A menção ao poema ‘O Engenheiro‘ de João Cabral de Melo Neto, ainda que meramente ilustrativa, antecipa a especificidade – no mínimo – materialista da engenharia, cujo risco simbólico (quando pautado em uma fonte gnóstico-revolucionária) é planificar a realidade e o homem. Afinal, como diria o poeta: “O engenheiro sonha coisas claras: Superfícies, tênis, um copo de água. (…).o engenheiro pensa o mundo justo,  mundo que nenhum véu encobre.” A materialidade preconizada pelo poeta, quando reclamada por uma fonte gnóstica-revolucionária, tem efeitos tão danosos quanto inapreensíveis. Daí o propósito deste ensaio. 

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Por Ivan Pessoa

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§1

O movimento político-ideológico é impulsionado não, exclusivamente, por ideais redentores, mas, sobretudo, por um anseio à perfectibilidade, de modo que ambas são complementares. Com efeito, como é uma metástase ou degeneração da Revelação cristã – empenhado que é em realinhar o mundo desde o princípio, advindo daí o sentido de revolução – não há no movimento revolucionário outro impulso que não uma paródica incorporação da simbologia religiosa, destacáveis – desde uma fonte textual ou literal – a partir do seguinte eixo: conversão (afiliação ideológico-partidária), vida sacramental (engajamento), apostasia (dissidência) e heresia (contra-revolução). Portanto, como o mundo é um mal a ser combatido e ultrapassado, para que o segundo Advento do Cristo, o Salvador, reabilite o eixo cósmico, e por sua vez, redima a história – logo surge a sedução para antecipar por vias gnósticas e apocalípticas, os detalhes decisivos desta vinda. Gnóstico neste sentido é a tentativa de revelar – por meios sistêmicos – e de forma pretensamente inconteste, aquilo que Irineu (‘Adversus Haereses‘) considera como a passagem crucial entre o cristianismo e a Gnose, mais especificamente presente em Mateus 11;25-27: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem O Filho o quiser revelar.” Em linhas gerais, o entusiasta gnóstico se põe, como um eleito, daí seu insuspeitado elitismo intelectual – na condição propugnada pela passagem bíblica, portanto, como aquele que, tendo entendido o sentido do curso histórico, é suficientemente capaz de antecipar o seu desfecho. Como quem decifrasse as entrelinhas da Revelação, dotando-a de precisão incontestável, o gnóstico revolucionário é a mediania entre o profeta (com seu acirrado grau de messianismo), e o poeta (com sua entusiástica cadência discursiva). A propósito, para os gregos antigos, mais especificamente com Platão, o profeta é anunciador de uma sibilina e sutil mensagem anterior, outrora revelada, mas esquecida, daí a defesa no Fedro:Os poetas são os profetas das Musas.” Deste modo, o simbolismo derivado se dá a partir da incorporação verbal – profética e ligeiramente poética, por quem a professa em meio a uma realidade decaída, a partir da seguinte fórmula e a descoberta de uma verdade revelada: Escritura, Doutrina, Sacramento e Alegoria.

