De antemão é necessário frisar que este texto é uma reflexão sobre um artigo de opinião do humorista Gregório Duvivier, publicado no último dia 17/08/2015, no Jornal Folha de São Paulo; em resposta às manifestações do dia anterior contra o governo Dilma Rousseff. (/nao-era-amor-era-cilada.) Em linhas gerais é um texto sem implicações pessoais, voltado exclusivamente à questão: – Qual o preço de uma ideologia e quem a financia? Portanto, desconhecê-la nos seus bastidores mais subterrâneos, ou mesmo relevá-la financeiramente, é sinônimo daquilo que muitos chamam de idiotia útil, fenômeno que sub-repticiamente se reporta ao emblemático caso do Conde Victor de Lustig, o único, suficientemente corajoso que teria ludibriado Al Capone e, com o mesmo êxito, teria vendido a Torre Eiffel para um desaviado em plena Paris. Sim, vendido a Torre Eiffel! Desse modo, nada evoca mais o sentido do idiota útil e sua cordial ingenuidade, que a clássica frase do Conde Victor de Lustig: “Tudo perde a graça se não tenho um otário em perspectiva.” 

Cada vez que pessoas bem intencionadas, ou mesmo ingênuas, saem às ruas para defender um governo corrupto – como esse que nos cerca – bem como em outro lugar, aqueles que o financiam, dando recurso e ocupando a mídia, acabam por atualizar as palavras de Lustig: “Tudo perde a graça se não tenho um idiota (útil) em perspectiva.” Portanto, esse texto é sobre os sintomas contemporâneos dessa patologia. 

Por Ivan Pessoa

§1

A palavra ‘rubrica’ significa: ‘vermelho’ em latim. Desde a Idade Média, onde surge para diferenciar as letras maiúsculas e minúsculas, realçando o caráter especial do pigmento em primeiro plano, rubricar é sinônimo de destaque. Passados todos esses séculos, o ato de rubricar tornou-se o símbolo cartorial da vida moderna, aquartelada entre repartições e carimbos protocolares, ao modo de um marca digitálica dos anônimos ou da sobreposição de alguns dentre os demais. Entretanto, sem mesmo desconsiderar sua remissão histórica, ou seja, sua etimologia notavelmente medieval, ainda hoje rubricar pode ser um elemento distintivo, ademais, pode representar a expressão nominal de uma avantajada posição de toda sorte, almejável em nome do favorecimento. Desse modo, em uma realidade publicamente atômica ou popularesca, assinar o próprio nome; rubricá-lo, pode tanto significar a minúscula inscrição em branco quanto a maiúscula superestimação, facilmente encadeáveis nas palavras: ‘ – Sabes com quem tu estás falando?’

Portanto, a capacidade inesperada de assinar o próprio nome, realçando-o desde a rubrica, torna-se a medida do prestígio e do poder alcançado durante toda vida (lícita ou não), em uma realidade circundante – miserável e pauperizada – onde, com relativo otimismo, todo mundo é ninguém ou, em determinados casos, menos que isso. Nesta mesma espiral, cotidiana e pública – de um anonimato fosco, quiçá, o único sentimento que surja, seja a inquieta e inconsciente necessidade de autoafirmação, com seu anseio de destacar-se, algo que, quando não realizado, só tende a desencadear revolta e ressentimento. Aliás, como não se compadecer com o verso de John Greenleaf Whittier (?): “Nem nome, pompa ou posição, ela traz consigo, a democracia no jazigo.” (‘The grave by the lake’).

No anonimato de uma democracia tumular, como no poema de Whittier, a busca por ser mais e a consequente necessidade de ascensão, favorece o encontro de outros igualmente apequenados; empenhados em rubricar em destaque o próprio nome, quase sempre nascidos em meio ao inexistente nome familiar: soma ocasional entre oportunismo e espírito coletivo que, na partilha de revolta, fracasso particular e ressentimento, só logra êxito com a formação de uma causa pretensamente nobre e sua futura incorporação ideológica em um nome absoluto, fenômeno consignável desde a Revolução Francesa, em partidos políticos. Desde aquela revolução, a gradação ideológica pode ser contraposta entre duas cores: azul e vermelha, entre extremos de concórdia e rebelião.

Desta forma, para um ninguém com questionamentos constantes e frequentes sobre si mesmo e, sobretudo, advindo de uma família igualmente anônima, nada mais natural que reparar suas deficiências e aspirações, não apenas culpando toda a sociedade, mas igualmente projetando no sonho redentor de seus entusiasmados correligionários, a compensação de sua rubrica: hesitante, frágil e inexpressiva. Se nada evocar nobreza ou extraordinariedade, na espiral de fracassos individuais e familiares, uma das vias possíveis é tornar ideologicamente violenta a observação de Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff: “Para fazer os antepassados falarem, precisamos alimentá-los com nosso próprio sangue.”.

