A morte é duplamente desesperadora por que, quase sempre, compromete as últimas palavras, sobretudo, as de despedida. A propósito, entre os nativos Tohono O’odham (Deserto de Sonora, Arizona, Estados Unidos), o morto é posto em uma cadeira, e indiferentemente sentado, ‘escuta’ impassível todas as palavras jamais ditas por seus familiares e amigos. Portanto, ainda que mantivesse uma convivência relativamente próxima com o poeta Nauro Machado (1935-2015), ainda assim gostaria de endossar tamanha admiração, assegurando-lhe – em meu mundo particular – o que escrevera Alejo Carpentier sobre Diego Rivera: “homem em quem palpita a alma de um continente.”  Esse continente é o solo etéreo da poesia, lugar imaginário entre a forma e o encantamento. Ademais, na perspectiva de fazer eco à tamanha admiração, reproduzo um texto escrito há um ano sobre o seu penúltimo livro: ‘O Esôfago terminal‘, aliás, uma antevisão de sua morte. Que Deus o tenha, poeta!

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***

 

Esôfago Terminal: A Poesia cura?

Se nossa vida está doente também há de estar nossa arte; e só podemos devolver-lhe a saúde começando de novo, como crianças ou como selvagens (…). Vossa civilização é vossa enfermidade.”

(Carta de Paul Gauguin a Strindberg)

Por Ivan Pessoa*

§1

 

Aceitar o fardo de uma existência; adoecer nos descaminhos de uma civilização já enferma, e logo em seguida, encontrar a cura, ou seja, alcançar o sentido apoteótico da vida: eis o que chamaria de redenção estética. Conta-nos Sylvia Beach em seu livro de memórias (‘ Shakespeare and Company’, 1956) que, certa vez em Londres, o poeta Paul Valéry encontrava-se tão deprimido que planejara – para aquela noite – o suicídio. Em sua prateleira, dois objetos se anunciavam hesitantes: um revólver e um livro. Antecipando-se à captura da obra, começou timidamente a lê-la. De súbito algo se indispôs entre o pretenso suicida e seu propósito. Na proporção em que as páginas eram lidas surpreendentemente, acessos de riso eram externados pelo poeta. Entre a noite anterior e o dia vindouro, mais especificamente na madrugada, um livro se anunciava com sua devida autoria: Aurélien Scholl, e por meio deste – o poeta Paul Valéry hesitara em seu intento, salvando-se da morte acovardada. Em uma civilização carcomida pelos seus cânceres subterrâneos, pergunta-se: pode a poesia encetar a cura?

Ampliar o caso anterior ao sentido da leitura é, sem mais, esboçar uma certeza: um livro deve ser tomado por seu nível de transcendência de sorte que, se este não revigora aquele que lê, por que lê-lo? Em meio a esta descoberta, que faz o leitor transcender às suas circunstâncias de vida, surge o sentido supremo da leitura e, por extensão, a tarefa da atividade literária. Reclamando à poesia esta excelência, e em meio às ruínas de Varsóvia, o poeta polonês Czesław Miłosz teria se perguntado: “O que é a poesia que não salva/ povos e nações?” De longe, se tomássemos salvação como a reconciliação do homem consigo mesmo – na acepção originária de religiosidade, que sentido teria a poesia senão o de reabilitar entusiasticamente aquele que lê, como quem recobrasse a vitalidade?

Por ora, mencionaria a tristeza encantada de Óssip Mandelstam que, segundo os relatos de seus atormentados contemporâneos em um campo de concentração na Sibéria por ordens de Stálin, viram-no pela última vez a declamar; para um grupo de prisioneiros perante uma fogueira, versos de Virgílio. Quem não veria naquele ato, o contentamento e a salvação em seus olhos? Ainda em um campo de concentração russo, mais especificamente no Círculo Polar, o poeta Joseph Brodsky animava o espírito e entrevia a liberdade por meio dos poemas de W.H.Auden, que o salvaria anos mais tardes dando-lhe asilo. Em Kolyma, ainda na Sibéria, o cativo Varlam Chalamov costumava alentar esperanças com a poesia de Maiakovski, além de intercalá-la com Bulgákov.

Ainda hoje, se soubéssemos do infortúnio distante de um poeta: aprisionado em algum lugar, confortando-se com a leitura de autores seminais, alcançaríamos a certeza de seu contínuo processo de sacrifício, e, por fim, compreenderíamos a incorrigível afirmação de T.S.Eliot, que – a bem da verdade -, insinua-se como a salvação reclamada ao labor poético: “Os homens não podem prosperar sem manter a fidelidade a algo externo ao próprio ser.” Suportar a dor; os rumores da morte e da solidão; a indiferença do vulgo; a penúria; o cárcere e a doença – tudo isto só é possível, por que ao poeta só o Verbo regozija, e acalenta o espírito. Por um fôlego ritual, como em uma catarse: o Verbo cura.

