À memória de René Girard (1923-2015)

kas

***

Por Ivan Pessoa

***

§1

René Girard, o pensador, não o homem – já estava morto desde há muito, e com relativa clarividência já poderíamos escrever seu epitáfio como um vaticínio, mas fracassamos antes e depois da hora: ‘Grandes autores morrem antes de serem lidos ou suficientemente compreendidos. Eis aqui um grande autor.” Em um mundo editorial – ainda que incipiente, em que Marx, Freud, Nietzsche, Foucault, Deleuze, Zizek e Alain Badiou são tomados por verdades – como dogmas paroquiais em auditórios apinhados de acadêmicos, onde alocar a obra de Girard senão entre os mortos, ou entre os jamais lidos? Como se pode escrever o epitáfio de alguém já morto em vida; na vida editorial celebrizada por seus fantasmas, patronos, especialistas, universitários e porta-vozes?  Aliás, enquanto é sólida a esperança de Paul Claudel em sua lápide tumular: ‘Aqui jazem os restos mortais e a semente de Paul Claudel‘, recorro à leveza poética de John Keats, para a partir dali ler – entre os homens precocemente mortos e indevidamente injustiçados – a dimensão de suas respectivas grandezas: ‘Aqui repousa um homem cujo nome foi escrito sobre a onda.

A obra de um autor menos celebrado como Girard é como um nome escrito sobre a onda da ressaca academicista, ou seja, é lida eventualmente; em meio às surpresas silenciosas de uma descoberta épica. Escancarando a questão humana desde o centro do desejo, ou melhor, da relação conflituosa entre semelhantes, Girard logra um êxito incômodo por arrostar, de modo súbito, toda a ressaca academicista ainda consagrada: de Marx a Nietzsche; de Freud a Lacan, com efeito, entende o homem não como um epifenômeno de impulsos inconscientes e seus mecanismos de controle; engendrados na exaustiva luta de classes ou por uma vontade de potência, mas entende o humano como um duplo especular que nada concebe, e tudo copia, ou seja, como um ser vazio que só se descobre por meio de um mediador: “Nossos desejos não são realmente convincentes até que sejam espelhados pelos desejos dos outros.” (Girard: ‘Shakespeare – teatro da inveja‘) . Ademais, é na gênese do conflito entre imitadores, que desejam mutuamente o mesmo objeto – por vezes sem o saber – que se pode conceber a extraordinariedade do pensamento girardiano, descoberta que perpassa toda e qualquer relação humana, em um extremo que se constata desde a mitologia até as mais refinadas expressões simbólicas, perpassáveis por meio de concepções filosóficas, bem como por meio do imaginário popular.

Por certo, como o homem é incapaz de desejar por si mesmo, e desde o inaugural ‘Mentira romântica e verdade romanesca (1961)’, a observação de Girard é pontual – no que desnuda a falência dos modelos erguidos sobre a modernidade, dentre os quais, o próprio modelo de Universidade e seus intelectuais orgânicos – o que se segue é tanto a medida de sua grandeza, quanto o motivo da indiferença academicamente reinante. Ora, mas o que observa Girard como o apanágio da modernidade, que favoreça inclusive a celebração da vida intelectualmente corrompida, igualmente atestável por meio de seus best-sellers acadêmicos? A tese girardiana é indigesta, daí porque reativa à vaidade universitária: a autonomia (celebrada desde Kant) é uma ilusão romântica, cuja suprema característica filosófica é a tese de que, como seu desejo autotélico está inscrito em uma ordem natural, outrora, corrompida; apenas a originalidade excêntrica (estética, política, moral e espiritual) a justifica, daí surgindo anseios revolucionários imediatamente pagãos, suficientemente capazes de reabilitar o homem e a sociedade. Em linhas gerais, o ellan autônomo que surge desde o romantismo, se assenta na perspectiva anagógica à maneira de um sonho ou de um delírio hipostasiante, que na tentativa de contrariar a ordem reinante e reconquistar a ligação perdida com o ciclo natural já corrompido, se anuncia com três características: A) Seus limites de concepção não são a realidade, mas o hipoteticamente concebível; B) O limite do concebível é o mundo do desejo, liberto de todo e qualquer constrangimento – à maneira da suposição idílica da vida pagã e seu estado de natureza; C) O universo utópico deste sonho autônomo fica inteiramente dentro da mente do sonhador, ou seja, ultrapassa o mundo real em nome de uma segunda realidade.