§2

 Destacando-a ou buscando-a em meio aos compromissos do próprio partido, a marca de tinta repara todo o anonimato imediatamente anterior, em um anseio pessoal que se compromete cinicamente com justiça social, a pobreza, a fome e a opressão, à custa dos meios mais espúrios para repará-las. Entretanto, para qualquer pessoa minimamente lúcida ou esclarecida, a pergunta que se apressa é a mesma esboçada pelo historiador Antony Cyrill Sutton (‘Wall Street e a Ascensão de Hitler’, 1976), outrora, empenhado em rastrear as fontes de financiamento do regime nazista:      ‘ – Quanto custa uma ideologia, ou melhor, quem financia uma revolução?’ Por ora, a pergunta se ramifica em outra inquietação: ‘ – Pode uma rubrica se sustentar sem capitanear uma fonte permanente de recurso?’ Desse modo, e com o olhar mais crítico, se pode observar que nenhuma mudança pretensamente estrutural, proveniente de um programa partidário, pode almejar o poder sem abastança monetária, nem mesmo a mais crucial das revoluções, com efeito, nenhum anônimo em nenhum momento da história fora capaz de desdizer esta lei, ou seja, capaz de se projetar sem uma rubrica financeiramente custeante. Na história recente do país, esta rubrica se chama: Partido dos Trabalhadores, de modo que, passados uns anos – um dia, um historiador concluirá que o maior programa social do Brasil pretérito, teria sido se filiar àquele partido, afinal o filiado rubricaria seu nome através de uma série abusiva de benesses e privilégios, decerto jamais acessíveis ao cidadão comum.

Em retrospecto, este mesmo historiador observará que, ao largo de reivindicações sindicais, campesinas, bem como no desfecho violento da Ditadura Militar com seus mártires exaltados, a bandeira e a causa trabalhista, há muito encampada por aquele partido, só ascenderia com a oferta jamais espontânea ou descomprometida do empresariado, igualmente interessado nos eventuais dividendos daquela rubrica. No futuro, aquele historiador elencará em um crescendo há muito esperado, uma série de escândalos – ainda que a soma entre Mensalão e Lava-Jato já esteja esquecida, tendendo naturalmente à certeza de que nenhuma causa pode ser exitosa sem franquear seus propósitos a severas concessões, de modo que – em ambos casos – a pergunta destacável para a história recente do país, e para as relações políticas será a episódica construção tipográfica medieval: ‘ – De quem é a rubrica?’ Do mesmo modo:   ‘ – Quantas empresas, empreiteiras, construtoras a financiaram? Quantos bilhões foram dispensados sob o peso irresponsável daquela tinta vermelha de sangue; sangue de famintos; sangue de doentes; sangue anônimo?’ Ao redor daquela mácula partidária, e igualmente desbotada, restará – para um historiador sem nome – uma dor agônica, pulsante entre a incompreensão e o estupor: ‘ – Em meio a tantos escândalos, muitos ainda os defenderam orgulhosamente? Como defender aquilo que, em rubrica, se destaca como uma nódoa de sangue?’ Seja em um futuro imaginário, seja em qualquer circunstância história, a defesa e a precipitação ao indefensável é obra de mau-caratismo, quando não, é um nome clínico para a idiotia. Portanto, em meio a toda sorte de escândalo, entre ruínas de desfaçatez, apenas um anônimo, acercado por uma centena de fracassados morais, pode justificar aquilo que, a despeito do clamor ideológico, é mais que evidente: a rubrica petista construiu o maior esquema de corrupção da história recente deste país, provavelmente, superável apenas com mais documentos por rubricar. Desse modo, se rastreada desde o passado, a conclusão que se chega é que apenas uma seita, amalgamada com um verniz político, pode dar nome a tantos salvadores, profetas e idiotas úteis – dando-lhes um propósito relativamente superior às suas próprias mesquinharias, com a diferença de que o último, o mais quixotesco, sabe e professa tudo, menos a mais simplória das questões: ‘ – Quem financia a minha profética ideologia? Quanto custa financiá-la? ’