Como cresce como um entusiasmo poético ao redor de uma fonte alegórica, ao gnóstico revolucionário interessa não um discurso tautológico; assente em um juízo verdadeiro, mas sim uma formulação hipotética, sustentada por um ato de fé. ( – Creia em um mundo melhor, antes de contestar.) Eis a fórmula gnóstica por excelência, encantada como o ritual mágico, presente na mentalidade mítica, segundo a qual, todo esforço humano heroicamente grandioso tende a reconquistar a ligação perdida com o ciclo natural já degenerado. Reconquistá-lo, ou melhor, revolucioná-lo quer dizer: descobrir a fonte da verdade revelada; glossá-la ou interpretá-la, para a partir daí, convocá-la – com entusiasmo poético – à redenção. Em linhas gerais, o gnóstico é como um alegorista que, por meio de semelhanças e analogias com o ciclo natural corrompido, diz indiretamente – e em um tom profetizante, sobre o estado de coisa atual; as coisas do fim e sua reabilitação ou revolução. ‘Por meio disto diz aquilo‘. Destarte, é o alegorista que, com fervor poético e incorporação analógico, bem como com visão escatológica, profetiza sobre o campo do possível. Aliás, não se pode separar essa antevisão profética e o discurso poético da própria atividade política, cuja característica – em períodos de exceção – é sondar, evocar e antecipar tragicamente o porvir. Por conseguinte, como se empenha em revolucionar o curso da história desde o zero, ou seja, desde antes de sua  pretensa corrupção, ao espírito gnóstico assoma a expressividade poética e a simbologia profética, crescentes ao redor de uma personalidade incapaz de lidar com o mundo real, cuja fuga é convidativa a um excessivo esteticismo: desde a propagação de ideias até o dandismo gesto-visual. Ora, o que daí surge é o apelo à perfeição perdida, muito bem representada na incorporação de certo aristocracismo decadente, por meio da qual o gnóstico se exime excentricamente de toda compreensão e comprometimento com a realidade ao derredor. Do apego à perfeição perdida surge a perfectibilidade, que nada mais é que o empenho de primeiro: desconstruir, para em seguida estetizar apoteoticamente as relações humanas (do indivíduo ao restante da sociedade), ao modo de um análogo geométrico e suas formas pictóricas ideais. Em linhas gerais, o ponto de intersecção entre o espírito revolucionário; o profetismo poético de seus entusiastas gnósticos e o totalitarismo político é exatamente a propagação de certo esteticismo, cujo propósito é a perfectibilidade, ou seja, a reabilitação do que fora anteriormente corrompido.  

§2

Desde o Renascimento, tal perfectibilidade surge como um clamor mos geometricus à harmonia, de modo que insinua, dentro do ellan ideológico, algo como uma aspiração estético-poética, segundo os termos de Isaiah Berlin. Neste plano é que se torna compreensível a observação de Phillip de Rieff, segundo a qual existe uma relação trágica entre o esteta fracassado e o tiranete político, cuja implicação é a estetização do discurso, ou melhor, sua teatralização . Ora, o que se esconde por detrás de tal esteticismo ideológico, a partir do qual – quando vitorioso – o caminho natural é a propagação de um mundo esteticamente perfectível, mas insuspeitadamente violento porque ritual, à maneira dos sacrifícios pagãos? Aliás, como não lembrar do ‘profeta desarmado‘ Trótski, que por meio de sua autobiografia deixava escapar seu ressentimento de escritor fracassado, portanto, de esteta menor ?: “Desde minha juventude, mais exatamente desde minha meninice, eu sonhava ser escritor.” (‘Minha Vida‘). Ademais, como não recordar a fixação de Che Guevara pela literatura, insinuável não apenas em seus Diários, mas igualmente; e de um modo mais pontual, na carta enviada a Ernesto Sábado, para quem confessa que lera seu ‘Uno y el universo‘, em 1948, com o seguinte entusiasmo juvenil ?: ” Naquela época eu achava que ser escritor era o título máximo a que se podia aspirar.” As citações não são apenas elucidativas, mas cruciais, daí porque denunciam uma certeza: o espírito gnóstico-revolucionário é um delírio profético, e igualmente poético que, incapaz de lidar com o mundo tal qual presente – em uma ordem imponderável ou inacessível a qualquer sistema – projeta por uma via corretiva, ou melhor, esteticamente suplementar (como uma utopia bucólica), novos modelos ou esboços de uma nova história, na expectativa de reabilitar ou revolucionar o mundo supostamente corrompido. Por conseguinte, é próprio do espírito gnóstico-revolucionário a conjunção entre perfectibilidade (- lutemos por um mundo melhor, sem exploração!) e um fracasso biográfico particular, compensado com consequente esteticismo aristocrático, bem como por clamores coletivistas (-sem exploração quer dizer: viver em um mundo natural, como desde o princípio, ou seja, sem opressores!)

