Por Ivan Pessoa

Todo grande intelectual, ou quem assim se pretenda, é metaforicamente um numismata em potencial, ou seja, alguém que cultua o valor de moedas antigas. Se o conhecimento tiver valor intrínseco, ou seja, tiver vigência para além de seu tempo, todos que o cultuam – sem nada esperar – se tornam colecionadores de suas ofertas, quais sejam: efetuar trocas intelectuais entre seus cultores, é claro, para além de seu tempo.

Como o verdadeiro conhecimento é moeda de troca simbólica, não apenas restrita a determinadas classes sociais ou mesmo raça, logo se pode concluir que seu usufruto é universal, necessário, mas dependente de condições mínimas, quais sejam: político-econômicas, territoriais, familiares, individuais e, sobretudo, culturais. Aliás, antes que alguém queira despertar aquele ranço esquerdista sobre as minorias – como se o conhecimento escolhesse seus porta-vozes pelos cabelos -, o seguinte livro: ‘The life and times‘ (1881) de Frederick Douglas, dispensa comentário. Caso a dúvida e o ranço persistam, vale a pena procurar: ‘When I can read my title clear‘ (1991) de Janet Duitsman Cornelius, cujo o único caso; referente ao escravo Thomas Johnson, que aprendera a ler – em plena Guerra Civil Americana – ao solicitar que alguém alfabetizado lhe soletrasse algumas passagens bíblicas, já enseja a certeza de que o valor do conhecimento é desinteressado; em si mesmo e superiormente acessível aos que o desejam como uma profissão de fé.

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Ora, mas pode algo ser valorizado sem seu devido valor de culto, à maneira do que, cambiante, vigora hoje sem valer nada amanhã? Claro que não, porquanto, o valor seja proporcional ao seu grau de significância simbólica, relativa conservação e estabilidade. Desse modo, o que faz com que algo valha é seu valor intrínseco (desejável em si mesmo) e senso de preservação, capaz de vigorar no decurso de gerações, portanto, de modo supra-temporal. Daí o sentido etimológico da palavra: ‘moeda‘, proveniente de ‘moneta‘, que em latim significa ‘Mnemosine‘, deusa da Memória entre os gregos, ou seja, algo que vale por que evocável à lembrança e à partilha pública. A partir daí surge: ‘money‘, em inglês, que segundo Gustavo Franco em: ‘Shakespeare e a economia‘, é indicativo do sentido monetário do conhecimento, que só vale por que é fiável em algo estável, seguro e sólido.

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Para Franco, no reinado de Elizabeth I coincide, de modo embrionário: a invenção do próprio idioma bretão, o teatro inglês e a economia de mercado. Como era um período em gestação, a mesma expressão que era utilizada para novas e nascentes palavras, era igualmente apropriada para a moeda em circulação, de modo que ‘coinage‘, significava tanto termos vocabulares – em nascedouro -, como valor monetário. Especular sobre novas ideias, recém-significadas, e atribuir valor monetário para um bem, surgia, portanto, da mesma provisão do espírito: o culto à estabilidade.

Desde há muito, o conhecimento é creditável a partir de uma fonte permanente de valor, desejável, estável, e igualmente memorável, ou seja, cultuável para além de sua própria exposição. Portanto, para que um conhecimento tenha valor intrínseco, essas são as condições: memória, cultura, desejo, estabilidade e troca, cuja zona de compartilhamento é a Instituição cristã fundada na Idade Média: a Universidade – sem a qual, tudo o que se propaga é: datado, cambiante, amesquinhado, instável e desvalido. 

Em uma circunstância em que o valor do conhecimento é depreciado em uma Universidade, como uma moeda sem valor algum,  o risco é vender especialidade e popularização como arquétipos de educação superior, propagando-as como moedas falsas, diplomáveis; afinal o lastro do conhecimento – como veremos na continuação deste texto, na segunda parte – é a filosofia, aquela que é vocacionada, jamais diplomada.  Em 1934, em ‘Religion and the totalitarism state‘, Christopher Dawson já via em tal democratização sem lastro intelectual, como aquela que confunde titulação com estabilidade financeira, causa de aspirações totalitárias, ou seja, bastidor de conspirações e vantagens aspirantes à sobreposição de uns contra os outros, cuja finalidade seria a desvalorização do próprio conhecimento, com efeito: “A educação compulsória e o serviço militar universais tornaram possível o Estado totalitário.” Que Estado seria esse, em condições minimamente democráticas?

