Por Ivan Pessoa

§1

Toda obra literária que se relaciona com o leitor, postula insuspeitadamente uma questão moral. Tal questão – partindo de um conjunto de experiências vivenciáveis pelo leitor, pode – a depender das habilidades do autor – determinar um aguçado senso de admiração, devoção ou recusa. O que a determina, é aquilo que os gregos compreendiam como a atualidade prévia, ou seja, assimilação da realidade que faz com que o leitor antecipe – a partir do que lê – situações potencialmente reais. Em tal nível, aquilo que é lido não é apreciável como uma miríade de páginas superadas, mas é a antevisão imaginária de circunstâncias inusitadas, possíveis no decurso da vida do leitor.

A razão disso é retoricamente simples, afinal para concebê-lo: o autor precisa antecipar, ou seja, imaginar o conteúdo daquilo que pretende escrever, vivenciando-a desde o critério mínimo da possibilidade. Aquilo que é possível é igualmente imaginável, de modo que apreendê-lo é a condição primária da escrita. Portanto, ainda que não o perceba: aquilo que é lido pelo leitor, manifesta uma densidade premeditada por aquele que a escreve. Como se esforça pessoalmente sobre quais palavras extrair; quais expressões preterir; quais caminhos evitar: a partir de suas inquietações fundamentalmente estéticas e morais – o autor é parte da escrita, exitoso desde que dê condições para o leitor sondar o mínimo de possibilidade imaginária sob o critério da coerência e da unidade. Logo, da modificação e consequente assimilação daquilo que pretende escrever, a partir da qual leva-nos à certeza de Woordsworth – para quem: o grande poeta, bem como o autor autoconsciente sobre o que escreve, é aquele que cria antecipadamente: o clima pelo qual pretende ser apreciado. Tal clima é resultado da sondagem do campo da possibilidade com um grau de verossimilhança inquestionável. Quanto mais próximo tangenciar o sentimento trágico do mundo – análogo à lida cotidiana, com a manifesta vivência pessoal e seus conflitos d’alma: mais grandiosa se tornará a obra lida. Portanto, é no horizonte tangente ao Mal e aos conflitos da alma, com seus festins pecaminosos – entre a satisfação e o aniquilamento insaciável: tão caro às expressões culto-religiosas de onde surge toda expressividade literária – é que se pode dimensionar a grandiosidade de uma obra. Não que a literatura seja apenas ou exclusivamente a modalidade desse discurso acerca do Mal, entretanto, em sua apresentação mais espontânea, a vida – e o mínimo de possibilidade imaginativa, sempre nos levará para situações conflituosas, sem as quais a própria realidade se anula como uma quimera. Tendo em vista tal critério, escreveu W.B.Yeats: “O escritor que não tenha a visão do Mal não pode ser grande.” A consciência de culpa; a insaciedade humana; a obsedante desilusão da vida; a perversidade e derradeira redenção, talvez seja um plano esquemático desse critério que dá à imaginação, um anteparo moral que se antecipa à possibilidade mesma de vivenciá-las. Se verdadeiramente plausível em seu estrato imaginativo: maior a possibilidade do leitor antecipar – a partir das situações lidas – as consequências dos atos imaginados. Portanto, basta um personagem relativamente conflituoso em suas ações para, em um recuo de possibilidade interiormente imaginada pelo leitor, dispor um senso de imaginação moral. Vivenciá-lo é decerto um dos princípios da atividade literária, cujo propósito é favorecer um processo de crescente autocompreensão. Em seu ápice, a experiência imaginária do Mal é tanto a onipotência perante um destino exterior: cruel e trágico que, como poder impessoal supremo limitam os esforços humanos, quanto a passagem incansável para o Bem. Na tencionada anteposição de forças é que se concentra a grande literatura desde as tragédias gregas.

Destarte, a recepção do leitor e a função da crítica – em searas e níveis distintos – são direcionadas ao assentimento àquilo que é lido, o que em outras palavras é ajustável a partir do grau de verossimilhança e senso de realidade. Percebendo – desde a recepção, que aquilo que é lido se trata de algo possível de acontecer igualmente a si próprio, o abismo que se abre – via suspensão voluntária da incredulidade (Coleridge) – antepõe o leitor com a consciência dramática da culpa partilhada com aquele que comete o Mal, de modo que ler é sustentar – desde a imaginação – a densidade de uma decisão. Lendo, todos somos enredados em uma situação potencialmente crucial, em que determinadas condutas devem ser sustentadas. Tal descoberta desesperadora traz consigo: arrependimento por eventuais desvios e padrões de comportamento e suas implicações na vida cotidiana.