Portanto, por evocar tal apelo perfectível sobre o plano da natureza é que o movimento gnóstico-revolucionário se propõe a dirimir toda e qualquer desarmonia ao modo do espírito jardineiro, ou seja, a partir de uma engenharia social, suficientemente capaz de, por meio de uma geometrização das relações humanas, anular todas as suas diferenças e particularidades, decerto em condições análogas à unanimidade pagã, anteriormente corrompida. Desta forma, o que daí pode surgir senão um apelo à planificação, ou seja, à unanimidade geometricamente adimensional, cuja assimilação de toda diferença sucumba em um Indivíduo Absoluto?

Por certo, à guisa de ilustração: nada denuncia melhor o fervor ideológico-perfectível que a tese de Thorstein Veblen (‘The engineers and the price system‘) para quem, o mercado deveria ser conduzido – via controle corporativo direto – por meio de especialistas eminentes, ou para usarmos sua expressão: engenheiros. Para Wassily Leontief, a necessidade de almejar administrativamente a perfectibilidade seria possível, sobretudo, com a coordenação técnica de especialistas, por meio de uma análise objetiva daquilo que é desejável eletivamente em uma dada sociedade. Ora, com qual propósito se empenha uma engenharia social senão disseminar estetização de uma vida harmonicamente almejável por seus benefícios, entretanto, sem suspeitar a unanimidade pagã subjacente, e mais especificamente, o efeito daquele estado de espírito corrente durante o nazismo: Gleichschaltung (‘sincronização‘) cuja máquina publicitária ostensiva – com seus especialistas, convocava uniformemente à satisfação dos apetites mais imediatos, além da gradual eliminação da individualidade? Por conseguinte, a propagação de uma engenharia social revolucionária – sustentada por especialistas de gabinete – que pensam o que deve ser dito, compreendido e socialmente disseminado, é tanto a antecipação esteticamente inapreensível das coisas do fim, pois que retoricamente imperceptível (com aguçada fruição e deleite), quanto o retorno inesperado à máquina pagã sacrificial, que só se sustenta com a eleição de vítimas inocentes ao holocausto. Daí a suspeita de que, ao redor de cada discurso profético, e igualmente poético, algo tenebroso se esconda à espreita, sobretudo, se a perfectibilidade ali se insinuar, seja em períodos de guerra ou mesmo de paz. Aliás, quando as condições históricas favorecem, um esteta fracassado é sempre o duplo de um tirano, haja vista, o artista frustrado em Hitler, entre a arquitetura, as artes plásticas e o ressentimento racial. 

Um dia, no Congresso de Escritores Soviéticos, Stálin disparou algo no mínimo curioso, mas não menos gnóstico: “Um escritor é um engenheiro das almas.” Segundo consta, Stálin argumentou que os escritores são engenheiros pelo fato de edificarem – de dentro para a fora – as condições objetivas e dialeticamente almejáveis da humanidade, empenhados que são em sua consequente transformação. Por ora, tal afirmação nos faz imaginar escritores como porta-vozes estatais, empenhados em apressar a unanimidade coletivista, a dilapidação das escolhas individuais e por fim, policiar o discurso, condenando assim toda espontaneidade verbal, frequentemente forjadas nas relações cotidianas.  Aproximar a engenharia da literatura é sem mais reclamar esteticamente ao discurso o mais aguçado grau de perfectibilidade, como se desde o sucesso da revolução, não importasse à escrita literária senão sustentar ideologicamente a exaltação material do novo homem. Haveria maior atestado de gnose intelectual que conceber a literatura como um sucedâneo da engenharia, ou mais especificamente de uma engenharia social, suficientemente capaz de forjar o novo homem? Alteraria a imagem, se em vez de escritor o termo utilizado fosse: artista? (‘O artista é um engenheiro das almas?’). Se todos fôssemos iguais, seríamos a mesma pessoa, e então seríamos tanto o artista, como o engenheiro. Mas nem mesmo um decreto ditatorial é capaz de dissuadir esta certeza ontológica e individual, por mais que neste final dos tempos: todos os excluídos queiram ser iguais; todos os iguais queiram ser ninguém; e ninguém queira ser Stálin

 

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