Por Ivan Pessoa

Sem um diálogo promissor com minha noiva Gláucia, empenhada em pesquisar a relação entre Leon Festinger e Theodore Dalrymple, este pequeno texto – ainda embrionário – não seria possível. Portanto, dedico este texto a ti, G.

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§1

Em um tom demasiado profético, assim admoestou Richard Hertz: “O ressentimento será a dinamite que destruirá a sociedade Ocidental.” Desde dentro, ao modo de uma metástase – no sentido voegeliano – o ressentimento oscila como uma doença d’alma, entre a inveja inconfessada e o vazio da consciência que, no esforço de se afirmar aristocraticamente perante os outros, vacila ante sua pequenez e sua megalomania. O intervalo entre ambos, desencadeia um efeito danoso para o próprio indivíduo, e ao largo, à sociedade; em um diapasão reativo por mim chamado de: voyeurismo vampiresco, ou seja, sintoma contraditório de um comportamento psicopatológico que, na impossibilidade de externar admiração ou nobreza a um objeto interiormente admirado, recai em uma obsessão inconfessadamente in-vejosa; vampiresca por que sedenta por energia vital e fonte de criação, bem como sanguinolenta a tudo aquilo que não vê em si mesmo, mas admira silenciosamente em outrem, e, voyeur por que votada àquilo que gostaria de ser, mas observa entre frestas. (Ver mais em: /voyeurismo-vampiresco/)

Portanto, como outrora relatado, o vampiresco é o capítulo (individual, familiar ou social) jamais externado de um drama interior; entre a admiração e a impossibilidade de confessá-la, o que seria em outros termos, sintoma de uma dissociação ou fragmentação da unidade da consciência. Como consequência, desde o plano individual até o seio familiar, seria a extensão de fracassos jamais superados pela impossibilidade mesma de autoconsciência e reserva interior, destacáveis a partir da autoaceitação, ou seja, constante senso de apropriação daquilo que se é. Por conseguinte, o vampiresco seria um traço de personalidade bifurcada, aliás, confuso: entre sua própria imagem e o dilema daquilo que gostaria de ser, mas ressente inesperadamente em si mesmo.

Ambicionando-o, o vampiresco se projeta inconscientemente contra o modelo almejado, sem se dar conta da natureza de sua própria confusão: admira aquilo que odeia, e odeia aquilo que admira. Em termos genéricos, eis a formulação mínima da inveja inconfessada, perpassável como um drama civilizacional, igualmente analisado pelo psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, na obra: ‘Nossa Cultura… ou o que restou dela‘ (2005). Na obra em questão, Dalrymple nos faz crer que uma série de equívocos individuais, constatáveis a partir do grau de ressentimento familiarmente herdados, se atropelam entre a necessidade de superação e sua inesperada reprodução em um ciclo posteriormente postergado. Portanto, em vez do vampiresco ser transcendido desde suas primeiras manifestações interiores; a partir do ressentimento aos modelos contraditoriamente admirados e recusados, algo inesperadamente acontece, comprometendo – em cadeia – um arquétipo familiar: o indivíduo (por ser alvo de seus próprios mecanismos, avessos à auto-confissão) os reproduz, deixando vago ou descoberto o modelo a ser legado aos filhos e netos. Com efeito, o que se sobrepõe, desde o seio familiar, até a acomodação em outros indivíduos nascentes neste mesmo ciclo familiar, é a frustração, a revolta, o fracasso e a incapacidade de lidar, espontaneamente, como o sucesso ou a nobreza dos outros. Vale considerar que, em determinados casos excepcionais, indivíduos igualmente comprometidos por disposições biográficas familiarmente conflituosas, conseguem imprimir sobre seus próprios destroços, a marca determinante de uma superação, de sorte que seus antepassados são incorporados e imediatamente transcendidos por medidas de reparação interior em torno de um sobre-nome, redimidos a partir de um processo custoso, mas notoriamente heroico, como a capacidade de perguntar a si próprio: “- Estou pronto para restaurar o propósito de minha própria descendência? O que estou disposto a perder em nome disso?”

Desse modo, o que se observa é que, em posição oposta, o vampiresco só pode ser confrontado – desde a reserva interior, no processo intuitivo da autoconsciência – por meio de um espírito voltado ao heroísmo, ou seja, à capacidade de plena doação a um propósito superiormente almejado. Fazê-lo, já é comprometer-se em reabilitar – na ordem preconizada por Eugen Rosenstock-Huessy – os predecessores, os fundadores e os sucessores, ou seja, os mortos, os vivos e os ainda não-nascidos. Daí a sábia consideração de Huessy sobre o tempo sucessivo e suas implicações sobre a personalidade familiar: “O presente não existe em lugar nenhum da natureza, mas podemos criá-lo unindo nossas diversas vidas em um só nome.” (A origem da Linguagem, p. 179). Fomentar diversas vidas em um só nome, ao modo de um continuum supra-individual, religada a um modelo arquetípico familiar que, ainda que mude, jamais se modifica em definitivo, é aguçar um senso nobiliárquico, ou não menos heroico, a partir do qual o nome pessoal destaca um grau de pertença a uma enteléquia ou finalidade maior que suas meras disposições egoísticas. Quando isso não acontece, criando-se entre sucessivas gerações um vazio familiar, o vampiresco se acomoda – desde o indivíduo – como um indício de personalidade, naquele nível esboçado por Carl Jung como: ‘sombra‘, ou seja, como um resíduo inconsciente reprimido de não aceitação, ainda que projetável por meio de gestos, palavras e sonhos. Quando acomodado ao longo das gerações, o vampiresco se enrijece ao modo arquetípico de uma autorrepresentação, o que favorece uma visão de mundo (Weltanschauung), e por sua vez, um grau de participação na realidade, retoricamente convidativo aos espíritos igualmente vampirescos, tendentes à partilha e à medida de seu fracasso a partir do arrebanhamento institucional, perpassável em agrupamentos coletivos. Vitorioso, e jamais confrontado perante o espírito heroico dos propósitos familiares ancestrais, o vampiresco tende ao discurso ideológico-institucional, cuja principal fonte de fundamentação é a necessidade de compensação pelo lapso familiar jamais identificável em nome próprio, reparável por medidas de: perfectibilidade, desvinculação com o passado e contínuo meliorismo. Em linhas gerais, a partir deste lapso, o politicamente correto e a luta por um mundo melhor se tornam, segundo Dalrymple, o retrato de uma época em largo medida: ressentida, ou seja, vampiresca.

Como não se esgota aqui, pretendo levar a discussão até o seio das ideologias, rastreando desde seus expoentes, a medida de sua inveja e ressentida condição. Certamente, o farei em um próximo texto. 

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