O vazio, como pressentiam os romanos após a destruição sumária de Cartago, também seria um monumento. Quando a atividade política fica aquém de seu propósito, qual seja: fomentar meios da consciência interior compreender a si mesma, em meio à realidade circundante – o vazio se torna seu mais expressivo monumento, estatisticamente constatável em seus desassistidos, mortos, famintos e analfabetos. Em seu vazio, a política favorece triunfalmente não apenas a pobreza e a miséria material, mas do mesmo modo, aquilo que segundo H.L.Mencken é a medida de sua vacuidade: ‘o choque de estupidez.’ Ora, existe algo mais danoso para o espírito humano que a pergunta acalorada sobre qual partido ou qual ideologia deve ganhar uma eleição? Existe algo mais estúpido que a sobreposição apaixonada de um partido qualquer sobre a própria política que o sustenta? 

***

Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar.”

(Fernando Pessoa

***

Por Ivan Pessoa

***

§1

A política, desde os gregos, funciona como autorrepresentação, ou seja, como a capacidade que um indivíduo – em meio ao seu povo – tem de compreender a si mesmo. Quando efetiva e orgânica, a atividade política é um modo de participação do homem na própria realidade circundante, assegurando-lhe a proteção de seus bens, como a vida, bem como o nexo temporal com seus antepassados, a partir do qual o presente é inteiramente justificado. Desse modo, as aquisições político-institucionais são paulatinamente desenvolvidas à luz daquela instância auto-interpretativa outrora relatada, portanto, a partir da tensão entre a ordem da consciência; a tutela dos bens jurídicos e o culto aos fundadores da comunidade, com os quais a própria comunidade se reconhece.

Em linhas gerais, só existe efetivamente atividade política quando há a contínua autoconsciência das experiências motivadoras à fundação do estado atual da vida pública, voltados a uma abertura ou a uma clausura do espírito em busca de representação. Por conseguinte, a partir da abertura ou da clausura desse grau de apreensão da realidade desde a consciência, é que a vida político-comunitária deve ser dimensionada, em que seu alcance último é a experiência de uma sociedade aberta, cujos símbolos são universalmente amplos, ou seja, passíveis de atualização por outras consciências, como o ágathon de Platão, o nous de Aristóteles, o lógos dos estoicos e a homonóia de Alexandre Magno. Ademais, se tomarmos tais símbolos como advindos da autorrepresentação de uma sociedade aberta como a civilização grega, concluiremos que em sua gênese e em seu grau de participação histórico, a sociedade é a alma do homem escrita por extenso e a política sua inscrição. 

§2

No horizonte das análises políticas de uma dada era, o ponto de partida é rastrear desde as vivências mais espontâneas, traços regulares das ações humanas, radicados na consciência como uma entidade real ou concreta, e externadas coerentemente na lida comunitária. Desse modo é detectável – à luz da leitura histórica – que é próprio das sociedades abertas, a noção de que a consciência particular é um microcosmos que incorpora as leis do universo exterior, de modo que o ser consciente é aquele que tenciona – em participação – sua personalidade concreta em um logos superiormente universal; fonte de seus valores, graus hierárquicos e gestos. Aliás, o índice dessa participação cria camadas de apreensão da realidade desde a consciência particular, crescente em torno da relação entre o tempo a eternidade, entre a imanência e a transcendência, entre o passado e o porvir; expressáveis por meio do alcance espiritual a partir das formas simbólicas primordiais, portanto, desde: A) A Imaginação mística; B) A Revelação profética; C) A Noésis filosófica, ascendentes a partir de um plano religioso até uma experiência intelectualmente meditativa, ou seja, autoconsciente.

Portanto, quando efetiva em sua atividade, a política assegura ao homem, uma apreensão consciente da realidade, fazendo-o ultrapassar a rotina da existência – tendo em vista sua sobrevivência em uma perspectiva futura ou além – quanto convoca-o a uma decisão d’alma, ou seja, a uma exigência voltada ao tempo presente e seus clamores mais imediatos. Em linhas gerais, a política é a tensão entre a ordem da alma e os apelos da vida pública consciente, cujo propósito é, segundo os não-imanentistas (Vico, Suaréz e Richard Hooker) o compromisso com uma ordem mística mais ampla, algo que segundo Edmund Burke é o exercício de uma comunidade das almas, que agrega extraordinariamente os mortos, os vivos e os ainda não nascidos.

Feitas tais considerações eis que surge uma pergunta inoportuna, ainda que atual: – O que se espera da política em um período histórico confuso, e, que, do mesmo modo, decalca ciclicamente o conceito referente ao declínio do mundo helenístico de Gilbert Murray de uma espécie de ‘quebra do orgulho humano‘ (‘failure of nerve‘*) ? Aquebrantados, e confusamente vaidosos em nossos próprios equívocos, o tempo atual dá a devida medida de nossa autorrepresentação histórica: o niilismo institucional, ou seja, a falta de eixo, e proporcionalmente, o orgulho enrijecido. Portanto, o traço da política atual é a confusão, perpassável desde o vazio ideológico; a falta de abertura à consciência – isenta de defesas passionais, igualmente partidárias; bem como pela incapacidade de prorrogar – para além dos interesses imediatamente datados – um projeto universalmente desdobrável em outros povos. Desse modo, e com um um aguçado senso de perplexidade, nada do que se pretender verdadeiramente político pode se dar sem o compromisso com o Bem e a Justiça, aliás, sem a presença implacável da ordem da consciência, aquela reserva pessoal que reabilita o homem, responsável por sua honra e ancestralidade. 

Se este ensaio for lido retrospectivamente, e em uma condição nada indulgente à atualidade nacional, remissiva às outras realidades nacionais e seus dilemas ideológicos, eis que se conclui com lágrimas e lágrimas de comoção, em meio ao vazio desses monumentos partidários: a única instância verdadeiramente política no Brasil é o pórtico partido da consciência; a algumas horas de algum lugar ou de lugar nenhum…

*Gilbert Murray e o período confuso da história antiga, ‘failure of nerve’: http://sciphilos.info/docs_pages/abst_Murray_Caution_css.html

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