§3

Por uma conveniência teórica, compreender uma seita idiotizante, como a atual, nos leva à ideia episódica de algo como um pelagianismo psíquico, afinal este tem sido há muito a mais promissora das heresias, e que se sustenta na ideia de que o homem pode – sem qualquer intervenção divina – salvar voluntariamente a si próprio, posição herética que se espraia em correntes político-ideológicas desde o surgimento da modernidade, a partir da ênfase coletivista e seu bom-mocismo ocasional: ‘ – ajudai os pobres, nem que se façam necessários: roubar e usurpar os ricos, assaltar ou mesmo sequestrar. Em nome da causa, tudo é justificável. ’ Seguindo a fórmula de um dos maiores filósofos do século XX, Eric Voegelin, o que se segue é uma constatação: “O idiota útil é uma variante do pelagianismo.” Se a ideia voegliana for ampliada para as relações imediatamente cotidianas, a partir da publicidade das discussões e das posições políticas, a fórmula da idiotia útil se apresenta de súbito como o retrato de uma geração cada vez mais assoberbada, que cumpre uma agenda; e determinados interesses, sem o saber, de modo que basta sustentar chavões e expressões voluntariosas, em meio à opinião pública, para que o idiota deponha contra si mesmo, entoando coisas como: mais amor, menos capital, em um esforço deliberado de salvar o mundo das maquinações do capitalismo, sem ao menos perguntar à própria consciência ou aos próprios companheiros: ‘ – Ora, mas quem financia a medida de nossa nobre rubrica partidária?’ Se a mesma pergunta for feita por qualquer petista ou pela fileira extensa de seus idiotas úteis, a fonte de financiamento vai desencadear um efeito duplo, observando proporcionalmente a origem de toda a máquina estatal e sua campanha em nome da erradicação da pobreza, bem como a autojustificada certeza de que, pelo menos, o capital se redime quando de sua investida no âmbito social, como se uma das funções do capitalismo não fosse exatamente isso: gerar riqueza, sem salvacionismo ou rubricas partidárias.

Por um exercício didático, decorrente da última manifestação contra o Governo Federal e suas digitais corruptas, porém, envaidecidas, no dia 16 de agosto – duas posições se exacerbaram imediatamente: uns que saíram às ruas, indignados, e com razão – e outros que, por sua vez, se alternaram entre o contraponto dialético e a idiotia retórica. Aqueles que se contrapuseram até com certa discrição, certamente o fizeram por interesses particulares, arregimentados em função da rubrica e seu peso ainda reinante. Enquanto os outros, com efeito, os mais passionais, alternaram salvacionismo pelagiano com a imediata utilidade da idiota: exaltando os feitos exitosos do Governo, sem mesmo considerar o custo e o preço corrompido daquela rubrica, sustentado pelo caráter contraditório do falso moralismo do passado e a imoralidade cínica no presente. Destes últimos, entre os mais pelagianos ou idiotas possíveis, destacaria – por razões didáticas – um texto publicado pelo humorista Gregório Duvivier no ‘Jornal Folha de São Paulo’, no dia imediatamente posterior às manifestações, cujo título já antecipava a medida de sua idiotia: ‘Não era amor, era cilada. ’ Afora o esforço heroico do humorista de descredenciar aquelas manifestações, leia-se – em todo território nacional, e, em pleno domingo, com a estimativa de 879 mil a 2,0 milhões de presentes – quiçá, seu maior êxito tenha sido, em uma única lauda, destacar didaticamente tudo o que fora dito anteriormente, o que, em outras palavras, pode ser resumido na sua espantosa, e não menos idiotizante premissa, de que faltava amor àquelas barricadas antipetistas.

Existe algo mais pelagiano que imaginar uma salvação intramundana, custeada por homens ideologicamente engajados, com rosas em punho – lutando em nome da missão suprema do amor, cujo pressuposto é fomentá-la por meio de medidas soberanas de um partido único; como se – para tanto – fosse humanamente possível imaginar líderes expressivos como Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Ceauşescu promovendo-a em um domingo de sol, contra a corrupção da sociedade burguesa? Existe algo mais idiota que isso, afora o fato de ser expressamente pelagiano? Pode o clamor popular, como aquele que destitui usurpadores do erário público, ser constrangido em suas mais espontâneas demonstrações de repúdio, voltadas a um governo notoriamente corrupto, sem para isso se questionar se o faz ou não com afagos e carícias? Ademais, pode o amor ser protocolarmente exigido, como quer o humorista, desconsiderando os custos reais daquela rubrica que, ironicamente, o mesmo defende? Se levada a sério, como compreender o Impeachment do ex-presidente Collor, eleito e posteriormente enredado em um primário esquema de corrupção, primário em comparação aos últimos escândalos petistas? Por fim, lendo de trás para frente o texto desse idiota útil, Gregório Duvivier, constatei a ideia voegeliana sem nenhum esforço, bastando para isso o desfecho: “Toda revolução é uma obra de amor — caso contrário, é golpe.” Desde quando o Amor faz revolução, se o Amor sendo renúncia depõe suas próprias armas aos pés do inimigo? Com efeito, como diria Santo Ignácio de Loyola: ‘abster-se de lutar é alcançar a sagrada indiferença (desapego). ‘ Pode alguém amar aquilo que não é passível de desapego, por meio do qual, é capaz de renunciar, inclusive, a si mesmo e aos seus próprios interesses: ideológicos, políticos ou religiosos? Portanto, por razões óbvias: ‘Toda revolução (…). é golpe.” Do mesmo modo, o único gesto de amor que nos interessa, no fervor cívico desses dias, é rubricar – desde o voto da consciência – o nome de todos nós;  aquele tão desbotado sobrenome: Brasil.

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