http://www.revistaamalgama.com.br/10/2015/o-ministerio-da-filosofia-adiverte/

Por Ivan Pessoa

§1

 

Tão logo conclui o artigo imediatamente anterior: “O Mi(ni)stério da Filosofia (a)diverte”, encaminhei o que havia escrito para o escritor Martim Vasques da Cunha, cuja sinceridade habitual se manifestou do seguinte modo: “Ivan, li o seu texto e desculpe-me seu vou parecer brutal, mas você  já fez coisas muito melhores. Está muito longo e cheio de palavrórios. Você quer falar sobre o Janine ou sobre o problema curricular de ser um filósofo no Brasil? O texto está hesitante. Eu cortaria, pelo menos, pela metade e focaria no assunto Janine, dando margem para mais ironias.” Não interessando objetivamente o teor da réplica encaminhada, mas, sobretudo, a assimilação da crítica, decidi reler o texto anterior, e, na expectativa de torná-lo – no mínimo palatável – decidi escrever este que segue.

§2

Superestimando a crítica do Vasques, comecei a perguntar para mim mesmo o sentido da invectiva endereçada ao ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, descobrindo logo em seguida que tal recusa decorreu tanto de sua breve passagem à frente daquele ministério, como por sua posição – ao menos midiática – de ‘filósofo’. Ora, neste ponto de inflexão eis que surgiu a questão, que jamais é problematizada pelos formadores de opinião: “Existe critério oficial ou objetivo para determinar quem é ou quem não é filósofo?”. Se existir, será que, sob um viés exclusivamente curricular – proveniente daqueles que o promovem, por meio de revistas e departamentos, esse critério (não muito seguro, em razão de suas potenciais falsificações e consequente distância do próprio autor) é capaz de atestar a condição intrinsecamente complexa da descoberta filosófica, cujo pressuposto é radicado tanto no desejo de conhecer – a partir de intuições particularmente pessoais, que por vezes sequer se consumam em um único escrito? Do mesmo modo, como surge no ato interior da inteligência daquele que, como entusiasta, é capaz de experimentar o assombro de ideias equivalentes na tradição histórica; presentes na biografia e no tempo de um filósofo – será que a escrita de um artigo – e posterior atualização curricular – não é senão efeito de uma experiência filosófica prévia, sem a qual, qualquer escrito é apenas um exercício estilístico? Portanto, para a genuína experiência filosófica, o que é crucial ou mais importante desde sua aparição entre os gregos: a capacidade de atualizar e inteligir a realidade, a partir de seu emaranhado confuso de símbolos herdados do senso comum, das religiões e do ambiente cultural, ou a escrita acidental de um artigo a ser encaminhado para um corpo editorial especializado?

Pontuadas, tais considerações encaminha-nos à certeza de que a genuína experiência filosófica – presente em todas as épocas – é menos a assimilação de seus conteúdos, eventualmente acidentais e dialeticamente contrapostos por outros filósofos, que propriamente a aspiração à Verdade, ou seja, àquilo que se impõe sem provas exteriores, cuja apreensão é da ordem do juízo, portanto, correspondente ao ato intuitivo da inteligência. Daí a menção a Benedetto Croce como condição à experiência genuinamente filosófica: “Quereis fugir da baixa atualidade? Refugiai-vos naquilo que jamais teve atualidade.”. Por conseguinte, o que jamais teve ou terá atualidade é o que interessa à descoberta filosófica, o que condiciona a escrita e eventual publicação, ao caminho percorrido – retrospectivamente – pelo filósofo até aquela descoberta. Daí a certeza de que uma filosofia curricular, tomada episodicamente como outrora, entre os doutores medievais de forma responsável, é a via dupla entre o diálogo constante entre entusiasmados ouvintes e a consumação de seus resultados em um escrito. Por razões filosoficamente óbvias, o contrário é uma farsa intelectual, daí a parcial incredulidade àquilo que é escrito sem ser vivenciado; muito bem atestados na presença de um autor em um Congresso, surgindo a partir daí (como uma constatação intuitiva) a irretocável máxima medieval: “Primum vivere, deinde philosophari.” (‘Primeiro viver; depois filosofar’.). Na atualidade, daí o teor áspero deste texto, eis a questão jamais pronunciada entre os universitários, sobretudo, os pleiteantes à filosofia: ‘Pode um currículo determinar efetivamente um filósofo, presente no tão propagandeado fato de que o mais recente ministro de educação assim fora considerado pela opinião pública? Filósofo, mas por que, por escrever e publicar artigos? ”

