Por Ivan Pessoa

§1

A atividade filosófica, contraposta àquilo que escrevi em: ‘A filosofia é um outro departamento?’ (a-filosofia-e-um-outro-departamento/) é um exercício intelectual contínuo, incansável e intuitivo; não apenas próximo, mas dependente da investida noética de quem a propala em busca de princípios ou causas. Desse modo, sendo uma experiência que surge da capacidade e do esforço pessoal de apreensão do sentido universal das situações imediatamente particulares, e, ademais, sendo uma atividade genuinamente noética, ou seja, intuitiva, a atividade filosófica surge – como pressuposto – da estrutura da consciência daquele que, ao desnudar a si mesmo; investindo anamneticamente sobre suas próprias disposições e inquietudes intelectuais: crescentes ao longo da vida, ao redor do Ser e da Verdade, almeja compreender a realidade, aqui entendida como um fundo a partir do qual tudo é possível.

Portanto, em um extremo que parte da tensão entre a própria consciência, como uma entidade concreta, vivente de situações particulares, o exercício filosófico – intuitivo e pessoal – é consequência do assombro equivalente às experiências originais anteriormente sedimentadas por uma tradição; e os perenes esforços humanos em compreender a realidade, daí a observação mínima, segundo a qual: não há um discurso originariamente filosófico, depurado – desde sempre – sem uma visão de mundo anteriormente cristalizada em formas simbólicas, provenientes do discurso mito-poético, bem como no seio das expressões religiosas e espirituais. Ora, mas de que forma isso é filosoficamente corroborado?

As experiências originalmente filosóficas ou noéticas – desdobráveis analogicamente entre homens, povos e civilizações – surgem como uma intuição no plano da episthéme – como: uma descrição verdadeira da estrutura da realidade -, a partir de princípios (‘archai’), algo, sobretudo, consagrado entre os gregos. Entretanto, o que antecede tais experiências, desde as representações mais elementares da religiosidade pagã, é a crescente abertura e maior ordem da alma, ansiosa por um maior grau de participação no Ser, ou seja, por um fundamento que, como um oráculo e fonte imediata da autointerpretação, não apenas ultrapasse a rotina finita da existência, mas do mesmo modo, convoque à uma decisão eminentemente pessoal, algo como um anseio fundamental à realidade.

Daí a certeza de que, paulatinamente, e em termos de civilização – ao modo dos gregos – um maior grau de participação no Ser, simbolizável desde suas tragédias e mitos fundadores, desencadeia uma experiência cósmica primária, segundo a qual: a consciência é um microcosmos que reflete e incorpora as leis do universo exterior, patente, posteriormente e sob um primeiro registro de orientação noética ou proto-filosófica, a partir dos pré-socráticos – para os quais: a realidade total da physis encontrava-se oculta impremeditadamente em seus elementos; até consagrar-se com Aristóteles; para quem: o cosmos seria hierarquizado (‘táxis‘) desde a matéria-prima até a divindade, de modo que seriam inter-relacionados. Portanto, o símbolo – fonte interpretativa a partir do qual toda experiência intelectual encontra fundamento – como matriz de intelecções (vide: Susanne K. Langer em: ‘A filosofia em nova chave‘) é como o limiar conectivo ou fonte da correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo; entre homens e deuses; entre o tempo e a eternidade, portanto, como um horizonte primordial por fundamentos. Em linhas gerais, o símbolo convoca à tensão – seja nas primeiras experiências míticas, seja, a posteriori na tradição filosófica, o que, mutatis mutandis e em termos platônicos, seria a methexis.

Desta forma, o mínimo da experiência filosófica – seja em sua gênese histórico-epocal, seja na biografia de um filósofo – é uma estrutura tencional, ou para usarmos a expressão aristotélica: uma dimensão  metaléptica – crescente como um anseio por fundamento, constantemente reavaliada – por quem a vivencia – a partir de uma circunstância atual (uma condição histórica), por uma tradição apinhada de símbolos (uma Weltanschauung anterior), e por um constante exame de consciência (uma pré-disposição vital à Verdade). Ademais, o mínimo dessa experiência tencional é constante a partir de três vetores mutuamente compreendidos:

A) a realidade que, como fundo a partir do qual tudo é possível, pode igualmente ser compreendida como atualidade perene, ou seja, como horizonte prévio a todo e qualquer acontecer, portanto, enquanto um pressuposto. Por não ser simbolizável, em definitivo, é fonte permanente do eixo da tensão;

B) a participação no Ser, perpassável ao redor dos símbolos primordiais como nos mitos, nas epopeias e na Revelação com suas fontes alegóricas, doutrinais, religiosas e proféticas, a partir dos quais a consciência cria camadas de apreensão da realidade até concentrar-se intuitivamente nos atos que realiza, empreendendo assim uma tensão entre a personalidade concreta e uma verdade universal que a transcenda, em busca de seu fundamento último. Quanto maior a abertura da alma, maior o grau de participação da realidade, algo que, para o exercício noético-filosófico particular, é exigido durante anos e anos de formação, em um horizonte que necessita da suplementação simbólica tão cara às expressões poéticas, religiosas e estéticas da realidade;

C) a estrutura noética da consciência que, como um ato interior da inteligência (‘mens‘) exige reconstituir mentalmente a unidade intangível de si mesma via anamnesis (atenção meditativa, auto-transparente), bem como, algo como uma ‘sub species unitatis‘ da própria realidade; a partir de seus próprios princípios, ou seja, a partir de verdades primárias, especulares à própria consciência.