Negligenciada, ou pela pobreza intelectual, ou pelas pretensões de notório reconhecimento – inesperadamente frustradas, a escrita tende à falsidade e à mentira, com efeito, é uma atividade intelectual desinteressada, quase sempre recompensada pelo aguçado senso de veracidade autoral e recuo à verossimilhança. Quando verdadeira, desde o centro do compromisso pessoal de quem escreve até sua recepção por parte do leitor, o único êxito que interessa – entre os eventuais louros da notoriedade – é a ampliação da visão de mundo de quem lê; com sua renovável imaginação moral. Como a realidade é um horizonte prévio que a tudo torna possível, seu desdobramento potencial é a possibilidade: sondável a partir da inventividade de quem a imagina. Portanto, o triunfo desinteressado de um autor é antecipá-la, algo que aconteceria com Dostoiévski, que ao se propor em escrever um folheto didático contra o alcoolismo na Rússia, que se chamaria: ‘Os Bêbados‘, resultaria tanto em: ‘Crime e Castigo‘, quanto na melhor expressão dos movimentos revolucionários então nascentes na Europa daquele século. Por não suportar a condição humana, seu protagonista, Raskólnikov (etimologicamente significa: ‘cindido’, ‘raskol‘ em russo): “escolhe voluntariamente o homicídio para demonstrar a si mesmo a sua própria liberdade ilimitada e absoluta.” Questionando-a desde então, Dostoiévski problematizaria novamente o tema revolucionário da ‘liberdade ilimitada‘ em, ‘Os Demônios‘: “Começar com liberdade ilimitada é terminar com despotismo ilimitado.” Somadas, desde a imaginação, ambas as narrativas já antecipavam o terror desencadeado por grupos supostamente libertadores nos séculos seguintes.

Neste ponto é que se torna compreensível o seguinte caso, inclusive, de forma desdobrável em outros episódios, igualmente similares à grandeza de uma leitura, com sua densidade moral e seu alcance imaginário. Louis Lambert, personagem central do livro homônimo de Honoré de Balzac, é a figura arquetípica da leitura: encontrável em qualquer circunstância – desde os cômodos de sua casa até nas ruas – com uma obra de filosofia, física, literatura ou história, portanto, sempre com um livro. Pondo-se a analisá-lo, escreveu Maurois: “Seu segredo é a ‘vidência’, a faculdade que ele possui de visionar com tanta força o que lê, ou o que lhe é narrado, que ‘conhece’ perfeitamente seres e acontecimentos que nunca viu. Lendo a descrição da batalha de Austerlitz, Louis Lambert ouve o canhão, os gritos dos combatentes, os coices dos cavalos; sentes o cheiro da pólvora, transforma-se no espectador de um Apocalipse. Quando se entregava assim, a fundo, numa leitura, Louis Lambert esquecia o mundo exterior.” Ao modo de Raskólnikov, ávido por leitura e intelectualmente tencionado entre a dúvida e a extraordinariedade, Louis Lambert é uma versão empalidecida do igualmente letrado: Julien Sorel, personagem de ‘O Vermelho e o Negro‘ de Stendhal, que alterna o centro de suas motivações entre o entusiasmo perante a figura de Napoleão, e a necessidade de autopromoção. Por fim, todos se assemelham, sobretudo, pela tendência à grandiloquência, com a prevalência ao tema metafísico do Mal como um fim megalômano deliberado. No mais, quem os lê, não apenas como personagens característicos de uma prosa novecentista, mas como representação preeminente de traços de personalidades cindidas e dúbias,  torna-se capaz de ‘visionar’ as implicações das ações humanas e, do mesmo modo, sondar a natureza moral das escolhas e tomadas de decisão a partir dos exemplares homens reais que nos cercam.

