição, do mesmo modo, indiferentes à noção de vítima. Aliás, apenas com a figura do Cristo é que tais clamores ecoarão mundo afora, depondo os ciclos de violência ritualística e seus mecanismos de depredação, em nome daquilo que desde o profeta Oséias 6,6 já se entreouvia: ‘Eu quero a misericórdia, e não o sacrifício.’ A anunciação da compaixão em contraponto aos ritos sacrificiais é o que desencadeia a mudança do mundo antigo, reajustando a vida humana e sua vinculação comunitária, aos chamados 7 atos de Misericórdia corporaisMateus 25, 35-46

Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheramnecessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram‘. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. “Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram’. “Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?’ “Ele responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”.

Portanto, é no apelo cristão pelos mortos, famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos, desassistidos e penitentes, que se constrói a noção moderna de vítima, e do mesmo modo, aquilo que Jelle Koopmans sabiamente chamou de: ‘o teatro dos excluídos.’ 

Nesse teatro moderno, em que Cristo é apenas um Acusador indevidamente apropriado por gregos e troianos – onde sorrateiramente somos vítimas de acusações violentas ao modo das tramas kafkianas – a qualquer momento essa certeza se antecipa: a correção de uma injustiça nunca está isenta de cair no excesso contrário e certo vitimismo pagão, daí a recorrência inesperada de linchamentos morais, físicos e espirituais.  Portanto, sem a reparação eucarística do próprio Cristo, nem mesmo uma concessão à justiça se justifica. Ademais, e de forma teatral, em um mundo de acusadores pagãos, onde toda a culpa é transferida coletivamente, o fenômeno do linchamento é justificado – como há muito, ou seja, desde tempos imemoriais – pela justiça das multidões: “Atire a primeira pedra aquele que tiver mais pecado.

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