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Christopher Dawson

Segundo Peter Thomas Bauer, em: ‘Dissent on development‘, a contínua creditação de valor intelectual àqueles que não têm nenhum, em lugares estratégicos como a Universidade, só teria um único efeito: a extrema e impremeditada concentração de poder, de modo que in extremis, tais intelectos formulariam e reformulariam ideias desastradas: inconscientes ou deliberadas, bastando para tanto, quem as comprasse como o atestado superior e inquestionável de uma autoridade ou de um especialista. Portanto, em uma sociedade em que a moeda do conhecimento é apenas troca simbólica de poder especializado, jamais sua transcendência – uma nova cúpula ou aristocracia se forma sem nem mesmo ser suspeitada; fomentando assim toda sorte de inserção futura na sociedade, com suas novas expressões, ideologias, modos (autorizados) de pensar, agir e comportamentos, fundados não por experiências historicamente cumuladas e testadas, mas desde o zero. 

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A propósito, quando o conhecimento propagado em uma Universidade não tem valor para além de seus muros, duas são as consequências, além da vaidade:

A) excesso de farisaísmo (tema de um próximo ensaio de nome: ‘O fariseu Intelectual‘) – por meio do qual, o proponente arroga a si próprio, o entendimento exclusivo sobre algo, por vezes, com auto-compensações decorrentes da leitura de um único autor, um único livro e uma única ideia, sem jamais confrontá-las com a realidade mesma – ironicamente propagáveis nos seguintes termos, segundo Montesquieu: ” É preciso ter estudado muito para saber pouco‘.

(Segundo Samuel Taylor Coleridge, um dos declínios do mundo moderno se daria por meio da conjunção de sabatarianismo com bibliolatria, ou seja, como indícios de uma religiosidade secular: o primeiro como prática que, ao propagar a estrita observância dos sábados, aguça um falso moralismo e puritanismo; e o segundo como culto desmesurado de livre exame, que toma aquilo que é lido sem implicações com a realidade circundante. Como que incorporados pela vida intelectual secularizada, ou seja, como uma metástase do academicismo medieval, sabatarianismo e bibliolatria trariam consequências impremeditadas, incidentes sobre a modernidade. Somados, dentro da vida universitária e sua moeda de ocasião: modas e modismos, ambos aguçam ainda o traço do farisaísmo, como a conduta de um especialista que supõe saber mais do que sabe, a partir da liturgia e da via iniciática daqueles que a propagam como um dogma.)

B) excesso de especialismo, resultado do culto modista ou datado de quem se afilia à uma única corrente de pensamento, ou mesmo, à uma única ideia, consequentes de um farisaísmo intelectual com seu sabatarianismo e bibliolatria, ou seja, fidelidade litúrgica inquestionável e leitura sem vivência. Por conseguinte, o especialista é aquele que além de se jactar de saber muito sobre pouco, ainda assim, sabe menos sobre o que supõe saber, com efeito, lê e interpreta tudo sem se dar conta da dinâmica da própria realidade; o que torna seu conhecimento uma moeda cujo valor é mutável impremeditadamente. 

A degradação do conhecimento, desde a Universidade, é o preço a ser pago à degradação do espírito que, votado àquilo que não tem valor em si mesmo, favorece a soberba sem nem mesmo suspeitá-la. Se a ideia de Isaiah Berlin estiver certa, para quem Moses Hess seria o arquétipo do acadêmico ou intelectual decaído, capaz de suicidar-se em nome de suas pretensas verdades políticas, sem nem mesmo renunciá-las ou problematizá-las; sua remissão histórica vale em torno de algumas moedas cobertas de orgulho, ao modo de alguém que, incapaz de reconhecer – há tempo – seus próprios erros e os limites de sua ignorância, agrava-os com tamanha soberba, que – sem o saber – se angustia ao modo de Judas Iscariotes, ou seja, a preferir o suicídio à auto-confissão: “E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.” (Mateus 27:3-5). 

Toda moeda intelectual que, sem valor algum para além do tempo, pretende envaidecer aquele que a possui; assegurando-o as pompas de um acadêmico e a vaidade de um aristocrata, acaba por trai-lo, afinal a letra mata, mas o espírito vivifica, desde que o mundo é mundo, ou seja, antes da Academia.

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