Portanto, o mínimo exigido ao exercício filosófico, que surge enquanto um acontecimento na história vital daquele que o exercita, é tencionar a consciência; e seu caráter noético-intuitivo, em meio ao maior índice de participação no Ser e na realidade, algo que o destaca como um exercício zetético, ou seja, em constante busca. Fazê-lo é rastrear, desde tenra idade, as primeiras impressões sobre o mundo. Mas não apenas isso, é, sobretudo, observar em traços biograficamente resgatados à luz da consciência, o grau de participação no Ser, e, do mesmo modo, toda investida desinteressada ao redor da Verdade. Tal exercício que, não apenas determina aquilo que, segundo os medievais, seria constitutivo à atividade filosófica como um impulso centrífugo do centro da personalidade à sua periferia acidental – ajustáveis e crescentes a partir dos princípios da realidade – seria complementar àquilo que a teologia mística chamaria de ‘scintilla animae‘, ou seja, ao fundo incandescente da intimidade da alma.

Qualquer empenho supostamente filosófico que toma a realidade, a participação e a consciência como estruturas conceituais minimamente sistêmicas, leva a filosofia a um abismo não apenas cognitivo, mas impremeditamente espiritual, haja vista, a palavra latina, sinônimo de saúde intelectiva – ‘mens‘ – e seu contraponto ‘demens‘, origem da palavra ‘de-mência’ ; fenômeno que, por vezes, se torna constatável tão logo a curiosidade se apresse, em busca da primeira universidade de Humanas, cujo curso em questão seja ligeiramente filosófico. Destarte, tal curiosidade esbarra na espirituosa frase de Brunschvicg sobre o espírito epistêmico-científico que, ao compará-lo a um fotógrafo, enseja – pelos mesmos motivos intelectualmente sistêmicos, esquemáticos e metódicos – um decalque da filosofia protocolar face seus conteúdos especializados: “Atenção! Vou tomar-lhe a imagem; não se mexa.” Qualquer expectativa filosófica que a isso se volte, recai, sem o saber, no horizonte espiritual da de-mência, com efeito, o eixo da relação entre realidade, participação e consciência é um eixo tencional; jamais sistêmico. Ademais, jamais se esgota por advir originalmente das investidas humanas – via seus símbolos primordiais – perante a realidade. 

Como a fonte da experiência filosófica jamais é sistêmica – como o anseio redutor do personagem fotógrafo de Brunschvicg – mas noeticamente tencional, a partir da relação entre a realidade, o grau de participação no Ser e a própria consciência, às voltas consigo mesma e em busca de princípios; logo se pode concluir que, quando verdadeira, tal experiência filosófica tende ao centro da realidade, ao centro da participação, e, do mesmo modo, ao centro da consciência. Quando em constante fuga, em uma evasiva investida à periferia – acidental e episódica – o anseio supostamente filosófico padece de especialismo, ou seja, aos lapsos particulares de uma visão fragmentada. Por contrariá-la é que Nietzsche ridicularizá-lo-ia, depondo-a na imagem de alguém que, cioso por notoriedade, se empenha durante toda a vida em pesquisar a estrutura cerebral de uma sanguessuga. Pode a verdadeira filosofia, a mínima – por que simbolicamente total – pesquisar a estrutura cerebral de uma sanguessuga, sem ver – no horizonte de sua grandiloquente especialidade – a face de sua própria de-mência? Qual a finalidade da filosofia senão tencionar os eixos dos três centros anteriormente elencados que, por certo, subsumem analogicamente em um único vórtex: a busca pela Verdade? 

Dilemas e contra-dilemas à parte, de que forma um verdadeiro filósofo, ou mesmo um entusiasta deste notável conhecimento, se safaria perante a questão de Juliana de Norwich (‘Revelations of divine love‘) que, tendo em mãos um minúsculo, e por que não, mínimo avelã, foi imediatamente convocada a uma intuição capaz de reorientar sua própria vida. Por um processo noético de imediata intuição, Juliana pode entender que o Amor de Deus sustentava tudo que existe, como uma avelã a descansar em suas Mãos. Fazendo para si mesma a intricada pergunta, Juliana noeticamente respondeu: ‘Isto é tudo o que existe?’ Por um critério eminentemente intuitivo – apto a separar o verdadeiro filósofo do especialista – e perante um mínimo avelã imaginário a simbolizar a totalidade efetiva, cabe a pergunta: em tudo o que existe, há realidade, Ser e consciência, ou, tudo é obra do acaso, do Nada e do instinto? Quem não pensa sobre o mínimo, pode pretendê-lo ao máximo?

Responder com uma única pergunta – mínima, inesgotável e tencional – às questões há muito irresolutas ao gênero humano, é o indício do centro motivador de toda uma filosofia, proporcional à humildade e à sabedoria. O contrário disso é a resposta mais pretensamente especializada; estreita e ramificada como o cérebro (de avelã) de uma sanguessuga. 

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