Deste modo, o verdadeiro poeta é o sacrificado criador que, em nome de sua obra, renuncia a si mesmo para alcançar a expressão atemporal da criação poética, empenhado, portanto, em revitalizar a continuidade da literatura, bem como à certeza de que cada momento literário singular supõe todos os demais. Como tal atividade do intelecto aspira à universidade de valores espirituais mais primordiais, todo poeta é consequentemente uma única voz neste sempiterno coro de vozes antepostas, cuja ágora é um topos universal. Quando grandiosos, falam a mesma língua, a despeito das particularidades. Por uma razão desconhecida, pois que contingencial – um dentre eles nasceu: Nauro Machado, mas não titubearia em imaginar sua declamação pública em uma fogueira noturna nesta noite terminal, por mais que muitos ainda estejam surdos, como estiveram na Sibéria, em Kolyma, em Varsóvia, em Dachau e em São Luís.

§2

Tendo em mãos o recém-lançado: ‘Esôfago Terminal’, percebo um poeta que, a partir do seu sacrificado estado de saúde, renuncia ao sossego de uma obra  já consolidada, e leia-se: com alentada fortuna crítica, para transcender – desde os temas mais cotidianos da condição humana – até à voz indistinguível, por que universal, da expressão poética. Fazendo-o, Nauro Machado transcende tanto às suas obras anteriores, comunicando-as especularmente, quanto consolida seu nome na tradição dos grandes poetas. Não que em obras pretéritas tal nome já não se justificasse, afinal desde sua obra de estreia: ‘Campo sem base‘ (1958) o poeta já estava inquestionavelmente completo. Entretanto, a vida – no decurso da lavra poética do autor – fora desnudando todas as vaidades e anseios triunfais em meio à indigna cidade de São Luís; convocando-o ao clamor do que verdadeiramente interessa: a poesia, esta que se inscreve – como queria Edmund Burke – não em acidentes e regiões geográficas, mas na comunidade das almas, que irmana os mortos, os vivos e os ainda não nascidos.

Ouvindo tal clamor, e do mesmo modo, descobrindo-se em uma condição provinciana, não restaria ao poeta – tal qual o literato cativo em algum lugar – senão a investida silenciosa na noite atemporal da poesia, o que seria, portanto, a observação de que o exercício da objetividade, e a tão alegada universalidade, requer impassível sacrifício. Como diria Frithjof Schuon, em um contexto extensivo à vida intelectual: “Ser objetivo é morrer um pouco.” Por um processo de amadurecida e contínua transcendência – deste ‘eu’ que adoece para encontrar a cura em meio à cidade adoecida -, em ‘Esôfago Terminal’ se vê Nauro Machado sendo a expressão de sua própria poesia: reabilitada e viva; metafísica, mas não menos sentimental.

A partir deste corpo adoecido, desta mácula de dor, se deixa entrever a via negativa de São João da Cruz, ou melhor, o despojamento que se nos encaminha à salvífica cura.  Com entusiasmo, e desde: ‘Província – Pó dos Pósteros (2012)‘ até o anterior: ‘Percurso de sombras (2013)havia uma predisposição intelectual e literária para as questões existenciais com grande fôlego filosófico, mas, no entanto, por meio desta última obra intestina – toda a obra anterior se confirma e a via poética pesa ainda mais trágica, por que real. À maneira de quem testemunhasse os horrores da catástrofe, e voltasse para narrá-los ainda que com dificultadas palavras, ‘Esôfago terminal’ denota o enfretamento pessoal, e não menos heroico, do poeta na luta contra o câncer, cujo esforço alcança seu propósito: esquadrinhar o absurdo incomunicável da finitude. Por que escreve sobre o próprio infortúnio, transcendendo-o, é que o poeta reaviva o corpo em cura; ao modo do pronunciamento concedido por Paul Celan em 1958 (título homônimo de um poema do ‘Esôfago Terminal’) que, a despeito da crueldade do Holocausto e da banalidade do Mal ao redor, alimentava ainda a esperança curativa por meio das palavras, aliás: “Restava em meio às perdas esta única coisa: a língua.”.

