Por Ivan Pessoa

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O neologismo ‘pruritano‘ é uma criação do yogue indiano Sri Aurobindo Ghose, e significa a junção de prurido ou coceira com o substantivo: puritano. Segundo o yogue, pruritano é aquele que toma a Verdade total sem suspeitá-la, de um modo inquestionável, ou seja, como parte ou fragmento de um texto sagrado. Em outro âmbito, constata Aurobindo, o pruritano é o princípio do espírito totalitário e inflexível.

Nada condensa melhor o propósito deste breve ensaio, que as palavras de Hobhouse: “As melhores e as piores coisas, os homens sempre as fazem em nome da religião.” Por ora, cabe a pergunta: como a mentalidade religiosa pode, em só tempo, ser ambivalente e paradoxal na medida de sua grandeza, favorecendo – em casos excepcionais – a construção de civilizações, e desafortunadamente, a mais sangrenta das guerras? Portanto, o que determina o grau de uma religião, senão o eixo de seus propósitos integrais – desde o âmbito interpessoal até a salvação – voltados para a compreensão de quem a professa em nome de uma verdade? Desse modo, o discurso e a prática religiosa tendem circunstancialmente e concentricamente a dois extremos simbólicos, crescentes ao redor da personalidade de quem a propaga: desde a periferia de seus atos – involuntários e inconscientes -, ao encontro ao redor do centro, portanto, no encontro consigo mesmo.

Em linhas gerais, o propósito da religião é fazer com que o homem se torne consciente – desde o centro de sua personalidade – do Ser supremo que o habita, bastando para tanto, o gradual abandono das extremidades herdadas pela cultura, pela circunstância histórica e pela clausura da individualidade. Empreendendo tal busca incansável, auto-confessante e nada auto indulgente – o fiel gira ao redor de uma religação entusiasmada com o Ser, cujo fim último é fazê-lo professar; ainda que, com dificultado silêncio: “Aquilo que Eu sou não está fisicamente ou mesmo culturalmente em mim, de modo que Sou tão somente na Realidade. Sendo, realizo-me.” Ora, o que isso quer afirmar – em outras palavras (?) que, quando efetiva, a religação é o fundamento de toda realidade pessoal devotada, ou seja, fonte total e simultânea de toda auto-compreensão. Quando proveniente de uma Revelação, tal experiência de religação se caracteriza por sua extraordinariedade: é aquela que os homens nunca descobririam deliberadamente, e jamais compreenderiam por si mesmos, de modo que o Ser se atualiza voluntariamente na realidade. Deste modo, o sentido supremo de religião, enquanto religação, é não apenas precipitar o homem ao redor do centro de sua personalidade, mas do mesmo modo, atualizar sua realidade pessoal, ou seja, levá-lo à intelecção do grau de participação do Ser enquanto Graça. Por conseguinte, ambas as observações convergem sobre a personalidade com tamanha epifania e sentimento de pavor (‘mysterium tremendum’), que sua certeza é confusa, e por vezes, incomunicável, de modo que o que não pertence a este mundo manifesta-se de maneira apodíctica, ou seja, silencia justificadamente em seu próprio esplendor. 

Por esta incidência sobre a personalidade religada, o discurso religioso – o que tende à Verdade – se apresenta por duas vias: A) Alegórico-literal, ou seja, como aquilo que alguém crê a partir de uma fonte revelada (‘quid credas‘); B) AnagógicoMoral, logo, como eixo pessoal de um conjunto de ações conscientes, cuja finalidade é a tão esperada salvação (‘quid agas‘). Como em seu afã espiritual, a religião é um esforço pessoal à cata de reconquistar a ligação perdida com o Transcendente – incidente de um modo alegórico-literal e anagógico-moral – sua recorrência é ritualística; corrente na rememoração da presença de Deus, em meio a uma sagrada comunhão anamnésica ou recordante. Em linhas gerais, como demanda tal culto, ritual e evocativo – no bojo de seus sacramentos – a necessidade de preservá-lo no centro pessoal (comunidade, família, povo e indivíduo) é tanto o elemento distintivo, quanto a medida de sua errância, constante nas palavras anteriormente citadas de Hobhouse: ” As melhores e as piores coisas, os homens sempre as fazem em nome da religião.” Portanto, só as fazem pela medida natural de preservação da Verdade Revelada. Quando filosofal, ou seja mais alegórica que propriamente anagógico-moral, seus sacramentos tendem ao princípio de inatividade (ao modo da espiritualidade oriental), segundo o qual: o centro da interioridade é inativo por que imóvel. O que é imóvel tem maior condensação, e se concentra sobre o eterno. Para a tradição taoista, budista e hindu, pelo fato de Deus ser impessoal, o centro é a condensação atual de tudo o que se move estatisticamente, de modo que a ação divina age desde o eixo adimensional deste ponto, com um único propósito: a libertação (Moksha) dos ciclos cármicos de samsara, ou seja, da espiral constante de vida, sofrimento e morte. Quebrar tal jugo (‘yoga‘ em sânscrito) é a finalidade última daquela espiritualidade antes alegórica que propriamente moral, afinal o que interessa à essa tradição religiosa é, sobretudo, a prática de ‘dvandvas‘, ou seja, da constante transcendência da dualidade: Bem x Mal, por exemplo.

