Para Glaucinha: O resto é silêncio!

***

5390918-3x2-700x467

Gustav Holst (1874-1934) compositor inglês, cuja principal influência de sua obra musical é a leitura dos clássicos hindus, juntamente com os clássicos Ocidentais.

Sete notas musicais, sete pontos de energia vital, sete cores do arco-íris, sete planetas pessoais, (Urano, Netuno e Platão são planetas transpessoais). O que é o ‘Sete’, afinal? O número ‘Sete’ é o único número sem múltiplos nem divisores, exceto o ‘Um’. É, portanto, a soma entre o ‘Três’ (a Trindade) com o ‘Quatro’ (a matéria). Compreende-se o ‘Sete’ como um regulador das vibrações: dai as ‘Sete’ cores, as ‘Sete’ notas musicais, os ‘Sete’ centros de energia vital (‘chakras’), os ‘sete’ caminhos esotéricos segundo o islamismo e os ‘Sete’ planetas pessoais (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua). Enfim, é o número da manifestação da Unidade através da Trindade. Matematicamente isso ficaria assim: 7=3=1. ‘Sete’, número da reintegração cósmico-pessoal. Não por acaso escreveu Hipócrates: “O Sete dá vida e movimento.” Movendo-se como um fluxo vibratório, cada nota musical – em disposição harmônica – incide sobre um ponto de energia específico, ativando assim um conjunto de sentimentos que crescem desde o sexo até a supra-consciência. Tal movimento é um análogo cósmico dos planetas ao redor do Sol. Voltando-se sobre si mesmo, como quem desse a volta ao redor do Sol da consciência, o ouvinte vislumbra (‘pratyaksha‘ em sânscrito) uma espécie de imobilidade interior (‘anahata shabda‘: o som nunca ouvido, do qual surge todo o Som) que por sua vez é condensação de toda energia vital, de toda redenção. ‘Com qual providência a música anuncia a salvação?’ Sete vezes tentei responder essa questão, até ouvir Gustav Holst…

Por Ivan Pessoa

***

§1

Ouça – alguém abre os ‘Diários Secretos’ (1914-1916) de Ludwig Wittgenstein, e se estarrece ao lê-lo: ‘Ainda sou incapaz de pronunciar a única palavra redentora. ’ Anos depois, o filósofo tentaria um suicídio malsucedido, entretanto não teria sido o terceiro quarteto de Brahms a sua salvação, o que lhe teria imputado um novo sentido por viver? A inquietude espiritual do filósofo, talvez seja melhor elucidada com as palavras de Bertrand Russell em suas Memórias: ‘Wittgenstein tinha o hábito de vir me ver cada noite, à meia-noite, e de andar por todo o meu quarto como um animal selvagem, durante três horas, num silêncio agitado. Uma noite, perguntei-lhe: Você pensa na lógica ou em seus pecados? – Nos dois, respondeu-me ele, continuando a andar. ’ Ora, eis que uma questão se apressa, não seria a música, uma via de acesso à redenção, como no caso anteriormente referido, capaz de redirecionar milagrosamente os caminhos de um homem? Aliás, com qual providência a música anuncia a salvação, transformando de um modo decisivo e integral, a vida de curioso ouvinte?

(Brahms: a salvação do angustiado Wittgenstein)

§2

Por ser um dos níveis mais expressivos e cadenciados da abstração, a música insinua analogicamente – quando redentora – as incidências angélicas dos céus sobre as impurezas telúricas da Terra, comunicando poeticamente o anseio dos homens aos ouvidos dos anjos, o que de per si, já nos dá a dimensão cósmica de algo esteticamente superior. Karl Barth, com a precisão de um maestro arremata: ‘ Não estou certo que os anjos, quando vão glorificar Deus, tocam música de Bach; estou seguro, porém, que para se comprazerem entre si, tocam Mozart, e Deus gosta, muito particularmente, de ouvi-los.’

Percebendo tal homologia estrutural entre a psique humana a partir de seus níveis expressivos de personalidade e o orbe celeste, Gustav Holst comporia a partir da suíte: ‘Os Planetas‘ (composta entre 1914 e 1916), um análogo sinfônico ao movimento de sete planetas no sistema solar, destacados simbolicamente como sete potenciais estados de espírito, incidentes nos sete chakras ou ciclos de energia.