Com acirrado senso de excentricidade contra o establishment, o que surge desde o romantismo moderno é tanto o reclame a uma autonomia do sujeito, quanto a ritualização intelectual – à maneira de uma prática iniciática – cujo empenho mágico é reabilitar o que fora perdido na história; ao modo do movimento dos corpos celestes e sua volta em torno do eixo, ou melhor, à maneira de quem, contra a ordem natural, pretende torcê-la arbitrariamente. Segundo Jacob Needleman, quando uma tradição começa a degenerar, a primeira coisa que se perde é o senso de autocompreensão, ou seja, o centro da personalidade, de modo que se chega à conclusão de que à crise do mundo antigo sucede o surgimento e apogeu do mundo moderno, identificáveis na posterior desorientação histórica (sem precedentes), desde a qual o esforço de autonomia consciente é um fervor revolucionário ou pagão, justificáveis à luz de uma excentricidade autocompensadora, por meio da qual, todo delírio intelectual e respectiva conduta humana é tomada a partir do mais acirrado grau de revolta contra a realidade. Ademais, o sintoma desta doença d’alma é a hiperestesia, ou seja, a defesa de que nenhum pensamento ou ação humana são concebíveis se não forem extremadas ou suficientemente originais, aliás, excêntricas. Exemplares, desta forma, são as condutas pretensamente revolucionárias de Alfred Jarry e Nerval: enquanto o primeiro tinha o hábito de arrastar pela coleira, um sapato pelas ruas de Paris; o segundo, costumava andar com uma lagosta numa correia, modelos arquetípicos da mentalidade moderna, igualmente encontráveis nos reclames academicistas e seus exóticos padrões de comportamento.

Se o gênio é cêntrico, como diria Chesterton, então o contrário é igualmente verdadeiro: o tolo é excêntrico porque pretensamente original, de sorte que, desde a modernidade, a resistência à ordem e consequente celebração da autonomia, favorecem não apenas uma hiperestesia, mas da mesma forma, uma depreciação da tradição, cujas consequências são a imanentização dos símbolos da revelação religiosa, a partir de uma partilha de verdades supostamente redentoras, estrategicamente custeáveis em nome das especialidades e sua oficiosa promoção desde a Universidade laicizante. O que surge desde então, ao modo de uma metástase das relações humanas (contrato primitivo da sociedade eterna, nas palavras de Edmund Burke), é aquilo que Gerard Mead considera como o legado romântico: ‘a encarnação de papéis‘, sentimento de urgência pessoal que desloca os anseios supratemporais – como o heroísmo dos antigos – em nome de posições sociais, historicamente preteríveis. Encarnar papéis – diferentemente do heroísmo clássico, cujo desfecho é o encontro interior do herói; em meio à onipotência de um destino cruel e exterior – é tanto o esvaziamento de qualquer sentido transcendental à história, quanto o tédio de um mundo desvirtuado, sucumbido em um ego coletivo ansioso por compensar suas próprias fragilidades. Se no centro da compreensão clássica, a palavra oracular cede ao epos evocável da poesia, para logo em seguida originar o discurso filosófico, o que se percebe é que a história é o intuitivo desvelamento da consciência, constatável desde o juízo, no ato interior da inteligência, de modo que, pelo contrário, o excentrismo moderno é a tentativa de reduzir a realidade ao cientificamente cognoscível, ou seja, a um constructo manipulável, não pela expressão de sua máxima intuição objetiva, mas por uma autoridade que a conceba. Destarte, sua consagração é a clássica máxima hegeliana, igualmente reproduzível nas searas acadêmicas: ‘Se os fatos contrariam minha teoria, pior para os fatos.’ Aliás, o excêntrico moderno surge desde a Renascença com aquele impulso autoral, constatável na recusa dos médicos em tratar a sífilis, porque Galeno não dizia nada sobre a enfermidade. Portanto, a relação que há entre o excentrismo, o espírito moderno e a autoridade acadêmica (com seus especialistas) não é mera coincidência.