Neste processo de purgar a debilidade e a doença, o Verbo poético restitui o homem à sua morada, com o êxito da eternidade perante a morte. Em ‘O novo globo da Morte’, o poeta alude ao anteriormente dito, desta forma: “A morte é póstuma na eternidade.” Nesta disposição de apresentá-la cruenta e paradoxal, como a mencionar a si próprio em: ‘O Deus Maior’, o poeta insinua: “Meu Mestre veio: um predador que a tudo mata, Por ser semente de uma traição pela raiz.” Em ‘O Calcanhar do Humano ‘ (1981), já estava escrito em predição: “Estou esperando um câncer que seja mestre.”.

 Desta dolorosa experiência pedagógica surgiu uma centena de poemas ainda mais existenciais que em obras anteriores, posto que determinantemente transcendidos. (‘Ó minha cidade’: “Não existe nada além do verbo” / ‘Poema‘: “Câncer civil na vida efêmera fluindo em mim” / ‘A Visita’: “Para visitar-me na abdicação do meu próprio nome, Para abrir-me os olhos e ver o reverso da claridade, Sorrateira veio a doença cruel e impronunciada”.) Questões contemporâneas como a gratuidade da violência, a alienação das cidades, o esfacelamento das relações humanas, crescem desde dentro à maneira de um indesejado desconforto – o desconforto de saber-se mortal em meio a um mundo em ruínas. Em uma situação análoga, e mais precisamente um ano antes de morrer em 2011, o polemista e escritor inglês Christopher Hitchens – acometido da mesma doença que vitimara seu pai, câncer de esôfago, escreveu no Vanity Fair: “O carcinoma trabalha astuciosamente de dentro para fora (…). À pergunta idiota ‘por que eu?’, o universo indiferentemente responde: ‘por que não?'”

§3

Anos antes da descoberta de sua doença, Christopher Hitchens escreveu um livro ignominioso: ‘Deus não é grande (2007)‘ um libelo contra o bom senso e a religião. Desde aquele livro até o derradeiro: ‘Últimas palavras (2011)’ algo surpreenderia – a impressão de que, acometido pelo câncer de esôfago, o polemista ia paulatinamente perdendo a voz, que antes cultivava com a entonação de barítono, até externá-la como o castrato das óperas, ou seja, em um tom demasiado agudo. Por uma ironia qualquer, Deus tornara a voz do polemista Hitchens uma dissonante má-dicção, ou em suas palavras: ‘um agudo guincho infantil, ou talvez suíno. ‘ Desta forma, e em uma tonalidade mais decadente, suas últimas palavras não se fizeram ouvir. Se, como diria Northrop Frye em ‘Anatomia da Crítica (1957)’:a literatura é a imitação da comunicação natural“, o que se espera em um livro entreaberto: o rumor dispersivo de um distraído passatempo ou a voz pungente do encontro consigo mesmo e da salvação?

Como análogo à fala natural: angustiada, encadeável e voltada à fidelidade a algo exterior, a poesia canta entusiasticamente por sobre os séculos, inquietando existencialmente os que a procuram. Encontrando-a imediatamente agora em ‘Esôfago Terminal’, como não concordar com as palavras de André Malraux: “Grandes autores são aqueles cuja voz reconhecemos quando lemos.” (?)

Supondo esta voz que nos salva o provincianismo desta cidade espiritualmente adoentada, intuo seu pulsante ritmo em outras vozes. Vejamos: “O poema vem/ De muitos séculos, Rolando em léguas/ De eternidade. O poema cresce/ Quando se faz/ Ou numa casa/ Ou numa praça, Como conversa/ De árvores mudas/ Ou num silêncio/ Que em paz não dorme. O poema é um câncer/ De invertida rosa/ Sobre um canteiro/ Crescendo em fossas. O poema chega/ Trazendo vozes/ Para os ouvidos/ De um homem só. (Edifício Branco).” Não me surpreenderia se, naquela fatídica noite, Paul Valéry escrevesse este poema, ou se os olhos de Óssip Mandelstam; as mãos de Joseph Brodsky; os dedos de Czeslaw Milosz; as unhas de Chalamov; as lágrimas de T.S.Eliot e os sussurros de Paul Celan reclamassem sua autoria. Entretanto, pela reconhecida grandeza de Deus, silenciando o câncer em Christopher Hitchens, e pela declamação pública e miraculosa de um poeta que, ainda que sem voz, nos redime – capto a universalidade do seu nome: Nauro Machado, ainda que novamente muitos ainda estejam surdos, como estiveram na Sibéria, em Kolyma, em Varsóvia, em Dachau e em São Luís. Ouça: poesia é escuta, tudo mais é olvido. E antes que esqueça: o poeta está curado, o homem – não a cidade.

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Um comentário sobre “A poesia entre nós… (Para Nauro Machado, in memoriam)

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