E andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras. (…). E, quando viu Jesus ao longe, correu e adorou-lhe (…). E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: – Legião é o meu nome, porque somos muitos.” (Marcos, 5:9).

Por Ivan Pessoa

§1

Entre os achilpas, tribo Arunta (nômades australianos), o ser divino Numbakulla fundou não apenas a própria ordem gentílica de seus ancestrais e descendentes, mas do mesmo modo, todo o mundo cosmicamente constituído. Do tronco de uma árvore da goma, Numbakulla moldou um inquebrantável poste sagrado (kauwa-auwa) e tendo-o ungido com sangue, enredou-se no mastro, ascensionalmente, para logo em seguida desaparecer nos céus. Segundo os achilpas, o poste é indicativo do centro do mundo (axis mundis), cuja envergadura ascendente sobre a Terra, revela o eixo cósmico, tanto quanto consagra – em reminiscência – a fundação de tempos imemoriais. Portanto, sua evocação é sacramental, pois que reabilita a vida terrena entre os aldeões, de modo que sua quebra ou torção é a catastrófica antevisão do fim do mundo. Para cultuá-lo reverentemente, sacríficos são indispensáveis, senão imprescindíveis.

kaua aua

(kauwa-auwa: o poste-limiar dos mundos entre os achilpas australianos)

§2

Para a visão pagã – um poste sagrado como entre os achilpas – representa os pilares cósmicos, que desde suas fundações sustentam o céu, assegurando a via intercomunicante com os deuses, de modo que, por sê-lo, se torna o intervalo entre duas categorias radicalmente extremadas: os céus e a Terra. Como uma passagem, aquele poste simboliza um limiar entre homens e deuses.

Por conseguinte, a ideia de um centro cósmico equidistante (axis mundis); de um pilar (universalis columna), evoca tanto um análogo temporal (filius macrocosmi), bem como um espaço contínuo que não separa a fisicidade do plano material, da invisibilidade do plano astral (unus mundus), de modo que o mundo se torna imediatamente numinoso, ou seja, sagrado, fascinante e epifânico. Por oportuno, conciliar-se-ia tal estado delirante e coletivamente clarividente, nas definições estéticas da catharsis aristotélica, no sublime de Edmund Burke e na terribilitá que Giorgio Vasari atribuíra à Michelangelo, ou seja, como uma súbita experiência de criatura que, face à sombria e inefável presença divinal, tenciona admiração com medo; um estado pânico com devoção. Tal experiência pânica, entre o espanto e o culto, tenciona a religação cósmica com a necessidade de rememoração, cuja conciliação se preserva a partir dos ritos, extintos quando de sua transgressão.

Ora, mas o que fomenta – na visão pagã – a travessia limiar dos deuses, cuja intercomunicação – desde o eixo cósmico ou de seus pilares – descem à terra para conservar os vínculos mais profundos de sua permanência senão com a recorrência de ciclos rituais? Qual o mecanismo que anima o fluxo contínuo da vida comunitária, desde a fundação do mundo, e sem a qual, os processos societários são igualmente estancados, desencadeando uma crise apocalíptica decisiva? O que sustenta a vida integral das sociedades pagãs é a espiral corrente do sacrifício (sacrum facere: tornar sagrado), renovada na tensão entre vítimas e a precipitação ritualística, cuja fórmula é: todos contra todos convertida em todos contra um. Por conseguinte, em menção aos achilpas, é como, se – em honra ao sangue sagrado de Numbakulla – sua divindade só fosse evocável, ou mesmo cultuável, com a compensação de mais sangue em seu nome, de modo que a espiral da mentalidade pagã se funda na intermitência do sacrifício, precipitado em memória e sagração do gesto primordial.

Ao modo dos achilpas, que concebem Numbakulla como aquele que interconecta os planos limiares (céu e Terra), e em seguida, desaparece; tanto como em qualquer sociedade pagã, haja vista, a pessoa primordial de Purusha entre os Vedas, que se oferece à fundação e criação do mundo às custas do próprio sacrifício em oferenda (yajna), por meio da qual, desde sua dilapidação faz surgir as castas indianas – o traço constitutivo dessas sociedades é que sua conservação se deve mais ao sangue de uma vítima coletiva divinizada, e menos, por suas disposições técnicas, ou mesmo, proto-tecnológicas. Portanto, é do sangue divino primordial que advém a virtude inconsciente e potencial desses povos, investidos em um ciclo sacrificial implacável, de modo que, quanto mais violento, mais vívida se torna a comunidade. Ademais, é do assassinato coletivo de uma vítima auto-sacrificável que se sustenta o axis mundis dessas sociedades, em que, sob os pés do mastro, o sangue inocente é vertido em libação; renovando assim o ciclo epocal da fundação cósmica.