Se na tradição monoteísta, a ênfase recai sobre a moralidade a partir da tradição impressa: alegórico-literal, o centro de seus propósitos religiosos deve partir em busca do maior grau de referência textual possível, ou seja, do maior índice de apropriação cultuável e atualizável a partir de um conjunto de ações vividas outrora por um santo, profeta ou patriarca, que a partir de suas condutas, sejam passíveis de incorporação por outros indivíduos e povos. Desse modo, agir é agir desde um centro pessoal. Portanto, se para o judaísmo, o centro da Graça e da Bem-aventurança – fonte de culto e rememoração – é o estudo da Torah, seu propósito cabe exemplarmente nas palavras de R.Travers Herford: “Deve-se buscar o conhecimento daquilo que fora revelado, em primeiro lugar no texto escrito do Pentateuco, mas a Revelação, o verdadeiro Torah, é o significado daquilo que ali está escrito.” Ademais, já na tradição muçulmana (‘aquele que se entrega‘), o centro da pessoalidade, portanto, o eixo de culto e rememoração, é a submissão. Enquanto que para o cristianismo, o centro é o Cristo como Pessoa; Filho unigênito de Deus, de modo que Deus é Amor (1 João, 4:16): “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” Portanto, é no centro do Amor de Deus – renunciante, e igualmente ressurrecto no martírio de seu Filho, porém ressuscitado – que segue a eucarística cristã como um mysterium:  ‘ E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.’ (1 Coríntios 15:14). 

Se a religação é a busca pelo Transcendente, a história é, portanto, a contínua peregrinação ao redor do centro, ou seja, do Ser – de sorte que quanto mais consciente é essa investida, maior o grau de pessoalidade. Em linhas gerais, daí o êxito imperioso das religiões monoteístas, empenhadas, sobretudo, na contínua rememoração da comunhão sagrada com o divino enquanto aspiração pessoal e moral.

Entretanto, o grande equívoco é tomar o texto da tradição, a impressão literal dos profetas – alegóricos e polissêmicos – como a Verdade mesma, com efeito, o encontro com Deus é antes uma abertura da consciência, livre, desejosa e voluntária, que propriamente o desfecho final e consumado de uma obra. Daí o clássico ensinamento de Swami Paramahamsa Yogananda: “Deus escolhe aqueles que O escolhem.” Se a presença de Deus fosse a Revelação, bastaria sua memorização textual para o usufruto da salvação, de modo que a própria Bíblia Sagrada assim pondera: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem.” (João 21:25). Portanto, a literalização da experiência rememorativa; presente em um livro sagrado – é por vezes, quando não subsumida em mudança de vida (metanoia) – o declínio da Verdade revelada, pois é a fixação constante, unívoca e parcial de um trecho e de uma única palavra, cuja unidade verbal (signo) evoca um símbolo (por exemplo: Céu e Inferno) que extrapola, de modo centrífugo, ou seja, para além do texto – seus próprios propósitos. Como o sentido da experiência religiosa, sobretudo, no monoteísmo – não se limita à denotação, ou seja, às expressões cuja função semântica designam certos conteúdos de vivências psíquicas inapreensíveis de imediato (‘não vim trazer a paz, mas a espada‘ – Mateus 10:34, por exemplo) logo se pode afirmar que a palavra religiosa é obra de um testemunho particular devotado e fiel àquilo que não compreende de todo, daí o recurso à fé, ou seja, ao salto sobre o absurdo. Portanto, a religação é, sobretudo, a busca voluntariosa por Deus sustentada por uma suposição hipotética; assente em um ato de fé. Quando fraudulenta àquele que a professa, sobretudo, na apropriação literal da experiência religiosa – o equívoco é confundir o texto impresso com a Verdade tautológica e inquestionável – como uma prova lógica, conquanto, essa seja a correspondência entre o fenômeno e o signo verbal, de modo que toda afirmação só o é no âmbito do juízo, logo correspondente à realidade e sua apreensão empírica. Desse modo, em matéria de experiência religiosa, a lógica cala, ou seja, silencia aos olhos da fé.