Por suas sondagens visionárias, que transcendem a remissão imediata à realidade cotidiana, a literatura é uma antecâmara daquilo que pode vir a acontecer: ou por razões superiormente desconhecidas, ou por obra humana. Na conciliação de ambas as instâncias é que se encontra a dimensão metafísica da  leitura: na tensão entre o homem e sua consciência da realidade. Aguçar tal tensão é uma das grandezas da arte literária. Em 1898, o escritor norte-americano de ficção científica, Morgan Robertson, descreveu o naufrágio de um navio com as seguintes e extraordinárias características: 70 mil toneladas de deslocamento, 800 pés de comprimento, 3 hélices e 3.000 passageiros em sua viagem inaugural. Quando, surpreendentemente, numa noite de abril bateu num iceberg, afundando. Seu nome era: ‘Titan.’ Do mesmo modo como na realidade, a presença blasfema do homem como suposto deus, sobreposto ao cosmos, condensaria subitamente como um Mal: a força vingativa contra seus artifícios. Por certo, o Mal pode ser desencadeado como a distância deliberada do homem de sua verdadeira natureza, que se vinga no limite de sua soberba. Na noite de 14 de abril de 1912, o navio real afundaria no Atlântico Norte, com 66 mil toneladas, 838 pés, 3 hélices e 2.207 passageiros. Entre ambos, ecoam as seguintes palavras e a responsabilidade de seus efeitos morais: ‘Nem mesmo Deus afundará Titan, ou o Titanic.’ Tal força de expressão titânica é similar às construções daquele século: edificadas a partir do niilismo absoluto, repercutíveis por raivosas palavras, igualmente extensíveis aos anseios demoníacos das vanguardas estéticas, ideológicas e morais: ‘Nem mesmo Deus afundará o homem.’

Como se não bastassem as coincidências e antevisões literárias, um dia, Nietzsche escreveu para o amigo Peter Gast: “Conhece Dostoiévski? Com exceção de Stendhal, ninguém me deu tanto prazer nem tanta surpresa. Um psicólogo com que me entendo.” Certa vez, no dia 3 de janeiro de 1888, em Turim, ao ver um cocheiro castigar brutalmente um cavalo já caído, Nietzsche se abraçaria, chorando copiosamente (entre beijos) sobre o pescoço do animal. Curiosamente, daí o poder antecipador da literatura, ao modo de Morgan Robertson: o episódio é uma repetição fidedigna de uma situação presente em ‘Crime e Castigo‘ do seu dileto psicólogo: Dostoiévski. Na parte I, Capítulo 5 da referida obra, Raskólnikov sonha com uns camponeses bêbados que espancam um cavalo até a morte. Compadecendo-se do animal, o personagem se abraça ao pescoço, enquanto o beija. Em sonho, o criminoso-personagem sente aguçar um estado confuso, o que desencadeia o propósito do homicídio e posterior consumação. Tais gestos, além de próximos, revelam o peso de uma decisão moral – em ambos os casos: decisivamente epifânico. A partir desse fato, se inicia a chamada loucura de Nietzsche, similarmente assimilável em Raskólnikov como a antevisão pesarosa de seu delito, a partir da qual todos os seus atos posteriores são sopesados.

Na antiguidade, o hábito de se orientar a partir das obras de Homero e Virgílio, deu a origem respectivamente às chamadas: ‘sortes Homericae‘ e ‘sortes Vergilianae‘. Abria-se aleatoriamente para sanar a natureza de qualquer dúvida que se interpusesse ao leitor, algo que se nos reporta à leitura despreocupada da Bíblia. A utilização arbitrária de passagens de tais autores para prever possíveis situações futuras, poderia ser de certo modo, o símbolo supremo da própria leitura: atividade que se remete a isso no grau último de sua grandeza, ou seja, na capacidade inesgotável de orientação vital. Quanto maior a capacidade que um parágrafo tem de sinalizar ao leitor, antecipando-lhe sobre as implicações de seus atos mais espontâneos, maior a densidade simbólica e moral da obra apreciada, cujo extremo é a tensão entre a descoberta do Mal e a busca pela redenção. Por conseguinte, a ‘sorte literária‘ em sentido efetivo, tende à escalada vertical da autoconsciência tal como uma Paidéia, crescente com outros livros igualmente grandiosos. Em seu sentido amesquinhado é entretenimento, com seus best-sellers e autores celebrizados pela obviedade. Em seu grau último é um suspiro entrecortado pelas palavras de Cyril Connelly: “uma biblioteca particular para um leitor comum é um memorial ao tipo de escritor que ele gostaria de ter sido.” Portanto, se o grande escritor é aquele que antecipa o paradoxo da vida (tencionada entre o Bem e o Mal), seu leitor é aquele que o encontra. Aliás, seus livros e ações denunciam a realidade desse encontro.

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