Por Ivan Pessoa*

Em novembro de 1872, Flaubert encaminhou para Turgueniev o seguinte desabafo: “Estou escrevendo um livro em que descarrego toda a minha bílis.” O livro em questão era: ‘Bouvard et Pecuchet‘, resultado de 8 anos de elaboração; mil e quinhentas páginas lidas, a partir de milhares de volumes pesquisados. Em linhas gerais, eis a pretensão de Flaubert, em suas próprias palavras: “explicar a totalidade da vida intelectual da França.” A obra, tida como uma enciclopédia farsesca, surgira naquele período como um diagnóstico da já comprometida vida intelectual francesa, com seus ideólogos, cacoetes e modismos. Em suas ‘Cartas Escolhidas‘, o desabafo de Flaubert revela o estado de coisas daquele período intelectualmente convulsivo: “Já não sou capaz de conversar com ninguém sem me zangar; e sempre que leio alguma coisa escrita pelos meus contemporâneos fico cheio de raiva.” Compreendendo-a nos termos de uma radiografia espiritual, Ezra Pound escreveu no ‘Mercure de France‘, em 1922, que havia uma relação entre o ‘Ulisses‘ de James Joyce e ‘Bouvard et Pecuchet‘ de Flaubert. Tomando-as como semelhantes, Pound escreveu que, o erudito Leopold Bloom – ao modo de Bouvard e Pecuchet – era representativo de um período especificamente decadente, sob tais termos: ” eis a base da democracia, em que o homem acredita naquilo que lê nos jornais.” 

Mutatis mutandis, compreendo toda a obra de Olavo – em um gênero filosoficamente mais refinado – como um documento espiritual flaubertiano, empenhada em contrariar as platitudes reinantes na esfera cultural, esmigalhando-a como fraude. Com uma obra densa, rica e profícua – em um extremo que toma a astrologia como simbolismo cosmológico, cujo cenário do drama é o cosmos, não a psique, até a denúncia voegeliana da gnose revolucionária infiltrada na intelligentsia reinante, Olavo de Carvalho se impõe como um incômodo outsider, escandalizando o coro dos contentes no mesmo tom que Alexandre Dumas Filho creditara a Flaubert: “Ele é um desses carpinteiros que derrubam toda uma floresta para fazer um guarda-roupa.” Endossar esta metáfora carpinteira em benefício de Olavo de Carvalho é, neste contexto flaubertiano, uma compensação meritória de quem se dedica a minimizar as perdas da tradição, assentada na certeza burkeana do ‘guarda roupa da imaginação moral‘,  por meio da qual a cultura se preserva contra os rumores nefandos da decadência. 

Se a história já certificou o aguçado senso de humor de Millôr Fernandes, para quem o comunismo é um alfaiate que, quando a roupa não fica boa, faz alterações no cliente, pensadores como Flaubert e Olavo de Carvalho (em searas distintas) são os que preservam fisicamente o próprio guarda roupa, sustentando sua sobrevida não como uma obra sistêmica, mas com uma disposição de caráter: severa, intelectualmente exigente e politicamente incorreta. 

Nas últimas décadas, a presença decisiva de Olavo de Carvalho entre os corredores universitários e seus rareados espaços de vida intelectual, alterna duas possibilidades extremadas: desde o despeito – em seu sentido mais ressentido – até a devoção, em ambos os casos, determinados em função da coragem e destemor de seu célebre porta-voz, suficientemente capaz de, em uma breve objeção, aludir ao homônimo irlandês: “Cuidado! Um ollav pode matar seus inimigos com suas palavras. ” Por ora, como não aludir à presença polemicamente decisiva e intelectualmente privilegiada de Paul Claudel – continuador involuntário de Flaubert, em meio à França do século passado? Em seu ‘Magnificat’ não haveria traços dessa personalidade ollav, constantes na seguinte objeção: “Não me percais com os Voltaire e os Renan e os Michelet e os Hugo e todos os outros infames. Suas almas estão com os cães mortos (?)”. Em meio a um ambiente intelectual fervilhante e igualmente promissor, Claudel sobrepunha coragem, perspicácia e sobretudo densidade, na contramão das ideais e nomes já consagrados, tornando-se o nome imediatamente próximo a Flaubert. Como não creditar seu nome como um intrépido ollav flaubertiano, haja vista, sua crítica nada complacente com ‘Os Irmãos Karamazov’ de Dostoiévski, presente em seu ‘Journal’: “Imensa decepção! O livro é medíocre, mal composto (…). Quanta tagarelice para algumas páginas admiráveis! ” (?). 