1004075_orig

Destacando-se o foco dessa incidência em cada ponto de energia vital, observa-se os efeitos da música sobre o corpo físico, de um extremo que parte desde o alinhamento da espinha dorsal, como fonte do equilíbrio e harmonia interior; até o ápice da supraconsciência, quando a música favorece a autodescoberta intuitiva. Portanto, incidente em cada ponto, e a partir de cada vibração, a música é capaz de atingir fontes específicas de energia vital, apressando a esperança, o sexo, a paixão, a dança ritual, o equilíbrio corporal, o entendimento e a intuição. Pautando-se ligeiramente na sinfonia de Gustav Holst, eis a esquemática astrológico-musical:

A) Marte: impetuosidade e beligerância, música marcial (Vishuddha; garganta);

B) Vênus: anunciação do amor como afecção, crescente desde a região genital, andamento lento (Swadhistana; sexo);

C) Mercúrio: intrepidez e coragem, avidez, scherzo (Anahata; coração );

D) Júpiter: alegria e festividade, dança (Manipura; umbigo);

E) Saturno: maturidade e sobriedade, cujo clímax é a serenidade, marcha (Muladhara; espinha dorsal);

F) Urano: criação e potencial re-criação, segundo scherzo (Ajna; sobrancelhas);

G) Netuno: intuição e autoconsciência, pianíssimo (Sahasrara; cabeça).

Como a revolução dessas esferas celestes – incidentes sobre seus próprios eixos e ao redor do Sol – representa a imagem móvel da eternidade imóvel, ou seja, do potencial em busca de sua atualidade, desde os astros até o mínimo pessoal de autocompreensão; desde os céus até a Terra, o reencontro é um análogo cósmico do realinhamentos dos planetas, sinfonicamente expresso pela cadência musical. Portanto, a música é a expressão desse reencontro, cuja principal característica é a reabilitação integral dos sete eixos de energia, ou seja, desde a impetuosidade marcial (presente na fala presa na garganta) até o centro intuitivo da suprema espiritualidade (constante no alto da cabeça). Quando não, destacada cada uma daquelas características astrológicas e eixos vitais, tal música é apenas uma variante confusa de um daqueles estados, sobretudo, a passagem de energia do primeiro eixo de energia (Muladhara – espinha dorsal) até o eixo irrefletido da fala (Vishuddha – garganta), insinuante à confusão catatônica de um estágio gutural muito próximo do grito, haja vista, as músicas melodicamente pobres com alto apelo percussivo, dispersivas à capacidade do silêncio e do reencontro pessoal.

§3

O ato, simplório para alguns, de pôr uma música para tocar, esconde por detrás de sua execução, um mistério capaz de suspender a ordem natural das coisas ao redor, como uma tempestade de épicas proporções. Como a abertura do sétimo grau de energia na região aurática, portanto, no ponto de sahashara, ou seja, acima da cabeça, quando grandiosa; a música harmoniza seu ouvinte (desde as notas mais dissonantes) ao modo do alinhamento do Sol face um planeta. Um velho soldado do Grande Exército, ao ouvir os primeiros acordes do Concerto nº.5, de Beethoven à memória excelsa de Napoleão, ergue-se impávido como outrora e em continência – já com os olhos marejados – surpreende a todos, aos gritos: O Imperador! Neste ponto de incidência – ao modo do alinhamento cósmico, a música atualiza a realidade, dando-lhe cadência, ritmo e melodiosa expressão, de modo que aquele que a escuta não apenas descobre a si mesmo, como redescobre o mundo.

Alguém que padecesse em sofrimento, ao ouvir injustificadamente sua canção mais pessoal, de súbito, se recomporia à ventura de uma longa paz, tão serena quanto um reencontro. Uma saudade que fosse calando por dentro, ao ribombar de uma única nota, reanimaria uma criança no corpo de um adulto que estivesse a dormir. Ó música, quão nobre é a tua excelência, redimindo a tragédia dos homens com o artifício intangível dos sons encadeados; nuvem que és das amplidões, morada ressoante da luz. Ao te supor em todas as artes, ó divina música – fonte do assombro estético – exalto em teu nome a certeza de Hölderlin: ‘Viver é defender uma forma’, daí porque te sobreponho àquilo que não podem as cores, os números e as palavras. Segundo Simmel, em: ‘Ponte e porta‘, a vida do espírito – no decurso da caminhada humana através da história – forja a produção de formas, similares a modelos arquetípicos da apreensão do espaço, desde o plano macrocósmico. Desta forma, aspirando evocar ritmicamente o alinhamento dos astros ao redor do Sol, as estações, a passagem dos anos, os ciclos naturais, a música surge como a percutida forma em movimento.