Constatadas a pretensa autonomia e a originalidade moderna, atualmente visíveis em qualquer Universidade, se insinuam as palavras de James Fitzjames Stephen: ‘A excentricidade é, de longe, com mais frequência, um sinal de fraqueza que um sinal de força.‘ – Por que (?) Responderia Girard: porque por ser desejante, o homem não tem outro modelo que não um Outro, aliás, apenas um eu narcísico é pretensamente original e excêntrico, com efeito, tudo o que é grandioso surge de uma fonte superior custosamente incorporada no centro da personalidade, daí a gradual substituição – desde a modernidade – do espírito heroico pela incorporação de papéis em uma atomística social: impessoal e anônima. Extensivamente, daí o espírito do ressentimento, o que surge é a luta agônica interior entre o modelo admirado e o rancor por não sê-lo, de modo que a fonte do autoenvenenamento psicológico é a pretensa originalidade, custeáveis por meio de suas causas redentoras e clamores piedosos. Por conseguinte, o narcisismo moderno – supostamente autônomo – é um sintoma de uma autodefesa do Ego (‘ahamkara‘ em sânscrito), apequenado entre um mundo coletivamente impessoal. Como que perpassada por uma revelação apocalíptica: profética e finissecular, a mentalidade que se funda desde a modernidade – assentando-se na vida acadêmica – é a paródia da contemplação oracular (tensional, aforismática, alegórica), cujo substitutivo é a autodepreciação irônica, caracterizada pelo apego coletivista-paganizante, senso esotérico e nostalgia ao informe caótico, a partir dos quais as obras e as ações de seus entusiastas são autoritárias, confusas e vazias. Desta forma, quando o desejo é acidentalmente contrariado, no instante em que a abertura à Verdade surge desde o centro da personalidade, por meio de um juízo verdadeiro – o Ego se esfacela, surgindo assim a autodescoberta do indivíduo, não como um dado social, pulsional ou mesmo finito, mas como uma realidade pessoal permanente, ou seja, como uma substância indivisível. Portanto, por desdobrar desde o desejo, o traço mais frequente da personalidade, Girard denuncia todas as excentricidades do mundo moderno, edificadas em nome da pretensa originalidade, bem como sobre a autonomia de um sujeito cognoscente. Por certo, por reduzir a vaidade ao seu espelho insuspeitado, é que o epitáfio de René Girard não se inscreve em nenhuma Universidade, de modo que nem mesmo seu nome fora exaltado nos grandes Centros de Ciências Humanas. Entretanto, como um sintoma de um estado esquizofrênico de double bind, que recusa aquilo que admira, dilapidando-o, todo silêncio em nome do já ‘morto’ Girard é obra não apenas da sobreposição dos já cultuados (Nietzsche, Marx, Freud, Deleuze e Lacan), mas igualmente da denúncia contra a mentira romântica, privilegiada nos centros acadêmicos. Como o Aufídio de Shakespeare, que perde todas as batalhas para Coriolano, mas ainda assim cultua-o como um triunfal deus da guerra, a indiferença acadêmica em torno de Girard é estratégica, e revela a medida de seu triunfo: ‘Grandes autores morrem antes de serem lidos ou suficientemente compreendidos. Eis aqui um grande autor.

Portanto, se constatadas as palavras de La Rochefoucauld, para quem, a pompa dos enterramentos tem mais a ver com a vaidade dos vivos do que com a honra dos mortos, logo se chega à conclusão de que, tendo alcançado o centro das disposições humanas em seu ponto mais constante; no âmago do desejo nada original, toda a serena indiferença acadêmica contra um autor como Girard, já era – desde antes –  o espelhamento mimético dos arredores de um cemitério de ideias , suficientemente consagradas pelo espírito de seus mortos-vivos, ao modo do igualmente acadêmico (redivivo) Maquiavel, cujo epitáfio não nos deixa mentir:’ Tanto nomini nullum par elogium – Nicolaus Machiavelli – Obit. An. A.P.V- CDDXXVII.’ Ou seja: ‘Para um tal nome, nenhuma inscrição é suficiente.’ Como a denunciar as mentiras desses mortos-vivos, Girard exumou os ossos desses teóricos, preservando apenas as rivalidades, jamais confessadas, não sobrando nada além de vaidades fantasmais e egos enrijecidos. 

Um dia, Cocteau escreveu – como a denunciar as mentiras românticas da pretensa originalidade universitária: ‘O acadêmico é alguém que vira poltrona quando morre.’ Como os verdadeiros pensadores – os grandiosos ou nada originais, –  são aqueles que lidam com as coisas que estão fora do tempo, daí a atualidade de suas palavras, logo roubo do mesmo Cocteau, o epitáfio imaginário de Girard: ‘Darei a ideia de que estou morto e não será verdadeiro.’  Diferentemente de Foucault; para quem o século ainda seria deleuziano, nem mesmo um século bastaria para Girard, cujo nome – escrito sobre a onda – é o desejo sereno de eternidade. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s