Noticiado em: http://noticias.terra.com.br/educacao/japao-pede-para-que-universidades-cancelem-cursos-de-humanas,6ebd46a6261af0d724368316dde58525p9j1qquz.html

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Por Ivan Pessoa

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Segundo Jorge Luis Borges, o Japão seria o único país civilizado que conhecera durante toda a vida, ainda que tivesse tido esmerada educação em Genebra, desde a adolescência. ‘ – Como um país tão civilizado pode retirar de seus currículos, os cursos de Ciências Humanas e Ciências Sociais, sob a alegação de que interessa à sociedade, os cursos que contemplem suas necessidades‘ (?), (assim pensam alguns, sobretudo, os teóricos mais corporativistas). Ora, sem alarmismo, e, muito menos passionalidade, os efeitos dessas discussões eminentemente teóricas que advêm daqueles consagrados best-sellers academicistas, sobretudo, se se pensarmos na realidade Ocidental, têm sido cada vez mais danosos, quando não desastrosos, encurtando a capacidade de percepção ao modo de uma ‘pneumatologia’, ou seja, a um grau imperceptível de demência. Ademais, a necessidade dos cursos de Humanas e Sociais deveria atender com grande fôlego intelectual àquele binômio: homem e sociedade, necessidade que durante séculos educou inúmeras mentalidades à maneira de uma formação integral (Bildung), até ver despencar seu edifício em meros constructos retóricos ou dogmatomaquias ortodoxas.

 Qual a necessidade de se perder tanto tempo, sem suspeitar outras possibilidades, com conceitos mais abstratos e imponderáveis que uma nuvem em branco: luta de classes, inconsciente, patriarcado, fim do capitalismo, estrutura, Dasein, desterritorialização, agenciamento; quando lá fora – para além da Universidade: a criminalidade real, o trânsito real, a rua real e os homens reais se digladiam, amam, odeiam e se atropelam constantemente, a despeito daquela nuvem em branco? Jamais uma teoria investiu sobre a realidade sem esbarrar em seus próprios limites, com efeito, a realidade é muito mais intuitiva que forçosamente teórica, exigindo muito mais uma formação simbólico-dialética daquele que investiga, que o faz recorrer – a partir dos níveis investigativos – a outros graus de conhecimento (literatura, cinema, religião, etc.), que propriamente uma visão sistêmica, descritiva e fechada.

Por fim, fico extremamente triste com uma notícia do tipo japonês, que certamente sobreporá toda sorte de engenharia sem fundamentação humanística ou coisa que o valha. Entretanto, desde quando tais Ciências Humanas e Sociais serviram para algum outro expediente, senão o da autocompreensão do sujeito perante a realidade circundante? Ademais, ainda que entusiasmado com aquelas discussões mais teóricas, pondero sobre os reclames da sociedade contemporânea e seus clamores mais imediatos (fome, crescimento demográfico, sustentabilidade, violência urbana, tédio e fundamentalismo religioso), de modo que ao recordá-los, sinto desde logo uma angústia inconfessada por ver e ouvir muito barulho por nada entre as discussões acadêmicas de Humanas e Sociais; ao redor de conceitos que não descem uma nuvem em branco – e o pior: nem mesmo do pedestal. Aliás, sempre percebi naquelas discussões entre as Humanas e as Sociais – distanciadas consideravelmente do mundo ao redor -, a indiferença aristocrática e o diletantismo que ocupava o espírito de Tibério: ‘Que música cantavam as sereias?’ (Suetônio: ‘A vida dos doze césares’). Passados todos esses séculos será que os japoneses aprenderam a cantar?

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