Consagrado não apenas por suas obras, filosoficamente impecáveis, mas sobretudo pelas polêmicas, ao redor de Olavo de Carvalho há uma aura tão grandiosa quanto ofuscante, o que reduz as vaidades a nada. Como quem aprimorasse o primor verbal de Flaubert com o intelecto católico de Claudel, consumando assim uma obra de incomum envergadura, Olavo de Carvalho é um fenômeno relativamente infenso ao academicismo; o que agrava a recepção de suas ideias entre acadêmicos. Entretanto, com grata surpresa e mui recentemente, a postagem do Prof. Ernildo Stein no facebook, sinalizou uma gradual abertura à discussão de suas ideias. Na ocasião, escrevi a nota que segue. 

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Por Ivan Pessoa

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A Universidade brasileira, sobretudo, no âmbito da Filosofia, além de não conseguir inserir nenhuma contribuição universalmente inteligível para além de seus muros, ou seja, na História do Pensamento; com exceção pontual dos já consagrados Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva e Newton da Costa, especializa-se cada vez mais em copiar e copiar, renovando assim o gesto triunfal dos abobalhados acadêmicos de Flaubert – Bouvard e Pecúchet, cujo suprassumo de sua produção é a descoberta a quatro mãos: ‘Copier comme autrefois!’ (‘Voltemos a copiar!‘). Quando li essa declaração do Prof. Ernildo Stein, quiçá, o maior especialista em Martin Heidegger neste país – pude observar algo muito oportuno: grandes intelectuais – como os grandes homens – são aqueles que pensam para além das diferenças político-ideológicas e pessoais, ou seja, rastreando um senso mínimo de razoabilidade naquilo que é lido ou apreendido. Grandes marxistas, como Lucien Goldmann, Lukács, Antonio Gramsci, Georges Politzer são tão inteligíveis quanto grandes conservadores, claro, guardadas as devidas proporções. Entretanto, na Universidade brasileira ler e pensar por tickets (expressão adorniana) é como seguir uma tendência, ao modo de quem veste a última moda ou se envaidece por que segue a ‘haute couture‘. No Brasil é chique ler os nomes impronunciáveis, como: Wittgenstein, Sloterdijk e Slavoj Žižek, entretanto, como um exercício anamnético a ser encaminhado para seus entusiasmados leitores, uma única pergunta pode ser comprometedora: ‘se todas as tuas mentiras fossem suprimidas, qual a única verdade que te restaria?’ Portanto, para qualquer leitor de filosofia no Brasil, ficar indiferente à ‘Dialética Simbólica‘ e ‘Aristóteles em Nova Perspectiva‘ de Olavo de Carvalho – até para refutá-las -, é no mínimo, um descaso; uma afetação moral, ao modo daquele que, envaidecido, supõe que faça filosofia porque pronuncia sem provincianismos o nome de: Gilles Lipovetsky ou Gilles Deleuze. A propósito, isso não exime o leitor de achar Olavo insuportavelmente imprudente em alguns assuntos para além de sua área de especialidades: simbologia, filosofia, ciências políticas e religião comparada. Entretanto, por um recurso à humildade, sei os limites da minha compreensão, e, em uma centena de assuntos, não faço a mínima ideia de por quais meios dirimi-las, daí o êxito daqueles que estudam durante anos e anos, independentes da Universidade, haja vista, o próprio Olavo de Carvalho. No auge da fenomenologia em Marburg/ Freiburg, quando Edmund Husserl era a última moda, o único que o entendera em caráter imediato, fora Martin Heidegger, cuja fama se espalhava entre os acadêmicos por ser um ‘bel esprit‘, um pedante intelectual capaz de calar auditórios. Cassirer e Max Weber padeceram publicamente por isso, e tal postura explica – em tese – sua recusa a Sartre. Portanto, tamanha é minha felicidade ao ler esse testemunho do Prof. Ernildo Stein sobre Olavo de Carvalho, sobretudo, por partir do mais heideggeriano entre os intelectuais e docentes brasileiros, e do mesmo modo, inquestionavelmente capaz de calar auditórios. Por certo, como não lembrar Malebranche (?): “O estúpido e o pedante estão igualmente fechados à verdade; há porém a diferença de que o estúpido a respeita, enquanto o pedante a despreza.” Ser estúpido é um estado de espírito entre a ignorância e a vaidade; como aquela certeza do ouvinte que, incapaz de rebater o que escuta e sentado aos pés distantes do orador, sai a contar vantagem: ‘- De longe, e aqui embaixo, o palestrante é menor do que eu.’ Entretanto, para ser pedante duas coisas são necessárias: ser suficientemente grande e calar auditórios.

Não cito nem mesmo Olavo pela presença e postura tão conhecidas, mas Flaubert e Claudel calariam?

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