§3

Como é obra da mentalidade coletiva, espraiada no limite da unanimidade inconsciente, a assimilação da culpa dos aldeões pela dilaceração das vítimas imoladas em nome do deus primordial, jamais é assentada tacitamente, de sorte que, via compensação sacrificial; preservados no seio da ritualística communio sanctorum, ou sagrada comunhão – os dilapidados são superiormente redimidos, o que nos lança à certeza de que para a mentalidade pagã, os deuses não surgem dos céus, de súbito, mas são vítimas divinizadas. Os deuses são vítimas ressurretas e triunfais que reaparecem por providências misteriosamente sobre-naturais e com anseios de vingança, reparável apenas com mais sangue. Sua reaparição, quando não compensada com novas vítimas, é antecipada por sibilinos sinais ou augúrios, seja por cataclismos, tempestades, pestes; seja por invasores, maus presságios ou guerras iminentes. Portanto, como se sucede em uma espiral sanguinolenta, cuja celebração de sua vitória é igualmente violenta, afinal é retroalimentada com o sangue derramado nos sacrifícios rituais em con-sagração ao deus primordial, tudo leva a crer que o fim mesmo do paganismo é renovar ad infinitum a fundação do mundo, preservando a ordem, assentada em uma unanimidade violenta que, indiferente ao clamor do sacrificado, tende a imolá-lo retrospectivamente, como a agonia de Tântalo, Ixion, Sísifo. Desta forma, a função do ciclo sacrificial, além de inconsciente no seio da comunidade, é dupla: preservar a ordem pela precipitação de novas vítimas aos pés divinizados do deus primordial, que surgirão ciclicamente ressurretas e triunfais, caso o ciclo seja afrouxado, bem como impedir a comunidade de regressar ao estado crepuscular do caos, da zona indivisa do informe noturno. Ora, mas quem primeiro denunciou os mecanismos desse inconsciente senão o Cristo: “Portanto, ide aprender o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifícios’. Pois não vim resgatar justos e sim pecadores’”? (Mateus, 9:13).

gay186

No preliminarmente citado episódio de Gadara, nos Evangelhos Sinóticos, mais especificamente em Marcos, para se livrar da multidão que o cerca, Jesus Cristo sobre numa barca e chega em um território estrangeiro, cuja representação é essa: confrontar sua divindade perante a mentalidade pagã. Ao descer do barco, um homem possuído o interrompe, de modo que ao ser interpelado por Cristo sobre seu nome, o endemoniado responde: “Legião é meu nome, porque somos muitos.” Em seguida, o próprio endemoniado pede ao Cristo que não disperse a multidão convulsiva que lhe obsedia pela região, sendo em seguida arremessada na manada de porcos que por ali pastavam, montanha abaixo. 

Em linhas gerais: por ser inconscientemente muitos, o gadareno não é Ninguém, episódio que evidencia – em contraponto – o elemento distintivo da mentalidade pagã, inimputável posto que despersonalizada. Na dissociação de sua própria personalidade nenhuma, o gadareno é o símbolo do paganismo: dilapidado pela multidão que o obceca desde os estilhaços ou fragmentos de sua persona confusa. Por ser a encarnação da multidão, seu eixo de personalidade em constante auto-acusação, é, para usarmos uma expressão de Jean-Pierre Dupuy: um símbolo pânico, ou seja, proveniente de Pã; deus das multidões violentas. Sendo pânico, o gadareno é constantemente apropriado em fervores coletivos, por meio do qual, se renovam os ciclos sacrificais, inconscientes ou inimputáveis, ao modo do Leviatã, que em sua etimologia hebraica significa: anéis espiralados, ou seja, fragmentos enredados concentricamente em si mesmos. 

