Por Ivan Pessoa

***

O olho que tu vês/ Não é olho porque tu o vês/ É olho porque te vê. ”
(António Machado)

 

§1

A maior e mais notável unidade de uma obra é a vida inteira daquele que a escreveu. Portanto, a obra é o sucedâneo parcial daquele que a realizou, de modo que é efeito de uma vida inteira. Entre fracassos, decepções, desapontamentos e esperanças, a obra se desdobra desde os gestos mais singelos; os hábitos mais espontâneos, crescentes e reajustáveis a partir do olhar daquele que a labora. Desde as enervações dos olhos e seus vislumbres do porvir, o autor escreve sua obra, por vezes tão silencioso e cônscio de si mesmo, que tudo ao redor esmaece. Aliás, o olhar é um lapso espiritual que se antecipa às eventuais palavras de alguém. Por ora, nada é mais determinante que cotejar as fotos dos homens comuns e em seguida contrapô-las aos olhos dos grandes escritores, pensadores e homens de gênio. Perceptível, desde seus esgares, é a presença informe de algo a ser dito; alguma palavra por ser confessada; algum desconforto de severa melancolia; algumas ideais imprecisas que, quiçá, jamais encontrarão um rabisco, e, sobretudo, uma presença clandestina, evocativa à perplexidade de quem sondou o desconhecido – e ante suas fronteiras, captou lapsos e instantes, envolto na dificultada tarefa de comunicá-las. A consequência natural de fitar os olhos de um gênio criador, seja presentemente, ou mesmo por meio de uma fotografia, é relativamente decisiva, como no episódio em que Arnold Bennet – ao encontrar pessoalmente T.S.Eliot, em uma declamação púbica, em 1917 – deixara escapar: “Se eu fosse uma casa, isso a teria derrubado. ” Os olhos são as diáfanas janelas dessa casa, cruciais para aqueles que a investem em travessia, até o ponto da autocompreensão. Em meio à essa janela, os olhos fixam o ponto adimensional, que por sua vez é o centro, o Ser. Fixá-lo é transcender, alcançando um estado próximo à ‘dharana’ hindu, ou seja, instante focal em que a eternidade é total e simultânea (‘tota simul’). Por conseguinte, ver é um grau especificamente superior da participação divina, cujo suprassumo é depreender – desde o que se vê – a realidade, total e simultânea. Ver é a face tátil da participação, aquilo que a desabriga.

§2

Entre o autor e sua obra, destaca-se o olhar criador (incomunicável) e sua expressividade verbal, postergáveis quando as palavras são suficientemente passíveis de autocompreensão, de modo que perduram desde que eventuais e solitários leitores descubram a si próprios. Como a obra é sucedâneo da pessoa do criador, logo a presença é o que a sustêm, daí o espanto e consequente fascínio perante a inteireza corporal do autor, fitável magicamente desde os olhos. Por certo, esta impressão pessoal – destacada desde a presença real do criador com seus olhos de suspeita – é infinitamente superior ao legado parcial, impresso em um conjunto de obras, cuja experiência (eventual) para um leitor é sempre fabulosa e imaginária. Exemplares, neste sentido, são as distintas observações desencadeadas (em períodos historicamente distantes) a partir de relatos espontâneos, perante pessoas reais e suas respectivas presenças, olhares. A primeira, feita pelo Marechal de Grammont, ao escutar um sermão de Bossuet, em plena Catedral de Notre-Dame, consagrada pela seguinte exclamação: “Caramba! Ele tem razão”, o que renderia (séculos mais tarde) a belíssima observação de Julien Green em seu ‘Journal’: “A oratória de Bossuet lhe surge tão violenta como se ele apenas houvesse herdado de Cristo o látego com que o Messias expulsou os vendilhões do Templo. ” A segunda é a objeção inquestionável feita por François-Régis Bastide ao controverso filósofo francês: “Quem escutou Sartre falar dez minutos sabe o que é a vertigem da inteligência. ” Portanto, a presença pessoal daquele que escreve, desdobrável a partir de seus gestos, olhares e palavras, é mais decisiva à apreensão de suas ideais, que propriamente a impressão posterior e consequente glosa ao redor de sua obra, afinal a obra é um sucedâneo parcial da presença. Deste modo, o que há de mais grandioso no criador não é apenas o efeito de suas ideais – impressas e afixáveis em seus livros – mas o conjunto de suas ações desinteressadas que, como um inventário de sua passagem, totalizam sua presença total. O olhar é determinantemente maior que a obra, de sorte que afortunados são os que a sondam, ainda em vida.