Como sequer é problematizada, tal questão inverte propositadamente a máxima medieval, custando aos estudantes da filosofia, uma confusa incompreensão sobre sua própria atividade: “Primeiro: escreva. Publique. Depois viva.” Consequentemente, é a partir daí que surge o anseio à departamentalização da filosofia como máquina de produção de ideais, cuja principal função é a autopromoção, estabilidade e ascensão financeira, à maneira de uma sofística sindicalizada. Surgindo daí toda sorte de confusão e incompreensão não apenas por parte de quem se profissionaliza em filosofia, mas do mesmo modo aos que a questionam: “Sim, mas por que estudar filosofia? Para escrever e publicar artigo ou para tornar melhor aquele que a investiga?”. Quando genuína e interiormente verdadeira, a postura filosófica é mais do que os meios de sua departamentalização, daí sua condição ser menos escrita e formatada que vivenciada, ou seja, incorporada como um modo de ser desde as menores ponderações.

 Portanto, como expresso no artigo anterior, a escolha de um ministro e ‘filósofo’ profissional como Renato Janine Ribeiro, que assumiu sem sequer titubear ou mesmo declinar elegantemente da indicação (assim me parece, afinal nenhuma nota neste sentido, encontrei), é distintiva – em parte – do lugar ocupado pela filosofia na vida contemporânea, ou seja, como um departamento oficialesco, aliás, como uma burocracia protocolar empenhada em prestar favores institucionais ao poder público, à maneira de um ideólogo estatal. Desse modo, no tocante ao Renato Janine Ribeiro, sua indicação é efeito tanto da crise da filosofia acadêmica, inquestionavelmente aceita como departamental; de onde cada professor é um burocrata e ministro em potencial, cujo trabalho é o cíclico intervalo entre padronização, avaliações, prazos, artigos e currículos – como é sintoma da crise da educação, que em um panorama maior é apenas a incorporação de ideias que escapam à realidade, não apenas local, mas universal. Portanto, nada indica melhor o horizonte de crise da autorrepresentação brasileira, ou seja, a gradual queda de seus símbolos espirituais, que a indicação e consequente aceitação – do cargo ministerial – por parte de um ‘filósofo’ profissional, forjado no centro da burocracia, haja vista, como escrevi no artigo anterior, seu próprio currículo. Entretanto, nada é mais significativo que sua célere passagem à frente de um ministério que é mote da atual gestão: ‘Pátria Educadora’, cuja pasta problemática é efeito da crise moral agravada nos últimos anos, com a qual: funk é (alta) cultura, pichação é arte; televisão, um oráculo e corrupção é lei.

Se, como fora questionado anteriormente, a filosofia é bem mais que as páginas acidentais de um currículo, e do mesmo, é bem mais que os departamentos que a chancelam, como se pode considerar alguém da envergadura do Doutor Renato Janine Ribeiro? Filósofo ou professor de filosofia? Ex-ministro ou educador? Como no artigo anteriormente escrito, em que mencionava a noção husserliana de filósofo como funcionário da humanidade, suponho que Renato Janine Ribeiro, et caterva, seja a justa medida entre a utopia e o pesadelo, ou seja, a vigilância diuturna de um funcionário entre os volumosos papéis de seu partido; partido em que filósofos e políticos se confundem, e ambos são profissionais.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s