No instante em que um gadareno pânico ou coletivo, se apropria do discurso cristão com seu vocabulário anti-sacrificial e interdição dos fulgores da violência: de todos contra um – em meio às convulsões históricas – o logos ou o Evangelho do Cristo se torna uma paródia da Parúsia, ou seja, de sua Segunda Vinda. Desta forma, como um elemento simbolicamente depreciativo, o êxito histórico do gadareno é roubar do Cristo, a redenção, parodiando o corpo eucarístico do Redentor; como se torcesse o poste de Numbakulla dos céus à Terra. Daí a observação de Thomas Merton, como um interdito aos apelos desse gadareno coletivo: “Berdiaev fez notar que outrora líamos coisas concernentes a utopias e nos lamentávamos por não poderem ser realizadas. Agora, porém, estamos conscientes de um problema muito maior: como impedir as utopias de se realizarem.” (‘Reflexões de um espectador culpado.’).

51Majkh+M9L._SX322_BO1,204,203,200_

Portanto, nada é mais utópico que torcer o poste do sagrado, redimindo a condição histórica, esvaziando-o do sentido litúrgico que o próprio Cristo imprimiu sobre a história daquela interdição, interrompendo os ciclos sacrificais, de modo que qualquer apelo humano sem o Cristo é uma ‘nostalgie de la boue‘, ou seja, uma nostalgia da lama, paganizada como a epiderme fétida dos porcos precipitados falésia abaixo. Sem a presença do Paráclito, tudo mais é Acusação; sangue e vitimismo, engendradas pela inconsciência de um gadareno pânico e coletivo. 

Desta forma, sua insinuação paródica ou demoníaca, se dá em três frentes: A) na apropriação discursiva, pretensamente fraterna, justa e igualitária que sobrepõe uma langue de bois policialesca e vitimizadora, insinuando a construção de um mundo melhor a partir da desconstrução da linguagem com a tendenciosa promoção de um vocabulário público, politicamente correto, muito bem expressa na ‘novilíngua‘ de 1984, por George Orwell; B) no despedaçamento do corpo e da dignidade pessoal, sucumbidos por apelos coletivos de saciedade ilimitada, entre o ‘agonie ennuyause‘ (spleen; tédio romanesco) e os excessos mundanos (sexo venéreo, drogadicção); C) o ressentimento, cuja revolta convulsiva; assente sobre uma personalidade fragmentada, oscila entre a inveja e a supercompensação, de modo que a correção de uma injustiça sempre traz consigo o excesso imediatamente contrário, haja vista, todas as matizes ideológicas e constructos retóricos, constantes na denúncia de Dryden: “antigas consciências com novos rostos.” 

Se para as sociedades pagãs, a representação imaginária de um gadareno coletivo é a conjunção de homens igualmente esfacelados, cujas partes do corpo são elementos relativamente confusos de criaturas distintas, advindo daí a noção de monstruosidade numérica, haja vista, o próprio Leviatã – logo se observa que a eleição das vítimas se dá a partir de traços igualmente repulsivos, potencialmente capazes de contaminar a própria sociedade; como os abcessos de um leproso, as feridas de um pestilento, a deformidade congênita de um aleijado. Como em um espelhamento reativo, a monstruosidade do coletivo se precipita face a monstruosidade do deformado, afinal um duplo se antecipa inconscientemente, ou seja, se não estancada a tempo: todos se deformam igualmente. Portanto, para estancar o ciclo sacrificial, Cristo faz ver, desde a monstruosidade acusatória do coletivo, daquele gadareno pânico, que cada um, é – em potencial – a vítima da própria pedra arremessada, de sorte que, via metanoia e arrependimento, sugere a salvação. O contrário é ver no outro, metade de si mesmo, duplicando-o reativamente: ‘ – como não suporto tua ‘monstruosidade’, sacrifico-te.’ 

Se, desde o moderno Henry James, um espectro fantasmal é indício de uma personalidade em desagregação, portanto, de uma individualidade obsediada pela multidão pânica – rastreando-a desde os gregos, veremos os indícios da mentalidade pagã como o espectro indiviso de Ulisses face o gigante Polifemo. Cegando seu único olho, Ulisses – como uma antevisão do gadareno das multidões ardilosas, por que impessoais – faz precipitar aos ouvidos de Polifemo: ‘- Meu nome é Ninguém.’ Lido, desde as eras pagãs, como um salvo-conduta à inimputabilidade; a falta de culpa e a soberba dos esquemas coletivistas, precipitados contra uma única vítima: Ninguém é Legião.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s