Quando pretensamente inequívoca e impassível de correção, como uma preservação protetora da sagrada comunhão religiosa, a religação se torna dogma, ou seja, enclausura a verdade em uma dimensão inesperadamente literal ou lógica, surgindo a partir daí a dogmatoquia e, sobretudo, a postura que se arroga conservar aquilo que, por ser sagrado, demanda respeito e devoção. Daí os entreveros interpretativos e as guerras santas, que se debruçam antes sobre as extremidades ou parcialidades, que propriamente sobre o centro da experiência religiosa, que a bem da verdade é manifestação voluntária, ou seja, misericordiosa do próprio Ser. Não que a tradição, o sacerdócio e o dogma não sejam importantes, afinal são a missão da própria Igreja e de instituições análogas, entretanto, ajustá-los aos preceitos dos atos espirituais – como na exegese cristã – é senão uma obrigação moral (http://www.catolicoorante.com.br/obras_miseric rdia.html) . N’outro plano, já na prática hindu, a conciliação dos rituais de: ‘Bhuta yajna‘ (oferta diária aos animais); ‘Pitri yajna‘ (louvor à memória dos ancestrais) e ‘Nri yajna‘ (obra de caridade em favor dos pobres e desamparados) revela a subsunção dos dogmas em ação. Quando não efetiva, ou seja, quando comodamente livresca ou pronunciada retoricamente, a religação espiritual favorece uma mentira inconfessada, cujos efeitos são sempre a convicção jamais renunciada e a incapacidade de assimilação do erro professado. Como resultado surge o espírito pruritano denunciado por Swami Aurobindo Ghose, surge aliás o prurido ou a comichão do puritanismo, ou seja, a inquietude, a discórdia e o senso auto-divinizado de eleição. Por certo, o que de pior pode acontecer na experiência religiosa é o pruritanismo, afinal sua arrogância insinua um messianismo totalitário, como aquele que concebe a realidade como um todo desde uma única fonte revelada.  

Portanto, a experiência religiosa integral e redentora tem efeito centrípeto, ou seja, crescente ao redor do centro da personalidade, cuja característica de sua circunvolução é tanto a descoberta do absurdo e da gratuidade (daí o Amor, o Ágape cristão, que de sua superabundância atrai quem deveria repelir), quanto a percepção simultânea da realidade enquanto ‘o agora que nunca passa‘ (‘nunc stans‘, Santo Agostinho). 

Se toda palavra é como um dedo que aponta para a lua, logo sua função é puramente indicativa, de modo que ao fazê-lo, não esgota o indicado. Supor que se possa tocar a lua por apontá-la, é indiretamente como um pruritanismo de alguns, suficientemente eleitos e já salvos. Se, do mesmo modo, a luz ilumina e transfigura não em autoafirmação, mas em auto-rendição, de sorte que todos os que estão plenamente despertos a veem, logo buscá-la é participar de sua Graça, ao modo do fiel que sabe de sua pequenez perante o que ilumina. 

O homem, a despeito da religião, não está com Deus, mas está em Deus. Portanto, Nele somos e Nele nos movemos, daí porque não o alcançamos jamais com conceitos, mas por vias analógicas. Ademais, qualquer tentativa de conceituá-lo por fixações teológicas pretensamente incorrigíveis, recai em um tom antes ideológico que propriamente religioso. Destarte, todo pruritano é um ideólogo, do mesmo modo que todo ideólogo é um religioso sem religião. 

 

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