Somente a música pode povoar o deserto das almas mais áridas, a uma insinuação de perdida juventude, com efeito, desentranha subitamente toda lembrança já recolhida, daí a certeza de que quando atinge o centro vital do coração (Anahata), tudo se atualiza como uma lembrança sempiterna e imorredoura, entretanto, quando redentora, é capaz de alinhar os eixos de energia superiores, ascendendo do coração até o alto da cabeça, ou seja, ao centro da intuição. Tente, sob os sulcos de um disco empoeirado, confessar a si mesmo os segredos de toda vida e verás por que porta tu entrarás. Será que sairás algum dia, como alguém que se apressa em um labirinto, ou ficarás cativo dos resquícios de tais descobertas? Até o mais prisioneiro dos homens, tomado pela fuga de uma melodiosa canção, afirmaria a si mesmo: ‘Nunca estive tão livre. ’.  Quando cadencia um análogo cósmico, ou seja, ao modo do alinhamento dos astros, a liberdade é um acorde da imaginação, aliás, sua sinfônica manifestação, capaz de descortinar a realidade à sua própria forma atemporal.

§4

Se há um meio de transpor fronteiras, visitar os dias de outrora como uma súbita lembrança,  à música cabe tais apelos com inquestionável propriedade, com os quais toda a realidade se entremeia. Uma torrente de imagens envolve alguém que esteja em atenta audição, o que justifica toda a existência de um modo avassalador, tal qual alguém que gritasse: Descobri todos os segredos! O milagroso fato de ouvir, de pronto revela o poder grandioso, e não menos salvador, de desdobrar todos os sentidos a partir da música, algo que, por exemplo, encontra-se presente em um escrito de Stravinsky em menção ao cancioneiro medieval: ‘Ao cantar a glória de Deus (…) louvava tão bem ou melhor do que a construção de uma igreja e toda sua decoração: era o mais lindo ornamento do templo. ’ (1958).O nível de elevação que uma canção desdobra, pondo o homem em comunhão com os astros e o análogo realinhamento cósmico, integra tudo o que existe em uma relação de coesa unidade, tornando-nos apreciadores de uma apoteose que compõe a si mesma, no que a natureza majestosamente canta. Nesse instante, somos o lado escuro da lua, bem como um pássaro que gorjeia em uma floresta oculta. Somos as folhas que caem, o rio que corre, sobretudo, o desaguadouro da chuva inundando os arredores, a gota habitando a relva, o cheiro de terra molhada, ou seja, somos partículas sonoras de uma música que se desfia universo afora. Ouça. Ao modo de Orfeu, quando Shelley subia às árvores para declamar Shakespeare, os pássaros rodeavam-no e vinham escutá-lo – pontuando melodicamente a oferta dos versos anunciados – dando-nos a certeza de que tudo é inteligentemente arranjado por uma regência, que a tudo encadeia, ainda que permaneça encoberta como as mãos de um maestro sob o fosso.

Agora que as horas se sucedem, como os degraus de uma escadaria, não há nada mais urgente que se confinar nas habitações da memória, ao som daquela canção e elevar-se. A lembrança dessa música, em si mesma, descerra todas as janelas, abre todas as portas, deixando o fulgor do sol desabitar a solidão. Aquilo que até então fora a habitual cronologia da vida, a entediante passagem do tempo, extrapola uma diacronia, abismos de eternidade, fazendo-nos peregrinos de outras passagens, de cidades de lugar nenhum. Florestas de inimagináveis proporções repatriam os pés que vagam alheios à ordem do mundo, aguçando os estados de espírito. A cadência – que atravessa pontualmente a ambiência de outros lugares – carrega o ouvinte como um féretro por debaixo da terra, desabrigando a natureza de tudo. Logo, o dia escurece e a noite é árdua, entretanto, a música que invade a casa, insinua a esperança em tempos de guerra, o que seria, com efeito, o estampido da última redenção. Lá dentro alguém lê Wittgenstein em silêncio, tendo a certeza de ter encontrado uma passagem secreta: “Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela.” (1922). Enquanto isso a música desassossega os cômodos da casa. Ouça. É bem-vinda a aurora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s