Ver, dialogar, ouvir, conviver e olhar, quiçá, sejam mais importantes para aquele que descobre a obra de um criador, que o ato solitário de ler; experiências reais que só são compensáveis (quando jamais consumadas) com o poder fabular da imaginação. Ademais, como imaginar a situação embaraçosa em que se encontrava o então General Bonaparte, cuja expectativa – em uma reunião com outros generais para destitui-lo de seus propósitos alvissareiros – fez o General Augereau precipitar as seguintes palavras para Masséna, logo após a extraordinária reunião: “Não posso compreender o que me aconteceu; esse sujeitinho me fez medo (?). ” Tomado de tamanho magnetismo, raciocínio impecável, precisão verbal e olhares incisivos, Napoleão Bonaparte não permitiu que Augereau se pronunciasse um segundo sequer. O relógio vivo (alcunha de Napoleão, nas palavras de Paul Morand); o carisma da presença se sobrepusera, calando seu apequenado rival. Analogicamente, à maneira daquela experiência napoleônica, o partilhável instante com um autor – constante desde seus olhares mais espontâneos e sua expressividade nada verbal – é suficientemente mais crucial para o interlocutor, que toda mistificação autoral ao redor de seu nome, de sorte que a presença se impõe, com efeito, é a suprema realidade da pessoa que a manifesta. A presença é o que desencadeia a apreensão intuitiva, total e simultânea da própria realidade, similar em tudo ao que dissera Hegel sobre Napoleão: “Eu vi a história montada a cavalo. ”

§3

Relata o monge beneditino David Steindl-Rast que, quando criança, sua brincadeira preferida era fitar os olhos de seu primo sem piscar, ou seja, até lacrimejar. Segundo ele, em uma dessas ocasiões, através daqueles olhos infantis, teve a primeira experiência daquilo que Maslow chama de: ‘experiências extremas ou místicas.’ Em linhas gerais, através da retina de seu primo, o monge viu Deus. Não seria isso a experiência religiosa de estar na presença de um criador: ver através dos olhos, em meio à tanta cegueira? Daí a conclusão do monge: “Você deve estar presente para que eu possa me encontrar.” Estar presente é pressuposto do encontro consigo mesmo, consequência da realização pessoal, ou seja, do encontro com a realidade, cujo ponto de concentração é a própria eternidade. Se alguém escreve, e em seguida é suficientemente compreendido por seus escritos, sua presença parcial (condicionada à apreensão e viabilidade das ideais por parte do leitor) é um convite ao caminho da realização, que só se consuma com o custoso encontro integral consigo mesmo. Entretanto, a presença viva aguça esse estado de percepção, afinal em meio a interlocutores, o olhar do autor se impõe, desencadeando – por vias efetivas – o encontro.

Clarice

Por fim, vendo esta foto de Clarice – segura e igualmente ferina, com olhos búdicos; como a pantera rilkeana, sempre à espreita – pude confirmar a experiência de Arnold Bennet perante Eliot; de Bastide perante Sartre; de Grammont perante Bossuet; de Augereau perante Napoleão; do monge perante Deus. Ver Clarice é uma experiência fatal, similar em tudo a ver especularmente os olhos fitos de alguém. Entreolhos, Deus espreita.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s